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Opinião

Fracassos, Benção e Maldição

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Jogador de futebol sentado na chuva, em um campo enlameado, cercado por imagens simbólicas de atletas de boxe, beisebol e basquete, representando histórias de fracasso, superação e resiliência no desporto.
Mas nem todas as histórias de fracasso terminam em culpa. Algumas transformam-se em histórias de resistência | IMAGEM: ChatGPT (IA)

Muitos dizem que Domingo é um dia sagrado. Inclusive, a própria palavra, em sua origem  – vindo do latim Dies Dominicus ou Dominica – significa “Dia do Senhor”. Para os povos pagãos, não era diferente: este dia em específico era utilizado para reverenciar o astro Sol, daí a origem do inglês Sunday e do alemão Sontag. Claro que para mim isso não seria exceção: todo Domingo serve para relaxar com a minha família, aproveitar o marasmo antes do começo dos dias de trabalho e, como não poderia de faltar, dia de futebol. O dia 19 de Janeiro de 2025 seria um Dia de Futebol. Entretanto, não foi nem de longe “O Dia do Sol”, mas sim o Dia do Senhor dar um recado através de um dilúvio.

Num magnífico tapete de um campo de escola básica, marcado por seus buracos dignos de trincheiras ou plantações de batata, o clássico Camisolas Brancas x Camisolas Pretas acontecia. Eu, animado por estrear a camisa do Santos de Neymar e Ganso, entrei com raça e confiança. Posso ser modesto em muitas coisas, mas no campo, sei que tenho uma ou duas cartas na manga — ou melhor — nas chuteiras. Entretanto, as coisas rapidamente começavam a ficar estranhas. E essa estranheza não só afetava a mim, como também os meus colegas de equipa que, em circunstâncias normais, também eram hábeis no jogo. O Destino parecia conspirar contra nós naquele dia. Não sei se foi a chuva que lavou as nossas capacidades no relvado ou se foi uma punição divina por utilizar uma camisola de um rival do Palmeiras. Independemente do que seja, algo era certo: não era o meu dia.

Mesmo com um jogador a mais, os Camisolas Brancas amargaram uma derrota de 10 a 5. Uma série de defesas espetaculares do guarda-redes adversário junto com doloridas bolas ao poste só deram um gosto ainda mais amargo a algo que já era humilhante. Dada a chuva pesada de Inverno que caía, foi um banho de água fria, tanto no sentido figurado, quanto no literal. Foi necessário um banho de água quente, e um chá para evitar uma possível gripe, para processar o que havia acontecido. Sei que já discuti sobre derrotas que são injustas: muitas vezes a má fé de quem coordena, e condena, o jogo é o suficiente para determinar um resultado ruim. Mas existem fracassos que simplesmente não têm explicação. Como se pode justificar os casos onde o injustificável acontece?

O Passar do Tempo

Ao longo de sua História, a Humanidade sempre louvou divindades para tentar compreender melhor as matérias incompreensíveis. Até porque para se existir o “Dia do Senhor”, é preciso que exista O Senhor. É um pensamento reconfortante, mas assustador ao mesmo tempo, pois tão natural quanto acreditar em forças místicas, é acreditar que existem duas forças antagónicas representando todo o Bem e o Mal. Ao mesmo tempo onde uma pessoa pode ser abençoada, outra pode ser amaldiçoada. Nos desportos, isso não poderia ser diferente. Acontecimentos injustificáveis exigem justificações sagradas.

No final dos anos 80, uma luta contra Mike Tyson certamente poderia ser chamada como uma maldição. Até porque o lutador parecia encarnar algum espírito selvagem para vencer as suas lutas: o seu recorde de 37 lutas, 37 vitórias sendo 33 delas por nocaute só comprovam isso. No entanto, foi justamente no Japão, terra conhecida pelo seu misticismo e conexão religiosa, onde esse espírito seria exorcizado. No dia 11 de Fevereiro de 1990, Tyson enfrentaria Buster Douglas, sétimo no ranking mundial, para defender o seu título de campeão de boxe entre pesos-pesados. Todos davam a luta como garantida, apenas “mais um dia de trabalho” para o campeão mundial. Entretanto, todos que estavam no Tokyo Dome notavam algo de diferente no desafiante.

Uma luta na qual todos esperavam que durasse dois rounds já se estendia quase aos nove rounds. Porém, faltando 10 segundos, Tyson aplica um uppercut de direita e coloca Douglas no chão. Tudo parecia retornar à ordem natural das coisas. Demorou mais do que o esperado, mas Mike Tyson manteria o seu título mundial. Contudo, essa sensação de normalidade não demorou nove segundos, tempo para Buster Douglas levantar-se. Ele foi o primeiro lutador a se levantar depois de ter sido derrubado pelo campeão mundial. E também seria o primeiro a derrotá-lo num ringue de boxe.

O mundo desportivo estava em choque. Até hoje, esta luta é considerada como um dos maiores revezes da história. Quando os jornalistas perguntaram a Buster Douglas como ele havia derrotado o ‘Iron Mike’  mesmo sendo o azarão, a resposta dele foi simples:

Minha mãe contou a todos que sabia que eu iria derrotar Mike Tyson e eu não queria fazer dela uma mentirosa.

