Devaneios
Século XXI: A Era da Informação?
Ainda há quem acredite que o século XXI e o acesso das massas à tecnologia nos tornou na geração mais bem informada da História. Nunca antes do século XX foi tão fácil ver imagens das guerras em países longínquos, vídeos diários da política norte-americana, posts sobre as crianças que passam fome, vídeos de animais à beira da morte, os ficheiros de Epstein, algum terramoto no Japão, ou a tempestade sabe-se lá onde, ou a destruição em Gaza, ou a pobreza extrema em países dos quais não nos lembramos, se não aparecerem em manchetes de jornais ou num vídeo emocionalmente apelativo no TikTok.
A informação, nomeadamente sobre temas relacionados com a violação dos Direitos Humanos e o sofrimento, poderia muito bem servir um propósito nobre: o de provocar empatia ou relembrar-nos do nosso privilégio, o de conectar o mundo e informar, o de impedir que vivamos nas nossas bolhas. As imagens e vídeos que retratam cenários horríveis de violência sexual, física, de motivações xenófobas, racistas, misóginas, deveriam chocar. Deveriam apelar à empatia básica humana.
Deveríamos sentir alguma coisa de cada vez que vemos uma criança esfomeada ou uma adolescente ucraniana contar como viu os pais serem mortos à sua frente. Deveríamos ser capazes de, em conjunto, usar essa informação para fazer qualquer coisa em relação aos problemas severos que retrata.
Mas passamos vídeo depois de vídeo, de canal televisivo para canal televisivo, num scroll infinito de algo que deveria chocar, mas não choca. O algoritmo intercala informação com danças virais e opiniões polémicas e/ou desinformadas e vamo-nos esquecendo que a rapariga bonita que posta um tutorial de maquilhagem não pode ser posta no mesmo saco que uma violência exposta em vídeo.
A certo ponto nem sequer parece real. Somos ainda capazes de reprovar intelectualmente todos os cenários a que temos acesso, mas o bombardeamento, a exposição excessiva e constante, através duma tela que nos distancia dessas realidades, anestesiam a nossa capacidade de assimilar como real aquilo que observamos.
Tanto quanto o meu cérebro sabe, ao processar o que a tela lhe mostra, a morte de uma americana às mãos do ICE é tão real quanto o “edit” de uma personagem fictícia da minha série favorita. A violência foi banalizada e, na era da inteligência artificial, a maioria de nós não consegue ter a certeza se devia acreditar no que a internet lhe mostra.
Fechada no meu quarto da minha casa confortável no meu país livre da guerra, com comida suficiente para comer e uma cama quente sempre à minha espera para descansar, olho para a tela e vejo os horrores de um mundo que sei ser real, mas não sinto como tal. Sei, mas não sinto. Não sentimos. Vários pequenos rios de informação perdem-se então num vasto mar onde nos afogamos sem saber para onde olhar e o que fazer.
A água rodeia o barco por todos os lados, mas a tripulação continua seca. Sabemos, sabemos, sabemos. Sabemos? Exposição ineficaz ou empatia? Informação ou fake news? Sabemos? Sentimos? Ficará alguma coisa connosco quando nos deitamos na cama, quentes e seguros, prontos para repetir tudo no dia seguinte?
A exposição não informa nem desinforma necessariamente. A exposição confunde-nos sobre o que é importante e verídico e o que não é. E a exposição constante à violência vai perdendo a capacidade de chocar. A exposição constante à violência aliena quem não a vive.
Assim, sou da opinião de que a violência deve ser mostrada, como parte da realidade humana, mas apenas quando a ideia transmitida não é a de banalidade ou normalização. O melhor exemplo são os filmes.
Alguns filmes violentos impactam porque trazem consigo a carga emocional associada a essa violência, enquanto outros usam a violência para tentar trazer ação vazia. Evitemos no dia a dia ser expostos a “filmes” em que as trocas de tiros e as mortes que deles resultam nos são apresentadas como irrelevantes. Façamos o esforço conjunto de sentir a realidade, além de a saber.
Texto da Autoria de Teresa Soares