Cultura
Descobre a Biblioteca de Poesia da Foz

Durante dez anos, o número 584 da Rua do Passeio Alegre, na Foz do Porto, foi não só o lar, mas um polo criativo para o poeta Eugénio de Andrade. Hoje, o espaço foi totalmente remodelado e reúne um verdadeiro tesouro literário, fazendo parte do núcleo das Bibliotecas Errantes do Porto, transformada na Biblioteca de Poesia Eugénio de Andrade, a única da cidade a ser dedicada exclusivamente à poesia. Aberta desde setembro de 2025, teve a sua inauguração oficial em janeiro de 2026, à data do nascimento do poeta e, ao longo deste tempo, tem sido um local com uma vasta e crescente oferta cultural, que vai desde visitas guiadas a sessões de poesia, lançamentos e percursos literários, sessões com autores, clube de poesia e até gravação de podcasts, entre outras.
Confere a agenda Biblioteca de Poesia Eugénio de Andrade
Visita ao espaço e história
Fizemos uma visita guiada à biblioteca sob os cuidados da Adelaide Silva, que proporcionou uma tarde muito interessante ao grupo, pois para além de mostrar os espaços e segredos da casa/biblioteca, fez a leitura de diversos poemas de Eugénio de Andrade, mostrou-nos o livro Manhã Total, editado por Fátima Carvalho através da Livraria Lello. A obra, para além de vinte e nove poemas de Eugénio de Andrade, conta com as belíssimas ilustrações de Cristina Valadas e o comovente prefácio do cardeal José Tolentino de Mendonça.
A visita mais pareceu uma conversa entre amigos, com muita troca entre o público e a moderadora, onde a sensibilidade e a sinestesia abordada por Eugénio nos seus poemas, foram exaltadas. Falou-se também sobre o seu gosto pela música e a consequente musicalidade da sua escrita, cuja influência e inspiração advindas da natureza são inquestionáveis.
Apesar de discreto e de evitar muitos convívios sociais, Eugénio foi um poeta de muitos amigos, e vários deles eram também famosos. Com Sophia de Mello Breyner Andresen, trocou correspondências por décadas e através das cartas, partilhavam as suas afinidades literárias. Manteve uma amizade muita próxima com José Rodrigues, artista plástico e escultor com quem também colaborou culturalmente. O professor universitário Arnaldo Saraiva, além de amigo íntimo do poeta, foi um dos seus maiores estudiosos e presidiu a Fundação Eugénio de Andrade. Não se pode esquecer António Botto, pois esta foi das primeiras figuras literárias a receber os seus poemas e incentivou-o a persistir na sua escrita. Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga, Jaime Montestrela, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder e Óscar Lopes foram mais algumas de suas amizades mais marcantes, entre outros nomes do cenário nacional e internacional.
Adelaide contou-nos sobre a amizade entre Eugénio de Andrade e Maria Bochicchio, Doutora em Literatura Portuguesa e que conviveu alguns anos com Eugénio, tornando-se uma pessoa da sua confiança, tanto que era a única a ter permissão para aceder aos seus textos, inclusive os que tinham sido descartados. Assim, Bochicchio tem mantido vivo o legado de Andrade e em seu livro Reflexos de um Poeta, por exemplo, partilha com o público os segredos da arte e do percurso biográfico do amigo, segredos estes conseguidos a partir das conversas sinceras e criativas que teve com o poeta entre 2002 e 224, mas que transcendem o tempo da sua obra.
Os Amigos
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.Eugénio de Andrade, in “Coração do Dia”



Sobre o poeta

Créditos: Manuel Roberto
Nascido José Fontinhas, na Póvoa do Atalaia em janeiro de 1923, firmou-se como um dos poetas mais consagrados de Portugal. Em 1948, aquando da publicação de As Mãos e os Frutos, foi o seu ponto de viragem, pois a obra rompeu com as correntes dominantes da época e impôs uma poesia lírica, musical, onde a terra, a água, o fogo e o desejo estão entrecruzados. Nas décadas seguintes, publicou outros diversos títulos célebres, tais com Os Amantes Sem Dinheiro (1950), As Palavras Interditas (1951), Obscuro Domínio (1971) e Ofício de Paciência (1994), na poesia. Os Afluentes do Silêncio (1968), Rosto Precário (1979) e À Sombra da Memória (1993) são exemplos de prosa e História da Égua Branca (1977) e Aquela Nuvem e Outras (1986) são publicações dedicadas ao público infantil.
Foi reconhecido através de prémios e distinções ao longo da sua carreira, como o Prémio Camões, em 2001, o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1989, o Prémio D. Dinis da Fundação Casa Mateus em 1988 e o Prémio Internacional de Críticos Literários em 1986, entre outros.
Aos oito anos mudou-se para Castelo Branco com a mãe e já no ano seguinte, foram para Lisboa. Devido ao seu trabalho, em 1943 instalou-se em Coimbra e sete anos depois foi transferido para o Porto, onde viveu por décadas. Antes de habitar a casa que hoje funciona como biblioteca, viveu por muitos anos na Rua Duque de Palmela e contou com a ajuda e os cuidados da família Moura, principalmente de Ana Maria Moura, que também foram viver para a Rua do Passeio Alegre com Eugénio em 1994. O poeta Eugénio de Andrade faleceu no dia 13 de junho de 2005, mas deixou um verdadeiro legado para a poesia portuguesa.
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