Os holofotes de Tyson ofuscaram o período sombrio que Buster Douglas passara antes da luta decisiva. Sua esposa, mãe de seu filho, ficou com um problema sério nos rins. O golpe mais forte foi a perda da sua mãe, vítima de uma hemorragia cerebral, apenas 23 dias antes da luta. Não só as probabilidades estavam contra ele, literalmente: as chances para Douglas vencer Tyson eram 43:1, como também a sua saúde, já que ele havia contraído uma forte gripe dias antes do grande evento. A promessa de um filho à sua mãe foi o suficiente para superar todas essas dificuldades. Buster Douglas parecia ter pedido emprestado por nove segundos as asas que Lula Pearl, sua mãe, havia conquistado no Céu. A benção maternal derrotou um Homem de Ferro.

Se alguns são abençoados por figuras maternas, outros são amaldiçoados por figuras mais juvenis. No início do Século XX, uma equipa reinava soberana no campo diagonal de Beisebol. Os Boston Red Sox haviam conquistado cinco dos primeiros quinze Campeonatos Mundiais, que não eram exatamente mundiais, mas todos conhecem a mania dos estadounidenses de denominar tudo que os envolva como um fenómeno global, incluindo o primeiro título em 1903. A estrela dos três títulos conquistados em 1915, 1916 e 1918 era Babe Ruth, o bambino, considerado até hoje o maior jogador da história desse desporto. Tudo apontava para a criação de uma dinastia no mais novo hobby americano. Isso se Harry Frazee, dono dos Red Sox à época, não quisesse financiar uma peça de teatro: para pagar os custos de seu musical, Harry Frazee vendeu Babe Ruth aos New York Yankees. Naquele momento, os Red Sox venderam não só o melhor jogador da franquia, mas também toda a sua alma e glória. À custa de um musical, uma tragédia formou-se.

Enquanto os ianques empilhavam títulos graças ao talento de Babe Ruth, os Red Sox amarguravam 60 anos sem nenhuma glória em seu nome. Durante esse tempo de vacas magras, a equipa disputou três campeonatos mundiais. Em 1946 e 1967, os cenários foram muito parecidos: a equipa bostoniana enfrentava os St. Louis Cardinals e precisaram de disputar o campeonato no último jogo. Apesar do favoritismo na primeira final e da bravura na segunda, foram os Cardinals quem conquistaram o título. Por fim, em 1975, os Boston Red Sox teriam mais uma chance de fazer história contra uma outra equipa de vermelho: Cincinnati Reds.

O momento parecia ser da equipa bostoniana: no sexto jogo, o recebedor Carlton Fisk acertou um home-run que decidiu o jogo, causando euforia a todos nesse dia, ao acenar para o público enquanto a bola decolava. Contudo, a euforia transformou em amargura: assim como nos anos anteriores, os Red Sox haveriam de perder o Jogo 7, a última e decisiva disputa dentr uma melhor de sete, para a equipa de Cincinnati. Essas três derrotas, apesar de doloridas, foram praticamente um “mais do mesmo”. A este ponto, qualquer adepto de Boston já estava acostumado com essa sina. Contudo, em 1978, o que parecia ser algo ocasional, tornou-se algo sinistro.

Naquele ano, os ares pareciam mudar em Boston. No final de Julho, os Boston Red Sox lideravam a Liga Americana (fase preliminar antes do Campeonato Mundial) por uma margem de 14 vitórias contra o seu arquirival New York Yankees. Dessa vez não havia voltas a dar: o caminho estava trilhado para o sucesso. Mas uma sombra antiga voltou a assombrar os Red Sox. Em apenas dois meses, a diferença de vitórias indicada pelo número 14 foi demolida e substituída pelo número 4. Muitos pensam que a Ásia Oriental e o Leste dos EUA pouco têm em comum. Mas quando se trata de maldições, não existem barreiras, nem fronteiras. Assim como para alguns países asiáticos, como China, Japão e Coreia do Sul, o número quatro é evitado por ter um som parecido com a palavra “morte”, a cidade de Boston viria a temer esse número. Num período de 4 dias, Boston Red Sox e New York Yankees se enfrentariam 4 vezes. Foram 4 derrotas, todas expressivas e por uma longa margem. O resultado foi tão devastador que deram o nome de “Massacre de Boston”.

Grandes Vitórias 

Aquela imensa liderança no Verão transformou-se em um angustiante e frio empate de 99 vitórias para cada lado no Outono. Uma partida de desempate em casa poderia ser o livramento do que seria um dos maiores colapsos da história. Se a equipa vermelha vencesse, tudo seria esquecido e eles continuariam vivos para finalmente quebrar a maré de azar. Isso se Bucky Dent, um jogador ianque que havia marcado apenas 4 homeruns em toda época, não tivesse acertado a tacada decisiva para decretar a vitória aos nova-iorquinos. Placar final: 5 vs. 4. A vitória ditou o ritmo para o título mundial dos Yankees. Eram 60 anos de desgostos. E eles haveriam de continuar.

Por mais vitoriosa e histórica que seja a cidade de Boston nos desportos, ela parece fadada à períodos de mediocridade e conformismo. Mesmo após uma década de glórias nos anos 60 e uma rivalidade histórica com os Los Angeles Lakers nos anos 80, os Boston Celtics não conseguiram escapar o destino da cidade. Na primeira metade da década de 2010, a equipa tradicional de basquete tinha uma performance ruim. Nem a chegada do jovem Isaiah Thomas (guarde bem esse nome) conseguia levantar aquela equipa. Parecia que os papéis estavam invertidos: se os místicos Celtics estavam em má fase, eram os azarões da capital, Washington Wizards, que estavam em grande fase. E tudo graças à um jovem talento chamado John Wall.

