Crónica
Educação.exe Parou de Funcionar
Há polémicas que duram dias. Outras semanas. E depois há a educação em Portugal, que já dura mais tempo do que alguns alunos estudam para um exame nacional. Nos últimos meses, tivemos de tudo: obras obrigatórias que deixam de ser, equações que perdem números, programas que ganham buracos e, agora, o grande upgrade do ano — a digitalização dos exames. Sim, porque se há coisa que faltava ao sistema educativo português era… mais um sistema.
Digitalizar para complicar…
A ideia parece simples: digitalizar exames. Modernizar. Evoluir. Dar aquele ar de “somos europeus, temos QR codes”.
Na prática? Temos folhas A3 dobradas em A4, múltiplas páginas, agrafos estratégicos e um QR code que parece ter saído de um tutorial de 2012, com resolução duvidosa.
Eventualmente, a pergunta é inevitável: seria mesmo necessário?
Mas não. Temos QR codes. Assinatura. Verificação. Confirmação da confirmação. Só falta pedirem reconhecimento facial e palavra-passe para escrever sobre Camões.
No final, há o detalhe técnico que ninguém parece ter considerado: os professores mal conseguem ler algumas caligrafias em papel… quanto mais na digitalização.
A digitalização, que deveria simplificar, acabou por complicar. O que deveria clarificar tornou-se mais opaco. O que deveria ser modernizado parece ter sido feito com uma nostalgia estranha por processos antigos mal adaptados ao novo.
Isto não é inovação. É um PowerPoint transformado em política pública.
Se pensam que não existem declarações oficiais como um relato de um jogo de futebol, estão enganados. Recentemente, uma nova declaração, talvez escrita pelo assessor de comunicação, volta a ser noticiada: Trata-se de “alarmismo exagerado” e de “resistência à digitalização por parte de professores e escolas”.
Portanto, quando um sistema falha, a culpa nunca é do sistema. É de quem tem de trabalhar com ele.
Talvez não seja resistência. Seja experiência. A quem está no terreno e sabe distinguir inovação de improviso.
O exame, o sistema e o desaparecimento
E depois chegamos ao momento mais bonito de tudo isto: as notas.
Ou a falta delas.
Casos de exames com classificação zero. Outros com notas negativas (sim, negativas — um conceito inovador num sistema que supostamente vai de 0 a 20). E o melhor de todos: exames que, após pedido de reapreciação… simplesmente desapareceram.
Desapareceram.
Não foram reavaliados. Corrigidos. Encontrados. Não foram.
Isto já não é um sistema educativo. É um episódio perdido de uma série administrativa em que ninguém sabe quem escreveu o guião.
E, no meio disto, há alunos que dependem destas notas para entrar na universidade. Não é um teste qualquer. É um ponto de viragem. E esse ponto de viragem está, aparentemente, sujeito a erros.
Como não há preço certo, temos solução à vista! Soluções criativas que valem entradas grátis. Alunos com nota negativa passam a ter 9,5 devido a erros do sistema. Apareceu recentemente em alguns jornais digitais (porque as impressoras já não acompanham tantas atualizações e digitalizações).
Não é recuperação. Não é avaliação. É… arredondamento institucional.
Agora poderemos pensar: será justiça… ou apenas gestão de danos?
Porque, no fim, a nota sobe. Para alguns, como é percetível. Mas a confiança… essa continua em queda.
Universidade: missão cada vez mais opcional
E quando finalmente chegamos às candidaturas ao ensino superior, os números fazem o que muitos já suspeitavam: caem.
Mas não caem devagar. Não caem discretamente. Caem com estrondo.
No primeiro dia de candidaturas, registaram-se cerca de trezentos alunos.
No ano passado, foram mais de dez mil.
Sim, leu bem. De dez mil… para trezentos.
Nem é preciso ser especialista para perceber que isto não é uma tendência. É um alerta.
E aqui começam as perguntas que ninguém quer fazer: Estamos a falar de falta de interesse… ou de falta de condições?
Porque, ao mesmo tempo, ouvimos falar de mais exigência, mais filtros, mais critérios, mais dificuldades de acesso a bolsas — como se o ensino superior tivesse passado de direito a privilégio… sem grande anúncio oficial.
E no meio disto, surge a frase que ficará na história recente da educação.
“Os alunos sabem o que fizeram no exame.”
