Ciência e Saúde

Cirurgia “dente no olho”: a cura da cegueira nasce na boca

Published

on

Crédito: Newarta, Pixabay

As doenças corneanas são uma importante causa de cegueira no mundo moderno. A sua cura poderá passar por um procedimento um pouco bizarro.

 

A córnea é a janela do olho. Localizada na sua porção anterior, permite a focagem da luz e confere proteção contra agressores externos. A sua patologia tem um impacto significativo, ficando apenas atrás da catarata na lista de causas mais importantes de cegueira a nível mundial.

Atualmente, o tratamento mais comumente aplicado em casos de doença corneana grave é a queratoplastia penetrante, ou seja, o transplante de córnea através do enxerto de um dador. Contudo, em casos de compromisso severo da superfície ocular, a falha do procedimento é praticamente certa.

Posto isto, para doentes com superfícies oculares danificadas e secura ocular severa, surge a osteo-odonto queratoprótese (OOKP).

A OOKP foi inicialmente descrita pelo oftalmologista italiano Benedetto Strampelli, em 1963. Strampelli reparou que a guta-percha, um material derivado do látex de árvores Palaquium, utilizado em odontologia para o preenchimento de canais radiculares após desvitalização dentária, permanecia na raiz do dente indefinidamente, mas era rejeitada quando implantada em tecidos moles.

Para além disso, a dentina, substância constituinte do dente, é o material mais resistente que o corpo humano produz. Assim, Strampelli observou que se um implante plástico fosse inserido em material dentário e colocado na área corneana, era criada uma “capa protetora” que prevenia a sua rejeição.

Os detalhes do procedimento foram afinados ao longos dos anos, culminando no padrão de excelência, denominado Protocolo Roma-Viena.

 

Passo a passo da cirurgia “dente no olho”

O processo divide-se em dois tempos cirúrgicos. Numa primeira etapa, extrai-se uma porção de um dos dentes caninos e osso alveolar associado. A raiz do canino é perfurada, criando uma abertura onde será inserido o cilindro ótico, ou seja, a nova lente. Esta estrutura é depois implantada numa porção de tecido subcutâneo inferior ao olho não intervencionado. Aí permanecerá durante alguns meses, de modo a desenvolver uma rede de vascularização essencial à sua viabilidade.

Cilindro ótico inserido no dente. Crédito: Kaur J., 2018. Osteo-odonto keratoprosthesis: Innovative dental and ophthalmic blending. Journal of Indian Prosthodontic Society, 18(2), 89–95.

É ainda nesta fase que se prepara a superfície ocular. Um segmento de mucosa bucal (parte interna da bochecha) é transplantado para a porção anterior do olho. O seu objetivo é substituir a conjuntiva: irá prevenir a secura ocular, proteger a lente de qualquer tipo de trauma e irrigar o osso alveolar implantado.

Mucosa bucal implantada no olho. Crédito. Kaur J., 2018. Osteo-odonto keratoprosthesis: Innovative dental and ophthalmic blending. Journal of Indian Prosthodontic Society, 18(2), 89–95.

Após dois a quatro meses, num segundo passo, o implante, já envolvido por vasos, é colocado na porção central da mucosa transplantada, agora estável e pronta para receber a nova lente. A íris e o cristalino são retirados e a porção posterior da lente estende-se ao longo da abertura corneana.

Resultado final da OOKP. Crédito: Vasquez-Perez A. et al., 2020. Mucosal complications in osteo-odonto keratoprosthesis (OOKP) surgery. Journal of EuCornea, 6, 13–23.

A estética final do procedimento não é a ideal. Para além da aparência rosada e peculiar da mucosa bucal no olho, a ausência de dentes e tecido envolvente contribui para a deterioração psicológica dos pacientes pós-cirurgia. Nesse sentido, são utilizados “escudos escleróticos” que simulam o aspeto natural do olho e aplicam-se próteses como a Ponte de Andrew para substituir a dentição retirada.

As complicações, apesar de raras, poderão ser várias. As mais preocupantes são as que ocorrem após a finalização do procedimento e podem incluir: reabsorção do cilindro, endoftalmite (infeção ocular grave), glaucoma, alterações da membrana bucal, entre outras.

 

Apesar da elevada taxa de sucesso a longo prazo (cerca de 94% aos 30 anos pós-cirurgia), poucos são os profissionais familiarizados com esta técnica e os casos com as caraterísticas necessárias à sua realização. Apenas um número limitado de patologias que originam cegueira bilateral é selecionado e a acuidade visual do melhor olho do paciente não deverá ser superior a 1/20.

Ainda assim, o desenvolvimento da OOKP foi um importante passo na história da oftalmologia, permitindo corrigir uma condição considerada irreversível e abrindo portas a novas possibilidades neste ramo cirúrgico.

Artigo da autoria de Catarina Pereira. Revisto por Isabel Santos de Sousa e Ana Luísa Silva.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Exit mobile version