Ciência e Saúde
Congresso “Cerebrum” da AEFMUP reforça a importância da multidisciplinariedade no estudo do órgão nobre do Corpo Humano
No passado dia 23 de maio, o Centro de Investigação Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto recebeu mais uma edição do congresso “Cerebrum”.
O congresso “Cerebrum” nasceu em 2025, fruto de uma parceria entre a Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e o Conselho Português para o Cérebro, presidido pelo Professor Doutor Pedro Alberto Silva.
“Eu sentia, da parte dos alunos que me procuravam para fazer tese de mestrado, para saber mais sobre o cérebro e a neurocirurgia, que havia uma dificuldade em chegar às pessoas que fazem as coisas pelas quais tinham curiosidade” revela-nos o Professor Doutor Pedro Alberto Silva.
“A ideia do ‘Cerebrum’ nasce de uma conversa com estudantes: ‘e se nós trouxéssemos pessoas para falar sobre aquilo que gostavam de ouvir em torno destas áreas?’ Isto consome tempo, e o tempo é importante nos dias de hoje, mas é sobre abrir janelas, abrir oportunidades para as pessoas se aproximarem daquilo que pensam que pode estar no futuro delas.”
Quando questionado acerca da experiência de trabalhar com estudantes na organização de um congresso, diz-nos que “não foi uma surpresa, mas ver gente daquela idade com esta capacidade de trabalhar em prol dos outros de uma forma tão espontânea, renova a minha esperança no futuro da Medicina em Portugal. A capacidade de agir com responsabilidade, de querer, autonomamente, que as coisas corram bem, é notável.”
Relativamente ao futuro do “Cerebrum”: “estou focado em que isto sirva o propósito que tem servido. Suspeito que ele vá continuar, mas não posso falar só por mim, porque não o organizo sozinho. Tudo dependerá do feedback dos estudantes e da Associação. Eu gostava que houvesse um interesse renovado e que ele mantivesse a relevância. Nunca tivemos um palestrante repetido, nunca tivemos um tema repetido. Não foi difícil decidir o que seria novo, mas o futuro tem de manter esta inovação, esta relevância para com os estudantes de Medicina.”
Nesta edição, a curiosidade pelas Neurociências juntou estudantes, docentes, profissionais e entusiastas das áreas da Medicina, Psicologia, Engenharia e outras no Auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
O programa contou com diversas personalidades de renome nas mais diversas vertentes, desde a Psiquiatria à Neurocirurgia, da Radiologia à Medicina Física e Reabilitação, entre muitas outras.
O Normal e o Patológico nas Neurociências
Contrariamente à maioria das patologias humanas, pacientes com condições neurológicas e psiquiátricas não podem, muitas vezes, ser agrupados por categorias ou estadios de doença. Habitualmente, estas patologias distribuem-se num espetro, com múltiplas formas de apresentação entre doentes.
Por esta razão, a distinção entre caraterísticas normativas e disfuncionais de um comportamento, crença ou discurso é uma tarefa exigente mas crucial.
Nesta sessão plenária, o Professor Doutor Albino Oliveira Maia, psiquiatra e neurocientista na Fundação Champalimaud, destacou a importância de saber identificar detalhes que afetem significativamente a funcionalidade cognitiva ou social e o desenvolvimento de um quotidiano adequado ao contexto de cada paciente.
Apresentou também evidência que comprova que certas doenças psiquiátricas, ao contrário do que se acreditava, poderão ter caraterísticas identificáveis, possivelmente úteis na distinção entre o normal e a doença.
Cuidar do Cérebro no Desporto de Elite
Esta sessão contou com a presença da Professora Doutora Sara Mesquita Silva, psicóloga do Futebol Clube do Porto, que abordou a relevância do papel da saúde mental na performance dos atletas.
Para além disso, destacou que as relações intra equipa e entre jogadores e treinador devem ser cuidadosamente trabalhadas, já que o sucesso de uma equipa não depende apenas da saúde de cada indivíduo, mas também da harmonia do grupo como um todo.
As Neurodivergências em Todos Nós
Nesta sessão, a Doutora Inês Homem de Melo, psiquiatra, cantora e promotora da literacia em Neurodivergência e Saúde Mental, retratou a apresentação da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção no adulto.
Numa palestra dinâmica e interativa, descreveu os sinais de alerta, as consequências do subdiagnóstico na infância e de que modo podemos abordar estes pacientes e este tema, numa faixa etária em que o debate sobre esta patologia ainda é negligenciado.
As Doenças Neurológicas dos Jovens Adultos
As doenças neurológicas, apesar de estarem globalmente associadas a uma população mais idosa, têm um impacto significativo no jovem adulto. Patologias como as cefaleias, epilepsia e Doença de Parkinson comprometem a qualidade de vida e o desempenho escolar e profissional desde idades muito precoces.
O neurologista Professor Doutor Pedro Abreu destacou a relevância destas condições e a necessidade de um tratamento e seguimento adequado para que possam realizar as suas atividades de vida diária do modo mais adaptativo possível.
Sessões paralelas e Workshops
Para além das sessões plenárias, nas sessões paralelas foram também abordados temas cruciais na área das Neurociências. Palestras sobre Neuroanestesia, Emergências Neurológicas, Neurorradiologia de Intervenção e Neuroengenharia trouxeram convidados das mais variadas áreas e comprovaram a necessidade da integração multidisciplinar do conhecimento do Cérebro.
Em “Perturbações do Sono: as mais comuns e menos benignas” descreveram-se patologias com grande impacto na sociedade atual. Em “As novas adições e os tóxicos de sempre”, foi apresentada uma perspetiva histórica sobre os vícios mais conhecidos, mas foram também destacadas adições pouco reconhecidas como o jogo online patológico e as apostas descontroladas.
Nos Workshops, apresentaram-se competências essenciais para a prática clínica nesta área, como o eletroencefalograma e suturas cerebrais.
Com um quiz científico dirigido aos estudantes, uma atuação do Grupo de Fados de Medicina do Porto e o corte do bolo, terminou mais uma edição do congresso “Cerebrum”, um congresso que promete continuar a introduzir futuros profissionais da área das Neurociências a personalidades e temas que enriquecem o seu currículo e permitem a formação de especialistas cada vez mais capacitados em todas as vertentes.
Artigo da autoria de Catarina Pereira. Revisto por Isabel Santos de Sousa.
