Ciência e Saúde

Médicos do futuro ainda aprendem pouco sobre sexualidade

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Estudos mostram que o ensino continua centrado na biologia e carece de uma abordagem mais humana e transversal.

O ensino da sexualidade nos cursos de Medicina em Portugal permanece desigual e, segundo estudos recentes, ainda preso a uma perspetiva predominantemente biomédica. Apesar de avanços pontuais e de um interesse crescente por parte dos estudantes, o tema continua pouco explorado nos currículos, com foco quase exclusivo em disfunções sexuais, contraceção e infeções sexualmente transmissíveis.

“Os estudantes reconhecem a importância do tema, mas sentem falta de treino prático e de espaço para discutir dimensões mais humanas da sexualidade, como o afeto, a identidade de género ou a orientação sexual”, conclui Adriana Quitério (2017), autora de um estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Uma formação ainda fragmentada

A maioria das faculdades portuguesas aborda a sexualidade de forma dispersa, sem uma disciplina própria nem integração entre módulos clínicos. “É uma falha que se reflete mais tarde na prática médica, quando o profissional precisa de lidar com temas íntimos e sensíveis junto dos pacientes”, comenta Cristina Reis, investigadora em educação médica.

Segundo o estudo de Peixoto et al. (2015), realizado na Faculdade de Medicina do Porto, muitos estudantes referem disfunções sexuais e comportamentos de risco, associando-os ao stress académico. Os autores alertam que o bem-estar sexual dos próprios futuros médicos é um tema ainda negligenciado.

Iniciativas e alertas

Há, contudo, sinais de mudança. No ano letivo de 2025/2026, abriu na Universidade do Porto o primeiro Mestrado em Sexologia numa universidade pública portuguesa, um marco na integração académica do estudo da sexualidade humana em Portugal. O curso aposta numa abordagem interdisciplinar e na formação de profissionais capazes de articular a dimensão clínica, educativa e social da sexualidade.

Na área dos cuidados de saúde primários, o Grupo de Estudos da Sexualidade da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) tem procurado integrar o tema na prática clínica e na formação contínua de médicos de família (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, n.d.).

Também os estudantes têm dado o alerta. Em comunicado de 2025, a Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) reforçou que “a educação sexual é fundamental na formação médica, não apenas como conteúdo técnico, mas como ferramenta de promoção de saúde e prevenção de violência de género” (Associação Nacional de Estudantes de Medicina, 2025).

O caminho a seguir

Especialistas defendem uma mudança estrutural: “Não basta incluir o tema num módulo isolado; é preciso que a sexualidade esteja presente em todo o percurso formativo, da anatomia à consulta clínica”, sublinha Yared.

Entre as propostas mais consensuais estão a adoção de metodologias ativas – simulações de consulta, role-play e discussão de casos reais – e o reforço da formação docente. “Só professores preparados e confortáveis com o tema poderão formar médicos capazes de escutar, compreender e cuidar”, acrescentam Yared & Melo (2018), autoras de um estudo sobre inovação curricular no curso de Medicina.

Enquanto isso, o desafio mantém-se: transformar a sexualidade de um tópico marginal num eixo central da formação médica, não apenas para tratar, mas para compreender o ser humano na sua totalidade.

Artigo redigido por Márcia Oliveira. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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