Só pelo simples facto de John Wall ter se tornado um jogador de basquete é um milagre por si só. E não sou eu que digo isso, o próprio disse que:

Se não fosse o basquete, estaria morto ou na cadeia.

Wall não só teve de passar muito tempo afastado de seu pai (que ficou muitos anos na prisão por crimes como um homicídio de 2º grau e assalto à mão armada), como acabou por perdê-lo definitivamente quando tinha apenas 9 anos, vítima de um cancro no fígado. Frances Pulley, mãe de John Wall, precisou preencher essa lacuna deixada pelo marido. Sobrecarregada por conta do trabalho extra que precisava de fazer para sustentar a família, ela pouco conseguia blindar o filho do ambiente hostil que o rodeava. O seu talento na quadra de basquete era indiscutível. Mas infelizmente John seguia um caminho sombrio. O jovem, frustrado e influenciado pelas circunstâncias, começou a cometer pequenos delitos e a se meter em brigas tanto com seus companheiros de equipa quanto em sua vida pessoal. Seu comportamento era tão errático que ganhou a alcunha de “Crazy J” e chegou a ser alvo de tiros em duas ocasiões diferentes. Contudo, mesmo nesse cenário terrível, foi o amor e sacrifício de Frances Pulley que tirou John Wall da criminalidade. Mesmo com dificuldades financeiras profundas, Frances comprou um sapato de 200 dólares para John utilizar durante uma competição de alto nível.

Ficamos sem luz por um ou dois dias. Essa foi a gota d’água. Se minha mãe fez isso por mim, eu ia fazer questão para que ela ficasse satisfeita pelo resto da vida dela

A partir desse momento, o seu ódio transformava-se em garra. Utilizando o basquete como sua válvula de escape, John Wall começou a apurar a sua defesa e parou de ameaçar os seus companheiros. A sua nova ética de trabalho e espírito de equipa lhe rendeu atuações brilhantes na faculdade e, consequentemente, tornou-o a primeira escolha do Draft de 2010. O seu sucesso foi meteórico: ele foi eleito o 2º melhor caloiro da época, perdendo apenas para Blake Griffin, outro grande jogador. Esse progresso continuou: de 2010 até 2014, John Wall havia se tornado o jogador da franquia e estrela do Washington Wizards. Contudo, mais um triste capítulo marcaria a história do armador.

Benção e Maldição?

Dentre todos os seus fãs, uma deles destacava-se: Miyah Telemaque-Nelson, natural de Washington, tinha apenas 6 anos e já lutava contra Linfoma de Burkitt, um dos mais agressivos tipos de cancros que afeta os linfonodos. Assim como John, que utilizava o basquete como símbolo de esperança e fuga da realidade, Miyah via o desporto da mesma maneira. Símbolo de resiliência e luta pessoal, o armador inspirava e dava esperanças para a jovem menina, que tinha o seu quarto todo enfeitado com posters do jogador.

O laço entre os dois tornou-se ainda mais forte quando Telemaque-Nelson foi ver um jogo dos Wizards nas bancadas e Wall fez questão de conhecê-la. Uma linda amizade vinha crescendo. John Wall fez de tudo por ela: participou de uma campanha para Miyah conhecer a sua cantora favorita, Nicki Minaj, e em todos os jogos ele tinha o nome dela estampado em seus sapatos. Parece que seus sapatos sempre foram mais do que uma simples vestimenta. Apesar de todo o amor e carinho que ambos sentiam um pelo outro, Miyah infelizmente perdeu a batalha para o cancro em 9 de Dezembro de 2014. Mais uma vez essa terrível doença havia tirado alguém especial de John Wall.

No próximo confronto entre Washington Wizards e Boston Celtics, onde tínhamos parado a nossa conversa em primeiro lugar, todos conseguiam ver que John Wall estava completamente destruído. O jogador recebeu a terrível notícia apenas horas antes do jogo. O abalo parecia se refletir em campo, já que os Wizards perdiam por 23 pontos no 3º quarto. Entretanto, algo sobrenatural aconteceu naquela noite. John Wall teve uma das melhores atuações da sua carreira: ele distribuiu 17 assistências, a maior marca de sua carreira até então, e fez 26 pontos.

Houve dois tempos-extras: no último deles, a vantagem era de 7 pontos para a equipa de Boston. Dos 26 pontos que o armador havia marcado, 10 deles foram feitos nos minutos finais para virar a partida e decretar a vitória para os Wizards: 133 a 132. O técnico da equipa de Boston, Brad Stevens, reconheceu a tremenda partida do armador dizendo que “John Wall nos matou nas transições”. Entretanto, quem observava o jogador depois do jogo, não via um atleta que acabara de brilhar na quadra. Na entrevista pós-jogo, ele desabou de chorar e terminou dizendo:

Esse jogo foi realmente dedicado a ela. Seria um dia ainda mais difícil se tivéssemos perdido. Eu só entrei num modo onde eu não queria perder esse jogo

Esse espírito acabou por transceder para além daquela partida. No final da época, John Wall colecionou várias conquistas individuais, liderou a equipa junto com o lendário ala Paul Pierce para os jogos decisivos — os play-offs — e a sua primeira vitória nessa fase depois de 9 anos. Claro que nada disso jamais seria o suficiente para encher o vazio que Miyah Telemaque-Nelson havia deixado. Absolutamente nada nesse mundo é capaz de livrar um homem de uma dor tão grande. Contudo, se a dor e o luto duram eternamente, então a idolatria, a inocência e principalmente a amizade entre os dois também deverão seguir essa mesma regra.

