Ciência e Saúde
Fungo de “The Last of Us”
A série “The Last of Us”, baseada na série de videojogos, de mesmo nome, da autoria de Neil Druckman, explora um universo ficcional onde a evolução de um fungo patogénico adquire a capacidade de infetar a espécie humana, originando uma pandemia de escala mundial.
Sinopse
A série “The Last of Us” retrata um futuro pandémico, devastador para a humanidade, deixando os seres humanos à beira da extinção. A narrativa decorre cerca de vinte anos após o início de um surto que dizimou grande parte da população mundial.
O responsável por esse cenário é o fungo Ophiocordyceps sinensis, um parasita capaz de infetar seres humanos, alterar o seu comportamento e transformá-los em hospedeiros agressivos, e que se espalha rapidamente com uma simples mordida. Consequentemente, todas as estruturas políticas, económicas e sociais entram em colapso, levando à necessidade da criação de zonas de quarentena militarizadas, comunidades isoladas e um ambiente marcado pela escassez de recursos e pela constante ameaça biológica.
Deste modo, embora todo o panorama pandémico retratado pela série seja fictício, a premissa inspira-se em fenómenos reais observados na natureza, nomeadamente, na interação entre os fungos e os seus hospedeiros (insetos). Assim, “The Last of Us” retrata, de forma indireta, uma análise científica sobre os limites biológicos da adaptação fúngica e os possíveis problemas associados.
Fungo Ophiocordyceps sinensis
O fungo Ophiocordyceps sinensis, também conhecido como ‘fungo lagarta’ ou DongChongXiaCao (‘minhoca de Inverno, erva de Verão’), em mandarim, ou Tochukaso, em japonês, é um fungo de elevado valor medicinal, na medicina chinesa tradicional. Este é um fungo parasita, capaz de infetar insetos, principalmente formigas.
Cordyceps Sinesis. Fonte: Wikimedia Commons
Segundo um artigo publicado na National Library of Medicine, as formigas infetadas exibem um comportamento semelhante ao de zombies, que as leva a deslocarem-se de forma intencional para locais com as condições ideais ao seu desenvolvimento e a sofrer convulsões repetidas que as fazem cair, impedindo que retornem ao seu habitat natural.
O ciclo de vida da Cordyceps começa quando os seus esporos pousam sobre um inseto. Ao germinar, o esporo desenvolve filamentos microscópicos que penetram no corpo do hospedeiro, formando o micélio, uma estrutura semelhante a raízes que dará origem ao fungo. À medida que o micélio cresce, vai consumindo o inseto por dentro. Quando o corpo do hospedeiro é totalmente colonizado e as condições ambientais são favoráveis, forma-se um corpo frutífero (uma espécie de cogumelo) em forma de haste que emerge, geralmente, da cabeça do inseto. Esse “cogumelo” liberta, então, novos esporos no ambiente, reiniciando o ciclo de vida do fungo.
Da ficção à realidade
Na realidade distópica da série, o fungo Cordyceps sofre uma mutação e passa a ter a capacidade infetar humanos, manipulando-os e capacitando-os de se infetarem uns aos outros através de mordidas. Na verdade, estes fungos precisam de temperaturas entre os 13 e os 24 °C (uma temperatura superior a 27°C é capaz de matar os seus corpos frutíferos) e de humidade elevada (geralmente mantida acima de 80-90% no ambiente de cultivo, de modo a evitar o ressecamento do fungo) para se desenvolverem. E é por isso que este fungo não é capaz de infetar os seres humanos, uma vez que o sistema nervoso humano é muito mais complexo do que o dos insetos. Assim, ainda que o aumento das temperaturas, associadas ao aquecimento global, represente um risco verdadeiro de agravamento das infeções fúngicas, a temperatura corporal dos humanos, à volta dos 36,6°C, funciona como uma proteção, uma vez que a maioria das espécies de fungos prefere temperaturas entre os 25 e os 30°C para o seu desenvolvimento e propagação.
Por isso, o que o fungo faz aos humanos em “The Last of Us” não é algo que pudesse acontecer de repente. Uma adaptação desse tipo levaria milhões de anos a evoluir, tal como aconteceu na relação entre o fungo e os insetos.
Medicina chinesa
Outras espécies de fungos Cordyceps têm qualidades benéficas, inclusive para a saúde humana, com exemplos como o Cordyceps cicadae, o Cordyceps sinensis e o Cordyceps militaris, amplamente usados pela medicina tradicional chinesa.
Cordyceps Militaris. Fonte: Wikimedia Commons
Há muito que estas espécies de fungo representam um remédio local popular, sendo que a sua procura na China disparou nas últimas décadas.
Segundo Ana Olívia de Souza, investigadora do Instituto Butantan no Brasil, as três espécies do gênero Cordyceps produzem compostos com diferentes propriedades farmacológicas, incluindo efeitos anti-inflamatórios, antitumorais, imunomoduladores, nefroprotetores e hepatoprotetores, sendo espécies valorizadas na China pelo seu uso medicinal.
O Cordyceps usado nos suplementos atuais é cultivado em ambientes controlados, para que se obtenham os benefícios sem os perigos associados às infeções dos mesmos nos insetos. Este cogumelo tem sido usado na medicina tradicional chinesa há séculos para ajudar a aumentar a energia, a resistência e a vitalidade, e a ciência moderna está agora a acompanhar essa tendência.
A série “The Last of Us” explora a hipótese de um fungo do género Ophiocordyceps adquirir a capacidade de infetar a espécie humana. Embora inspirada em fenómenos biológicos reais, como a manipulação comportamental de insetos, a hipótese de um fungo desenvolver, num curto espaço de tempo, a capacidade de infetar e controlar humanos é extremamente improvável à luz do conhecimento científico atual. As barreiras biológicas, como a temperatura corporal dos mamíferos, a complexidade do sistema nervoso humano e a eficácia do sistema imunitário, tornam esse cenário altamente improvável. Não obstante, a série cumpre um papel relevante ao despertar o interesse do público pela microbiologia, pela evolução e pelo papel das doenças infeciosas. Ao cruzar ficção e ciência, levanta questões pertinentes sobre alterações climáticas, adaptação microbiana e saúde pública, reforçando a importância da investigação científica.
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Artigo da autoria de Beatriz Novais Ferreira. Revisão por Ana Luísa Silva.