Ciência e Saúde
Futebol feminino e o ligamento cruzado anterior
Jogadoras de futebol apresentam maior risco de rotura do ligamento cruzado anterior, uma lesão grave que compromete o desempenho e exige recuperação prolongada.
Os ligamentos cruzados são estruturas essenciais do joelho responsáveis pela sua estabilidade. Localizados no interior da articulação, o ligamento cruzado anterior (LCA) e o posterior (LCP) cruzam-se em forma de “X” e controlam o movimento entre o fémur e a tíbia, especialmente em ações como correr, saltar ou mudar de direção. Quando ocorre, por exemplo, uma rotura do LCA, verifica-se um aumento da translação anterior da tíbia em relação ao fémur, descrito clinicamente como “movimento de gaveta anterior”, indicativo de instabilidade articular.
Imagem de BruceBlaus, Wikipedia Commons (traduzida)
Incidência e impacto da lesão no futebol feminino
A investigação científica tem demonstrado de forma consistente que as futebolistas apresentam um risco mais elevado do LCA do que os homens. Um estudo longitudinal recente, que analisou várias épocas desportivas entre 2016 e 2022, estimou uma incidência de 1,06% nas mulheres e 0,38% nos homens, correspondendo a um risco aproximadamente 2,8 vezes superior no futebol feminino.
Para além de serem mais frequentes, estas lesões tendem também a ter um impacto mais prolongado nas jogadoras. Dados do futebol profissional europeu mostram não só uma maior prevalência, mas também tempos de recuperação mais longos e períodos de ausência competitiva mais extensos.
Num contexto de alto rendimento, a rotura do LCA continua a ser uma das lesões mais incapacitantes, com consequências que podem ir desde a quebra de desempenho até à interrupção prolongada ou mesmo ao fim prematuro da carreira.
Há uma série de fatores que dão origem a esta diferença, desde fatores anatómicos, hormonais a fatores de desenvolvimento e capacidade motora.
Fatores anatómicos e biomecânicos
Algumas diferenças físicas e de movimento podem contribuir para a maior incidência de lesões do LCA no sexo feminino.
Estudos identificaram diferenças na estrutura do joelho, como um espaço ósseo mais estreito no fémur por onde passa o ligamento, e variações na inclinação da tíbia e no ângulo do quadríceps, que podem alterar a forma como o joelho absorve forças durante saltos e mudanças rápidas de direção.
De forma complementar, a análise dos padrões de movimento indica que algumas jogadoras a exibir padrões de aterragem após saltos ou girar rapidamente com o joelho menos dobrado ou mais inclinado para dentro. Esses padrões aumentam a tensão sobre o LCA, tornando-o mais vulnerável a lesões.
Fator hormonal
A relação entre hormonas e o risco de lesão no LCA tem vindo a ganhar atenção na investigação. Ao longo do ciclo menstrual, flutuações nos níveis de estrogénio e progesterona podem alterar temporariamente a estabilidade do joelho, tornando certas fases mais críticas para o risco de lesão. Em alguns casos, o uso de contracetivos hormonais foi associado a um risco ligeiramente menor de lesão, embora os resultados não sejam consistentes.
Fatores de desenvolvimento e aprendizagem motora
Outro campo de investigação sugere que o risco de lesão pode estar ligado ao desenvolvimento motor durante a infância e adolescência.
Em jovens futebolistas, uma menor competência em capacidades motoras básicas está associada a padrões de aterragem menos seguros, ao ter mais dificuldade em absorver o impacto, aumentando a carga sobre o LCA. Este efeito é mais evidente no sexo feminino, possivelmente devido a diferenças na exposição a treino técnico durante o seu desenvolvimento.
Prevenção e novas linhas de investigação
O crescimento do futebol feminino tem levado a uma atenção maior da investigação sobre lesões, evidenciando que o risco elevado de LCA em jogadoras torna fundamental a implementação de programas de prevenção específicos, considerando características anatómicas, hormonais e biomecânicas.
Programas de prevenção têm mostrado reduzir o risco de lesões do LCA ao combinar treino pliométrico, neuromuscular e fortalecimento muscular com educação sobre a forma correta de se movimentar, sobretudo na aterragem de saltos. Ao melhorar o controlo do joelho em situações exigentes, estas intervenções contribuem para diminuir a incidência de lesões nas atletas.
Além disso, novas abordagens tecnológicas têm sido exploradas para prever o risco de lesão. Estudos utilizam modelos de aprendizagem automática aplicados a dados de monitorização de movimento e testes físicos para identificar jogadoras com maior vulnerabilidade, abrindo caminhos para a prevenção baseada em dados.
Texto por Sofia I. Conceição Guerreiro. Revisão por Ana Luísa Silva.