Não seria a primeira vez que Washington Wizards e Boston Celtics se enfrentariam. Inclusive, os celtas teriam a sua revanche. Tudo graças à Isaiah Thomas. Toda a carreira desportiva de Thomas foi traçada por ironias do Destino: seu pai era um ávido fã dos Los Angeles Lakers, grande rival dos Celtics. Por ter perdido uma aposta, ele precisou nomear seu filho em homenagem a um armador odiado tanto pelo Celtics quanto pelo Lakers: o “original” Isiah Thomas. Apesar de partilhar o talento de seu homónimo, Isaiah Thomas sempre foi muito baixo para os padrões da NBA: com apenas 1,75m, ele sempre foi o menor jogador em qualquer quadra que pisava.

Apesar de seus pais tentarem desmotivar o jovem rapaz, inclusive colocando-o para disputar jogos contra adultos e obrigar o filho a pensar num plano B, nada disso o afetava. Inclusive, o seu talento era tão grande que ele conseguia jogar de igual para igual até contra os adultos. Apenas sua irmã, Chyna Thomas, era quem apoiava o irmão. Sempre uma fonte de inspiração e suporte, Chyna viajava junto com o seu irmão mais velho para todos os jogos que ele disputou no secundário.

Contra todas as expectativas e graças ao apoio de sua irmã, Thomas conseguiu atingir o seu sonho: os Sacramento Kings selecionaram-no como a última escolha do Draft de 2011. Quando perguntado acerca de uma pick tão baixa, Isaiah respondeu de forma simples:

60ª é só um número.

Dito e feito: em questão de meses o jovem jogador já era titular e nunca mais perderia o seu lugar. Em sua 3ª época, ele se tornou o jogador mais baixo da história da NBA a ter uma média de 20 pontos e 6 assistências por jogo. Na mesma época, ele se tornou o jogador mais baixo a conseguir um triplo-duplo (24 pontos, 11 assistências e 10 rebotes). Inclusive, esse feito aconteceu numa das várias batalhas contra o Wizards de John Wall.

Após uma breve passagem pelo Phoenix Suns, Isaiah Thomas iria encontrar o que seria a sua casa nos seus anos de glória: os Boston Celtics. Seu crescimento — não de altura, mas de performance — era notável logo em seu primeiro ano na equipa do trevo de quatro folhas. No seu segundo ano, não só ele já era titular, como fez mais uma vez história tornando-se o jogador mais baixo — tanto na lista do Draft, quanto em altura — a se tornar um All-Star. Seu talento era tanto que o técnico Brad Stevens, o mesmo que elogiou John Wall, montou o ataque todo em volta de Isaiah. Essa tática deu muitos frutos e fez com que Thomas quebrasse recordes atrás de recordes dentro da lendária franquia. Todos os seus sonhos estavam sendo realizados na frente de seus olhos. Entretanto, um pesadelo iria tirar a pessoa que tornou tudo aquilo uma realidade.

Chyna Thomas, a irmã e único membro da família que o apoiava incondicionalmente durante o difícil início no basquete, morreu em Washington (terra natal dos irmãos) devido a um acidente de carro. Ela tinha apenas 22 anos. Ao saber dessa notícia devastadora, Isaiah tinha perdido completamente a sua paixão pelo desporto e queria desistir. Até porque, mais nada fazia sentido sem ela. Entretanto, ele lembrou-se quais foram as palavras que a sua irmã caçula sempre lhe dizia: “Don’t stop!” (“Não pare!”). O seu desejo seria concedido. E foi a tempo.

Celtics

Enquanto tudo isso acontecia, os playoffs estavam sendo disputados. Os Celtics começaram mal. Perderam os primeiros 2 jogos contra os Chicago Bulls. Ao perceber o perigo que corriam, acordaram e venceram os próximos 4 jogos: 4×2 para a equipa de Boston e vaga para a segunda eliminatória. Detalhe: de todos os jogadores das duas equipas, Isaiah Thomas foi o maior pontuador. Quis o destino que o Washington Wizards, ainda liderados por John Wall, enfrentassem a equipa celta. Seria em Boston o primeiro confronto, no mesmo dia em que Chyna Thomas seria sepultada em Washington.

Isaiah foi até o funeral de sua irmã e ainda conseguiu voltar a tempo para jogar a partida. A sua força de vontade era tanta que o armador chegou até a perder um dos dentes da frente durante o jogo, precisando de fazer uma cirurgia depois. Mesmo com todas essas circunstâncias, ele conseguiu 33 pontos e 9 assistências, liderando a equipa à vitória. Essa série parecia estar interlaçada com o acidente trágico, visto que no dia 2 de Maio de 2017, segundo jogo do confronto, coincidia com o aniversário de Chyna Thomas. Isaiah Thomas não tinha certeza se iria para o jogo por conta da carga emocional que o dia carregava e por conta da cirurgia que precisou de fazer devido ao acidente da primeiro partida. Mesmo com todos esses problemas, ele foi a jogo.

