Cultura
Anatomia de um coração na Igreja da Lapa
O coração de D. Pedro IV regressou à cena pública, na Igreja da Lapa, nos passados dias 25, 26 e 27 de setembro. Depois já ter estado em exibição, em 2022, na comemoração dos 200 anos da Revolução Liberal Portuguesa, regressa agora para celebrar o segundo centenário da Carta Constitucional.

Antes de falecer, o rei D. Pedro IV terá prometido deixar o seu coração à cidade do Porto e às suas gentes, depois da sua preciosa ajuda aquando da Guerra Civil (1832-34), na sequência da Revolução Liberal de 1822. Aliás, é de recordar que as tropas liberais desembarcaram justamente na Praia de Mindelo, onde está presente um monumento de homenagem às mesmas.
No entanto, este artigo pretende ser mais do que apontamento de imprensa. Depois de ouvir comentários sobre o pouco sentido estético de um coração e mesmo a pouca simpatia que provoca nos estômagos mais sensíveis, percebi que tinha de ir tirar as dúvidas e perceber como me sentia perante um coração oitocentista.
Na verdade, já em 2022 tinha tentado fazer a mesma proeza, mas a distância a que estava da Invicta não facilitou o processo. Concretizou-se o desejo quatro anos depois e deixem-me dizer que fiquei bastante tempo apenas a contemplar o coração. Não para tirar fotos, mas para tentar perceber a dimensão de um coração com 200 anos, que pertenceu a um rei português e que foi oferecido a um povo específico, os portuenses.

Para mim, leiga de anatomia ou de biologia no geral, foi muito interessante reparar nos métodos de conservação do coração, nos militares que o guardavam, na fila que se formava… Claro que tive de analisar o caso de uma vertente poética, muito pouco anatómica, mas diria que olhar para aquele coração me deu uma perspetiva diferente de tudo o que é o ser humano, de tudo o que é ser gente. Com altos, baixos, curvas e contracurvas, resumimo-nos todos a um coração que bate e que se desloca para ver um outro coração, que outrora bateu.
Em última análise, é isso que somos: um coração que bate. O que nos distingue será o que fazemos durante todos os batimentos, durante os, em média, 2,5 a 3 biliões de batimentos que produzimos ao longo da vida.