Claro. Porque nunca ninguém teve uma branca. Nunca ninguém duvidou. Nunca ninguém saiu de um exame achando que correu mal… e, afinal, correu bem.
Talvez o problema seja mesmo esse. Há quem tenha passado pelo sistema educativo sem nunca ter sentido o que é estar dentro dele.
Educação em modo reforma (com QR code)
Neste momento, a educação em Portugal parece aquela pessoa que já devia ter pedido reforma há anos, mas continua a aparecer todos os dias, cansada, confusa e a dizer “isto antigamente é que funcionava”.
Só que agora decidiram fazer-lhe uma cirurgia estética digital.
Resultado? Continua cansada… mas com QR code.
As imagens dos centros de correção, com caixas empilhadas, folhas espalhadas, sistemas a falhar e plataformas paralelas, parecem menos um ministério e mais um armazém logístico de uma empresa que perdeu o manual de instruções.
E depois há o detalhe mais interessante: ninguém é responsável.
As culpas circulam como cartas de UNO: trocam, bloqueiam, invertem — e, no final, ninguém fica com o problema. A não ser os alunos.
E onde está o Trump?
Boa pergunta!
Porque enquanto por cá digitalizamos exames, lá fora digitalizam conflitos.
Mais uma vez, o Presidente Tp voltou ao ativo com aquilo que melhor sabe fazer: transformar instabilidade em estratégia. Uma frase sua mexe com os mercados, outra com as alianças, outra faz o petróleo subir. Todavia, ainda não ponderou em mexer com o seu assessor de imagem, já que a sua cor de pele tem voltado a ser demasiado bronzeada, para quem passa tanto tempo dentro de uma sala com botões.
Já não é política externa. É meteorologia global.
Declaração — sobe o combustível.
Ameaça — sobe a tensão.
Discurso — sobe a fatura.
Assim, tudo se liga.
Porque enquanto um ministro cria sistemas que não funcionam, há professores que não sabem se conseguirão pagar o combustível para chegar à escola. Enquanto se fala de inovação, vive-se na sobrevivência.
Nos Estados Unidos fala-se em desmontar o departamento de educação. Em Portugal fala-se em reformá-lo.
A diferença? Lá assumem a rutura.
Cá testam os limites.
Educação: Gerações em buffering
E depois olhamos para os jovens.
Uns perdidos entre exames que desaparecem.
Outros, entre tendências absurdas, dizem que um veterinário é mais decente do que um hospital.
Outros, simplesmente, a tentar sobreviver a um sistema que muda mais depressa do que conseguem adaptar-se.
Existem notícias que parecem sátira, mas não são. Comportamentos extremos, confusão básica, decisões que revelam mais desorientação do que rebeldia.
E isto não nasce do nada.
Nasce de um sistema instável. De referências frágeis. De um ambiente em que o erro institucional é constante.
E fica a pergunta, que já nem é confortável fazer:
Estamos a perder gerações… ou estamos a falhar com elas?
Conclusão: erro de sistema (e não é o aluno)
No meio de tudo isto, há uma constante:
Erro após erro.
Sistema após sistema.
Decisão após decisão… sem consequência.
Possivelmente, a melhor metáfora seja mesmo esta: a educação em Portugal não precisa de digitalização. Precisa de reiniciar.
Mas, para isso, era preciso que alguém percebesse onde estava o problema.
Neste momento, parece que todos continuamos a clicar em “tentar novamente”… Enquanto o sistema insiste em falhar.
E, pela primeira vez em muito tempo, se calhar vale a pena dizer isto com alguma clareza: o erro não está nos alunos. Nunca esteve.
Por isso, chega o momento em que deveria fazer parar qualquer sistema: os alunos saem à rua.
Na sexta-feira, dia 24, estudantes do secundário juntam-se em frente ao Ministério da Educação para protestar contra o que está a acontecer.
Tudo muda. Porque quando os menores — aqueles que tantas vezes são acusados de distração, desinteresse ou falta de noção — sentem necessidade de sair à rua… o problema já não é técnico. É estrutural.
É irónico, quase poético, perceber que até os jovens que vivem entre tendências absurdas, redes sociais e identidades em construção… conseguem reconhecer quando algo está profundamente errado.
Eventualmente porque, no meio de tanto ruído, ainda consigam ver o essencial. O futuro deles não pode depender de um sistema em erro.
Quando até eles dizem “basta”… talvez seja boa altura para alguém ouvir.
Texto da autoria de Joana Neves