Por ser um espaço vasto, infinito e estar localizado literalmente em cima de nossas cabeças, o Céu sempre foi associado ao plano divino. Os povos civilizados antigos, como os sumérios, egípcios e maias não diferenciavam astronomia e teologia. Até os romanos decidiram nomear os seus deuses em homenagem aos planetas. Para os judeus, muçulmanos e católicos, o maior Estado de Graça possível é justamente atingir os Céus. O que é celestial representa a perfeição e harmonia no seu estado mais puro. Poucas pessoas chegaram tão perto de um estado como esse. Isaiah Thomas, ao tentar contactar a sua irmã, foi uma delas. Num dos jogos mais emocionantes de uma série de Playoffs, o armador simplesmente fez 53 pontos — a segunda maior pontuação nos playoffs por um jogador dos Celtics. Todos que viram aquela partida estavam completamente incrédulos. Nem o próprio Isaiah Thomas acreditava ou sequer compreendia o momento.

Eu não ouvia nada. Era como se eu estivesse na quadra sozinho. Sentia que estava no ginásio só arremessando de volta no YMCA em Tacoma, Washington, fazendo coisas que fazia quando tinha uns 13, 14 anos. (…) Parecia que minha irmã estava ali, a cada arremesso que entrava, ela estava lá para ajudar, a cada movimento que eu fazia, os caras deixavam-me passar, mesmo sem fazer jogadas elaboradas, eles simplesmente me deixavam passar. Era como se ela estivesse ali me ajudando. Isso me inspirou muito. Não consigo nem descrever aqueles momentos, porque eu estava passando por momentos muito difíceis.

Numa situação como aquela, mesmo não estando fisicamente ao lado do irmão, Chyna conseguiu arranjar alguma forma para apoiá-lo dentro de campo. Não só apoiá-lo como motivá-lo a fazer uma das melhores partidas da história da NBA. Os Washington Wizards, que contavam com espetaculares performances de John Wall, deram trabalho: a série só foi decidida no último jogo — o Jogo 7. Entretanto, mais uma vez apoiados por Isaiah Thomas, os Boston Celtics foram vencedores.

Existe algo místico e extraordinário na forma como esses dois atletas estão conectados. Ambos jogavam na mesma posição, nem sequer eram para estar a praticar basquete, mas foram motivados por uma familiar a continuar a lutar pelo sonho. Tiveram um estouro meteórico, tendo curiosamente o auge no mesmo ano, 2016/17, e perderam uma pessoa muito importante durante esse percurso. Infelizmente, o Destino de ambos foi sacramentado logo depois dessa série entre Washington Wizards e Boston Celtics: nenhum dos dois jogadores foi o mesmo após esse dia.

A Grande “Infecção”

Após chegar na final de Conferência, equivalente a uma meia-final, Isaiah Thomas não conseguiu carregar a equipa de Boston para as finais, muito por conta de uma lesão recorrente no quadril. Essa lesão não o limitou somente nos únicos dois jogos em que atuou nas finais, ela limitou-o para o resto de sua carreira. Por conta da neglicência da equipa médica de Boston, que subestimou o impacto da lesão, Thomas foi assombrado por constantes dores na região. Ele nunca mais atingiu o brilhantismo que havia alcançado.

No outro lado da moeda, John Wall parecia ter um futuro melhor, assinando um novo contrato recorde e tendo até dois anos de boas performances. Contudo, ele desenvolveu uma infecção após uma cirurgia no calcanhar e ainda rompeu o tendão de Aquiles num acidente doméstico. Isso tirou-o das quadras por praticamente dois anos. Para se ter a noção, a infeção era tão grave que existia uma chance real de que ele precisasse amputar seu pé. Junto com lesões recorrentes em seu joelho, John foi chutado e desprezado por todas as equipas que passou nos anos finais de sua carreira.

Há alguns nomes para definir o que aconteceu com esses jogadores brilhantes e com feitos históricos, mas com perdas desvastadoras e finais de carreira que não condizem com o passado. Alguns chamam de coincidência, outros de sina. Entretanto, há dois adjetivos que definem a moral dessas histórias: impiedosa e injusta.

Igualmente impiedoso e injusto foi o que aconteceu após a brutal e traumática derrota do Boston Red Sox em 1978. Mesmo depois de uma ferida tão aberta, havia uma oportunidade de ouro para estancá-la. Em menos de uma década, mais especificamente 1986, a equipa vermelha iria disputar novamente o Campeonato Mundial. Para o 6º jogo, a vantagem era de 3 a 2 no confronto contra outra equipa de Nova Iorque, os Mets. Tudo estava encaminhado para o fim desse longo pesadelo. O placar era 5 a 3, o suficiente para garantir a glória. Faltavam apenas três strikes para todos os adeptos dos Red Sox desatarem um nó na garganta que perdurava mais de meio século. Strike um: fora! Strike dois: fora!

