Ciência e Saúde
A Extinção Silenciosa: a perda de diversidade genética
A extinção não começa com o desaparecimento do último indivíduo, mas sim, muito antes, quando as populações começam a perder diversidade genética e capacidade de adaptação às mudanças ambientais.
Ameaça à Biodiversidade Global
A diversidade genética representa a variedade de genes existentes no ADN de uma determinada espécie, responsável pela diferença entre indivíduos. Esta variabilidade confere capacidade de adaptação a mudanças ambientais, doenças ou outro tipo de ameaças a que as espécies possam estar sujeitas, sendo essencial para a sobrevivência e evolução das populações.
Sempre que pensamos na extinção de espécies de fauna e flora selvagens, as imagens que, de imediato, nos ocorrem, são, por exemplo: o desmatamento de vastas extensões de floresta amazónica, secas, incêndios, emissão de gases com efeito de estufa, etc., mas todos estes fenómenos comuns do Antropoceno contribuem também para algo invisível aos olhos do Humano, algo tão importante como a conservação e manutenção dos ecossistemas, a perda de diversidade genética.
Uma das principais consequências da atividade antropogénica, para além das alterações climáticas, é a fragmentação de habitats e, consequentemente, a fragmentação das populações de diferentes espécies, ou seja, a divisão de uma população em pequenos grupos isolados. Quando acontece, o intercâmbio genético entre indivíduos diminui drasticamente, levando este isolamento a um aumento da endogamia, isto é, a reprodução entre indivíduos aparentados e, por consequência, à perda de variabilidade genética. Com o passar das gerações, a falta de diversidade reduz a capacidade adaptativa de uma população, tornando-a mais vulnerável a doenças, à escassez de recursos ou a alterações ambientais. Este processo é conhecido como erosão genética, e está na base de um fenómeno conhecido como “vórtex de extinção”, um ciclo vicioso em que a redução populacional leva à perda de diversidade, e essa perda acelera ainda mais o declínio da população.
Situação Atual
Um estudo publicado na revista Science em 2022, estimou que mais de 10% da diversidade genética global de muitas espécies já se perdeu desde o início do século XX. A investigação demonstrou que, à medida que as áreas de distribuição das espécies diminuem, há uma perda proporcional e previsível da sua variabilidade genética. Esta relação é semelhante àquela observada entre a perda de habitat e o número de espécies extintas, ou seja, quando o habitat é destruído, não se perdem apenas indivíduos ou espécies; perde-se também o património genético que lhes permitiria sobreviver no futuro.
Além dos efeitos diretos na saúde e reprodução, a perda de diversidade genética limita a capacidade de adaptação evolutiva. Num planeta em rápida transformação, com temperaturas médias anuais a aumentar, poluição e introdução de espécies invasoras, as populações geneticamente similares têm menos hipóteses de gerar indivíduos capazes de resistir a novas pressões ambientais. Assim, mesmo que uma espécie consiga sobreviver a curto prazo, a sua persistência a longo prazo torna-se uma incerteza.
Nos últimos anos, a comunidade científica tem vindo a alertar que a conservação não pode focar-se apenas em preservar espécies e habitats, mas também na diversidade genética dentro das espécies. É este nível invisível da biodiversidade que garante aresiliência ecológica. Em 2025, um artigo publicado na Nature analisou dados genéticos de mais de 600 espécies ao longo de três décadas e concluiu que, em média, a diversidade genética está a diminuir globalmente. Contudo, o estudo também demonstrou que ações de conservação, como programas de reintrodução ou criação e promoção de corredores ecológicos, podem travar ou mesmo inverter esta tendência. Segundo os autores, esta abordagem integrada é a melhor forma de combater este tipo de problemas, sendo que não só conserva os indivíduos, como também as condições que permitem a troca de genes entre populações.
Numa época em que se estima que mais de um milhão de espécies possam estar em perigo de extinção, a perda de diversidade genética é uma ameaça silenciosa e potencialmente devastadora. Enquanto a destruição de florestas ou o aumento da poluição são facilmente visíveis, a erosão genética passa despercebida. Conservar a diversidade genética é, essencialmente, preservar o potencial evolutivo da vida na Terra: a capacidade de adaptação que permitiu às espécies sobreviverem e prosperarem ao longo de milhões de anos e que poderá determinar o seu futuro num planeta em constante mudança.
—
Artigo redigido por Gil Sampaio. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.
