Ciência e Saúde

Hantavírus: o que é, como se transmite e porque não é o novo COVID-19

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Depois de cinco anos do COVID-19 ter sido declarado pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), surgiu um possível novo contendente para fazer frente ao responsável pelo grande surto mundial do século XXI, registado até à data. De nome científico Orthohantavirus andesense, esta estirpe rara do hantavírus pode ser apenas encontrada em países da América do Sul. No entanto, esteve por trás do surto contido no navio de cruzeiro MV Hondius, após uma expedição com paragem na Antártica e em algumas ilhas isoladas no oceano Atlântico sul.

 

Hantavírus: o que são e mecanismos de transmissão

Os hantavírus são um grupo de vírus esféricos, envoltos por uma camada lipídica, pertencentes à família Hantaviridae, que podem ser classificados em diferentes géneros e, por sua vez, em espécies distintas. Um exemplo é o Orthohantavirus andesense, causadora de, pelo menos, três mortos e onze casos positivos relacionados com o surto no navio MV Hondius. É importante realçar o facto de que cada espécie de hantavírus tem uma única espécie hospedeira, tornando esta relação biótica hospedeiro-parasita não ambígua.

A transmissão deste tipo de vírus aos humanos ocorre através da exposição a urina, saliva ou dejetos de roedores portadores do vírus, o que desencadeará uma infeção viral no organismo das pessoas infetadas. Todavia, o que torna este caso do navio MV Hondius muito especial é o facto da estirpe do hantavírus registada ser a única, atualmente conhecida, que pode ser transmitida entre os próprios humanos. Mas, como reitera a OMS, para que isso aconteça, o contacto terá de ser muito próximo e, por um intervalo de tempo prolongado. Esta estirpe é a dos Andes, cujo hospedeiro é Oligoryzomys longicaudatus, e é endémica ao Chile e à Argentina, país do qual zarpou o navio cruzeiro.

 

Princípios de atuação dos hantavírus no organismo

É no genoma dos hantavírus onde se encontram três segmentos de cadeia simples de RNA, designados por S, M ou L. Estas siglas provêm do inglês e correspondem, respetivamente, a pequeno, médio e grande. Cada uma destas secções presente nos genes do vírus tem incumbida uma só função.

A fração S está responsável por codificar a nucleoproteína (N), que envolve os genes responsáveis pela carga viral do vírus, de forma a evitar a sua degradação. Tem, por isso, em vista a sua proteção, sobrevivência, transmissão e reprodução. O segmento M, por outro lado, é quem sintetiza as glicoproteínas de envelope Gn e Gc, que formam as saliências na superfície externa do vírus. Além disso, ainda contribuem no processo de endocitose (entrada) e exocitose (saída) do vírus da célula hospedeira, na medida em que ajudam na ligação do vírus aos recetores específicos da célula alvo. Por fim, a porção L codifica a proteína viral do vírus, ou seja, fornece a carga viral do vírus.

De modo a proteger estes três segmentos essenciais para o seu normal funcionamento e sobrevivência, estas frações de RNA enrolam-se, e formando três estruturas de ribonucleoproteínas (RNP) independentes entre si. Estas proteínas ligam-se de acordo com a complementaridade dos nucleótidos. Isto resulta na formação de três RNP enroladas sobre si.

Figura 2 | Constituição do hantavírus da estirpe Andina
Fonte: Wikipédia, traduzido do inglês

Síndrome pulmonar por hantavírus (SPH)

É esta carga viral que, na estirpe mencionada anteriormente, leva à síndrome pulmonar por hantavírus (SPH). Esta infeção tem um período de incubação entre uma a oito semanas tornando a sua identificação por parte do doente mais difícil e demorada.

Os primeiros sintomas a aparecer são: fadiga, febre, dores musculares e na cabeça e, por vezes, falta de ar. No entanto, caso não sejam prestados os cuidados adequados pode escalar para complicações graves no trato respiratório.

Este agravamento do estado de saúde do paciente é explicado pelo tipo de células alvo do vírus nos pulmões. No momento em que o hantavírus os atinge vai agir sobre a única camada de células endoteliais pulmonares que forma os capilares pulmonares. Estes capilares são os responsáveis pelas trocas gasosas no sangue, permitindo a sua oxigenação. A exposição do tecido endotelial pulmonar ao vírus irá fragilizá-lo, ao ponto de ocorrer a sua rutura. Isto permite a entrada do fluído intersticial nos pulmões, que originará um edema pulmonar pela acumulação dessa substância. Por consequência, a capacidade respiratória e o ritmo cardíaco irão ser afetados, o que explica a elevada taxa de mortalidade desta doença causada pelo hantavírus da estirpe andina.

Apesar de ainda não haver qualquer vacina para esta estirpe – diferente da espécie mais prevalente no sudeste asiático, cuja vacina não tem certificação para ser aplicada nos países da União Europeia – existem alguns procedimentos já padronizados com o intuito de impedir a propagação do vírus ou até a morte do indivíduo. Alguns exemplos incluem: fornecer mais oxigénio ao organismo ou colocar o doente em ECMO (oxigenação do sangue por membrana extracorpórea); em casos mais graves, administração de fármacos com propriedades vasopressoras para que a pressão sanguínea aumente ou realizar hemodiálise.

 

Hantavírus permanece no organismo após o contágio?

Em 2023 foi divulgado um estudo pelo laboratório suíço Spiez, no qual se tinha identificado a presença de frações de material genético do hantavírus da estirpe andina no sémen de um homem, seis anos após o contágio.

Apesar de ter sido repetidamente encontrado no sistema reprodutor, este estudo não desenvolveu a possibilidade de poder haver transmissão do vírus por via sexual. No entanto, o estudo revelou que não havia qualquer vestígio de RNA do vírus nas principais artérias de replicação do organismo, como o sangue, urina ou no sistema respiratório. Contudo, os níveis de anticorpos continuavam elevados, o que indica que o sistema imunitário era constantemente estimulado, devido à presença do RNA do vírus. Os investigadores apontam o facto de o sistema imunitário ter mais dificuldade de agir em áreas como os testículos.

 

Hantavírus vs COVID-19

Tendo por base a informação anteriormente apresentada foi construído um quadro que compara o hantavírus da estirpe dos Andes (ANDV) com o infame COVID-19, de forma a desmistificar a possibilidade de uma nova pandemia mundial.

 

Artigo da autoria de Armando Santos. Revisão por Isabel Santos de Sousa.

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