Dois batedores eliminados com facilidade. Strike três era o que bastava para todo um público que só sabia o significado da palavra “azar” finalmente saber o que significava “ter sorte”. Bill Buckner teria a honra de participar dessa linda história, sendo ele encarregado de ficar na primeira base. Para quem passa por muitos momentos difíceis, é natural que haja uma desconfiança após uma série de acontecimentos fáceis. Afinal de contas, a ordem natural das coisas é elas retornarem à normalidade. Infelizmente, essa infame lei veio à tona…

Após uma má sequência de arremessos por parte da equipa de Boston e uma jogada digna de circo, o que era para ser o final perfeito tornou-se num evento sufocante. A equipa de Nova Iorque empatava o jogo: 5 a 5. Para piorar a situação, todas as bases estavam ocupadas para os Mets. Após um momento de muita tensão, finalmente os adeptos dos Red Sox conseguiram respirar com tranquilidade: uma rebatida fraca por parte do atleta dos Mets resultou numa bola lenta e rasteira. Sua velocidade era tão fraca que ela parecia desfilar diretamente para as mãos de Bill Buckner, quase que à procura de um carinho.

Dominar uma bola dessas é um dos lances mais triviais do beisebol. Qualquer pessoa sem experiência no desporto consegue executar esse movimento. Entretanto, para aquele que carrega todo o peso de gerações de dor e miséria, até a mais básica das tarefas parece difícil. Aquele que é assombrado por uma maldição que existe muito antes da existência dessa pessoa é traído pelo seu próprio corpo. Onde impera o místico, não há espaço para o trivial.

Numa fração de segundos, a vida de um homem e a esperança de uma cidade foram destruídas. Tudo por causa de uma simples bola de beisebol que, à procura do conforto de uma luva, precisou se contentar com um longo e solitário caminho pelo lado direito de um campo de diamante. Os Red Sox também precisariam engolir a seco uma derrota para o Mets no 6º jogo e uma disputa de um 7º jogo decisivo. A normalidade que faltava para Bill Buckner apareceu no resultado do próximo jogo: vitória e título para os Mets. Derrota e conformismo para os Red Sox.

“bode expiatório”

Nos desportos, o termo “bode expiatório” é utilizado ao atleta que possui o fardo de suportar todas as culpas e responsabilidades por alguma derrota. A origem dessa expressão tem raízes hebráicas, mais especificamente nas leis dadas por Moisés. No Dia da Expiação (Yom Kippur) dois bodes eram escolhidos: um para ser sacrificado, outro para carregar todos os pecados, transgressões e faltas do povo de Israel. Não só esse é o dia mais importante para os judeus, como também possui um simbolismo enorme para os cristãos, já que este ritual seria um pequeno paralelo ao que aconteceria ao Messias e Filho de Deus, sendo este o maior sacrifício da história da Humanidade. Aqui, vemos que a busca por redenção e justificativas está intrínseca à nossa natureza. Muito mais fácil do que procurar justificações no plano metafísico é procurá-las no plano físico.

Todas as frustrações e misérias acumuladas de uma claque não só precisariam de ser justificadas, mas também precisariam de recair em alguém. Tudo isso na esperança que, algum dia, todos esses sentimentos sejam purgados por uma futura glória. O resultado de tudo isso foi um homem linchado e incriminado por um simples deslize. Possivelmente não existe nenhum bode expiatório tão claro quanto Bill Buckner. O jogador teve de se mudar para o outro lado dos EUA por conta do imenso escrutínio sofrido. Por mais injusto que seja, quando se trata de sentimentos como dor e raiva, não existe nenhuma componente lógica. Uma pessoa que cometeu um acidente de trabalho acabaria por sofrer a mais impiedosa sentença que um homem pode receber: a lembrança de um fracasso. Entretanto, já vimos que o Destino tende a ser descrito dessa forma.

A este ponto, todos já sabiam de uma coisa: Não Há Alegria em Boston. 2004 marcava o 86º ano sem um título mundial. Os Boston Red Sox até chegaram na final da Liga Americana, mas o destino insistia em colocá-los no páreo contra os New York Yankees. Todos já sabiam qual seria o resultado. Por que dessa vez haveria de ser diferente? No ano anterior, eles mais uma vez perderam no último jogo para o seu maior inimigo. Para piorar as coisas, a equipa de Nova Iorque abriu uma vantagem de 3 a 0, todas as três partidas com diferenças expressivas. Nenhuma equipa conseguiu virar uma série perdendo por 3 a 0. Isso era um facto consolidado em mais de 100 anos de história do desporto e milhares de jogos decisivos. Se nenhuma equipa na história havia realizado esse feito, não seria os amaldioçados Red Sox que desafiariam a lógica contra a franquia mais vitoriosa da história do desporto. Seria necessário um milagre para salvar a série.

Não existe algo no mundo que esteja ruim que não possa piorar. Para o 4º jogo, os melhores arremessadores do Red Sox estavam lesionados. Não é a toa que muitas pessoas não acreditam em milagres. Em campo, no entanto, a a defesa da equipa de Boston mantinha o jogo equilibrado. Apesar dos esforços dos jogadores de Boston, o último inning (uma ronda completa no beisebol) indicava uma vantagem para os Yankees por 4 a 3.

Quem iria para a base central arremessar para os Yankees era Mariano Rivera, um dos melhores finalizadores de jogo à época. Para se ter a noção da improbabilidade da equipa vermelha vencer aquele jogo, Mariano não havia permitido uma única corrida sequer à base em 3 anos. Contudo, ao chegar da meia-noite em Fenway Park (estádio dos Red Sox) a Cinderella bostoniana parecia dar as caras: Kevin Millar. O folclórico jogador da equipa de Boston chega na primeira base após uma inexplicável sequência ruim de arremessos por parte de Rivera. Logo em seguida, David Roberts consegue um roubo de segunda base milimétrico e, eventualmente, arranca o empate após uma tacada segura de seu companheiro: 4 a 4. Entretanto, o empate não era o suficiente. E os jogadores de Boston sabiam disso: depois de muita agonia e luta durante mais 3 innings, David Ortiz acerta um homerun. O começo de algo mágico poderia estar por vir. Placar da série: 3 a 1.

Aos poucos, um efeito nunca antes visto parecia movimentar os ares daquela série: Pedro Martínez, considerado um dos melhores arremessadores da história do jogo, retornava para o 5º jogo representado a equipa vermelha. Entretanto, um inverno que dura quase um século não haveria de se tornar primavera em alguns dias. Foi uma batalha intensa, equilibrada. Tão equilibrado o jogo era que ele havia se estendido por 14 innings — 5 a mais do que o regularmentar. A partida seria decidida por quem tinha mais resistência. Todos os arremessadores de ambas as equipas estavam esgotados. E David Ortiz, mais uma vez, estava no momento certo e na hora certa. Depois de aguentar um bombardeio de 9 arremessos, o rebatedor finalmente consegue atingir a bola. Depois disso, bastou Damon correr para a base principal e para o abraço. Placar da série: 3 a 2.

O Jogo 6 foi numa Nova Iorque fria, garoante e nevoenta. Logo no início do jogo, os ianques mostravam a sua rica história e o “padrão de sucesso jamais alcançado em todo o desporto” em cartazes e vídeos nos ecrãs gigantes. O que os Red Sox fizeram com essa informação? Beberam shots de Jack Daniels antes do jogo. Fábulas não cativam àqueles que só conhecem histórias de terror. Quem encapsulava esse sentimento como ninguém era Curt Schilling. Lesionado desde o primeiro jogo, ele precisou de fazer uma cirurgia medieval e bárbara para religar o seu tendão do pé aos ossos. A sua cirurgia era tão primitiva que sua meia sangrava. Os jogadores estavam literalmente “dando o sangue” por aquele resultado. Esse esforço não foi em vão: apesar de alguns sustos, a partida impecável do arremessador e seus companheiros garantiam a vitória no jogo. Era a primeira vez na história que uma equipa empatava depois de estar atrás por 3 a 0. Placar da série: 3-3.

Hora de Brilhar

As estrelas finalmente pareciam se alinhar em Boston. Pela primeira vez desde sempre, os ianques sentiram que não eram capazes de conseguir retomar a glória para as suas mãos. Quase um século de dores e desilusões ia desfazendo-se milagre por milagre em cada um dos jogos. Era como se existisse alguma força metafísica que guiasse os jogadores, o campo, a bola e até as boas decisões dos árbitros para dar fim a uma cruel maldição com a mais bela e inacreditável virada de todos os tempos. E todo o esforço, dedicação e garra de uma equipa inteira seriam glorificados e recompensados com uma grande vitória.

Foi na cidade que nunca dorme onde os adeptos de Boston viram os sonhos se tornarem realidade. Foi um verdadeiro espetáculo, equivalente a um show da Broadaway. Com direito a Grand Slam, os Boston Red Sox venciam os New York Yankees por 10 a 3, conquistando a Liga Americana. Foi a maior vitória da história do Beisebol e discutivelmente a maior dos jogos coletivos. Placar da série: 3-4.

Muitos acreditam que ver 22 homens a chutar uma bola, 10 gajos a arremessar uma esfera num cesto ou 18 jogadores a tentarem dar uma volta num campo diagonal não é nada mais nada menos do que lazer. E no fundo, eles têm razão. Mas ao relembrar de histórias como um azarão que derruba um Homem de Ferro, um colapso coletivo no momento mais decisivo da época, dois jovens jogadores conectados por duelos, perdas e perseverança, a vida de um homem sendo desmanchada em questão de segundos, um passado doloroso sendo lavado da maneira mais poética possível, lembro o verdadeiro motivo para se amar os desportos. Todos esses eventos refletem dois dos aspectos mais bonitos da Humanidade: a imperfeição e a busca por sentido.

Por definição, nós somos imperfeitos. As propriedades mais humanas de todas são as nossas falhas e erros. Tão certo quanto à morte, é o fracasso. Num mundo tão robotizado e frio que estamos presentes, é natural nos esquecermos do fator falho inerente a nós. Nos é imposto que, para uma pessoa ter valor na sociedade, ela precisa de suceder e vencer sempre. Por vezes, esse ideal ilusório nos faz perder a dimensão do que já conquistamos, mas tomamos por garantido.

Para os cínicos e estatísticos, John Wall e Isaiah Thomas tiveram carreiras medíocres, sem um título da NBA e maculadas por lesões. Mas o que lhes falha em suas análises é algo que prevalece para além dos troféus e dos números. Mesmo com tantas dificuldades e obstáculos durante toda a vida, ambos se tornaram símbolos de resiliência e raça, foram a cara de uma franquia e conquistaram feitos que jamais imaginariam alcançar quando começaram no desporto. E isso nem sequer é a parte mais importante: tanto John quanto Isaiah são amados por todos os fãs de basquete, muito por conta de suas personalidades humildes e de bom humor.

Entretanto, teimamos em nunca estarmos satisfeitos. Quando James Clear diz que “A dor do fracasso está diretamente relacionada à altura da expetativa”, ele mostra que tão natural quanto às nossas imperfeições, são as nossas insatisfações. Sempre existe algo que nos corre mal ou que não estava previsto nos planos. E para lidar com esses sentimentos seja a dor da derrota num clássico ou a angústia de ter tido um mau dia no trabalho a maioria de nós tenta encontrar maneiras para justificar esses sentimentos injustificáveis.

E é verdade que muitas vezes temos muitos motivos para estarmos insatisfeitos. Como se explica uma dor que persiste por quase um século? Uma equipa que sofre constantemente pelos os mais diferentes motivos desde uma falha individual num lance básico até um colapso de proporções catastróficas não pode ser simplesmente “só azar”. O que dizer para uma pessoa que perde a mãe no momento mais importante da sua vida? Ou ver uma criança morrer junto com os seus sonhos e esperanças por conta de uma doença fatal? Como lidar com um acidente fatal que arranca sua irmã a única pessoa que te apoiou em toda a vida de seus braços? Nenhum desses acontecimentos podem ter sido em vão… Certo?

Fracassos, Benção e Maldição

Talvez o caminho mais fácil para lidarmos melhor com as incertezas e mistérios do místico é aceitá-lo como ele é. Quem vê os horrores do Universo, também deve ver as maravilhas que ele nos traz. Ambos não têm razão ou porquê. Eles só são. Não digo que devemos aceitar todas as derrotas que sofremos na vida calados e para acostumar com a frieza das circunstâncias ruins. Entretanto, a derrota e o fracasso são essenciais para o crescimento de qualquer pessoa. São os fracassos que formam o caráter de uma pessoa. Só quem passou por dificuldades sabe apreciar as pequenas vitórias da vida.

Para além disso, existe algo muito nobre em aceitar que fomos derrotados. É necessário humildade para reconhecer que, por melhor que sejamos em qualquer coisa nessa vida, ninguém consegue fugir dessa amargura. Isso sem contar que existe um tom de esperança para aqueles que se sentem com pouca sorte. Se todos haverão de perder algum dia, isso inclui os maiores de toda a história. Pelé, o maior campeão da história das Copas, foi eliminado na fase inicial do Mundial em 66. Michael Jordan, o homem que conquistou dois tricampeonatos da NBA, foi derrotado pelo inexperiente Orlando Magic, equipa que nem uma década de fundação tinha. O New York Yankees, disparadamente a maior franquia da história do beisebol após a chegada de Babe Ruth, sofreu a maior virada da história do beisebol talvez até de todos os desportos.

Se até os grandes perdem, eu não seria exceção. Enquanto ainda processava o facto que a minha atuação no jogo de Domingo não foi boa, outras derrotas foram aparecendo ao longo do caminho. Algumas eram mais fáceis de explicar, outras mais difíceis. Todas delas eram bem mais difíceis de aceitar. Admito que o motivo principal desse texto era tentar fazer pazes comigo mesmo depois de tanto falhar, seja num simples jogo de futebol, seja na fase mais crítica da minha vida académica.

É um processo longo: para além de ser uma pessoa bastante espirituosa, o que ainda me faz acreditar que algo desequilibrou as minhas energias naquela noite chuvosa, também sou orgulhoso. Assim como qualquer um que estava a ler esse texto, não gosto de perder. Mas ao relembrar todas essas histórias, acabei por me relembrar de uma lição muito simples: Todos nós temos o direito de falhar. As falhas fazem parte da nossa história. E mesmo que muitos tentem dizer o contrário, elas jamais irão nos definir como pessoa.

Como vimos aqui, há muitas maneiras para explicarmos a aparente indiferença na forma como o Universo nos trata. Pessoalmente, apenas acho que nós simplesmente não temos capacidade para compreendê-lo em sua totalidade. Até por isso que tentamos preencher essas lacunas que não podem ser explicadas de forma racional. Independentemente disso, acho que existe algo muito belo em, mesmo com os fracassos que a vida nos inflige, encontrar motivos para nos sentirmos abençoados e até dedicar dias para essas forças exteriores, como fizemos para Domingo. Eu, por exemplo, genuinamente acho que só de ter a possibilidade de jogar futebol com os meus amigos no final de semana é, por si só, uma bênção.

Quanto aos Red Sox? Depois desse milagre e com a confiança em cima, os Boston Red Sox viriam a ganhar a Série Mundial nº 100 contra os Cardinals. Fantasmas foram exorcizados. Gerações e gerações de grandes foram vingadas por derrotas dolorosas. Senhores de idade que em 86 anos jamais viram o seu amado time vencer qualquer coisa viam história acontecer com os seus próprios olhos. Uma maldição foi quebrada. Até porque nenhuma maldição dura para sempre e tudo, absolutamente tudo, precisa mudar eventualmente.

Gosto de acreditar que todos aqueles fãs que jamais conseguiram assistir uma conquista dos Red Sox em vida e que depois ganharam bandeiras de vitórias em seus túmulos conseguiram apoiar a sua equipa de longe, no Céu. Assim como a mãe de Buster Douglas, a amiga de John Wall e a irmã de Isaiah Thomas fizeram pelos seus amados.

Texto da Autoria de Matheus Bissacot

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