Ciência e Saúde

O ar que nos dá a vida é também o que nos pode tirá-la

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A grande maioria população tende a ignorar os impactos da poluição atmosférica. No entanto, esta ameaça, apesar de invisível a olho nu, possui um histórico de consequências visíveis e mensuráveis na nossa saúde.   

Mas afinal o que é a poluição atmosférica? 

A poluição atmosférica consiste na presença de partículas e gases nocivos no ar em concentrações acima do recomendado. Os principais agentes são as partículas finas (PM₂.₅ e PM₁₀), o dióxido de azoto (NO₂) e o ozono troposférico (O₃) que resultam sobretudo da queima de combustíveis fósseis, emissões industriais e tráfego rodoviário. Segundo a Organização Mundial da Saúde, não existe um nível seguro de exposição a partículas finas. No entanto, estas substâncias são pequenas o suficiente para penetrar nas vias respiratórias, alcançar as pequenas vias aéreas e por fim chegar aos alvéolos pulmonares, as zonas de troca gasosa dos pulmões, e a partir daí, entrar na corrente sanguínea, onde podem provocar uma série de reações inflamatórias e oxidativas capazes de, na pior das hipóteses, levar à morte. 

O que acontece quando estas partículas entram no nosso corpo? 

Quando estas partículas atingem os alvéolos pulmonares, elas provocam lesões que ativam as células de defesa, isto é, macrófagos alveolares, que reconhecem as substâncias inaladas como uma ameaça. Como consequência, os macrófagos libertam espécies reativas de oxigénio (ROS), sinaliza a ameaça e atraindo outras células do sistema imunitário para combater as agressões. Acontece que, quando a produção de ROS ultrapassa a capacidade natural de defesa do organismo, surge o stress oxidativo: um desequilíbrio entre radicais livres e antioxidantes (substâncias responsáveis pelo ajuste da quantidade de ROS). Este processo desencadeia inflamação crónica, que se propaga além dos pulmões, afetando os vasos sanguíneos. Com o tempo, desenvolvem-se placas ateroscleróticas, que são depósitos de gordura e células danificadas que endurecem as artérias, e contribuindo assim para o aumento do risco de enfarte e AVC. 

Um problema persistente 

Apesar das políticas ambientais e dos avanços tecnológicos, a poluição atmosférica continua a ser uma ameaça silenciosa. De acordo com o BMC Public Health (2024), o impacto da exposição crónica a PM₂. ₅ é significativo e comparável a outros fatores de risco relevantes, como o tabagismo. Neste contexto, viver em áreas urbanas densas pode reduzir a esperança média de vida em até 2,2 anos. Existem até estudos que consideram a exposição a estas substâncias nocivas um dos principais fatores ambientais de risco para doenças cardiovasculares. 

Em Portugal, as áreas urbanas são as zonas mais afetadas pela poluição atmosférica. Só em Lisboa, as concentrações dos poluentes atmosféricos ultrapassam regularmente o limiar de valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a saúde humana. No entanto, no Porto e em Braga, apesar da situação não estar em congruência com a perspetiva idealizada pela OMS, espera-se que melhore ao longo do tempo. 

Quem está mais em risco? 

Os efeitos da poluição do ar variam consoante o indivíduo. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas estão entre os mais vulneráveis. Um estudo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia mostrou que crianças expostas a altos níveis de NO₂ apresentam alguma redução da função pulmonar em comparação com as que vivem em zonas menos poluídas. Nos idosos, a poluição atua como gatilho para eventos cardiovasculares agudos, aumentando o número de internamentos e urgências. Segundo a Agência Europeia do Ambiente (EEA, 2024), só em Portugal, estima-se que cerca de 4 900 mortes prematuras por ano estejam associadas à exposição prolongada a poluentes atmosféricos. Os especialistas alertam que, sem medidas eficazes, o número pode aumentar com o avanço das alterações climáticas. 

Como reduzir o risco? 

A redução da poluição atmosférica exige mudanças quer estruturais, como comportamentais. Do ponto de vista estrutural, destacam-se a transição dos sistemas energéticos movidos por combustíveis fósseis para fontes renováveis, a modernização de transportes públicos com foco na baixa emissão e o fortalecimento da regulação ambiental, com padrões rigorosos de qualidade do ar e fiscalização eficaz. Já nas mudanças comportamentais, promove-se a redução do uso do transporte individual motorizado, a adoção de hábitos de consumo mais sustentáveis e a alteração de padrões alimentares associados a elevadas emissões, assim como a separação de resíduos e o investimento, sempre que possível, na reutilização.  

 Em 2024, a Comissão Europeia propôs novos limites legais de poluentes até 2030, alinhados com as diretrizes da OMS. 

Adicionalmente, existem práticas que podem ser adotadas pela população,tais como: 

  • Optar por transportes públicos, e na alternativa de não queres abdicar do conforto de teres o teu próprio carro, escolher transportes elétricos. 

O ar e o futuro 

À medida que as alterações climáticas intensificam fenómenos como ondas de calor e incêndios florestais, a qualidade do ar tende a piorar. O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, 2024) alerta que a poluição e o aquecimento global têm efeitos sinérgicos, isto éo calor intensifica a formação de ozono, o que por sua vez, agrava os impactos respiratórios. Para piorar a situação, a OMS estima que, até 2050, a poluição do ar possa tornar-se a principal causa ambiental de morte no mundo.  

Segundo Socorro Gross, representante da OPAS/OMS no Brasil,  

“É uma ameaça invisível. Mesmo que não vejamos os perigos que ela representa com nossos próprios olhos, nossa saúde acaba pagando um preço muito alto, além do grande impacto econômico para os países. 

Por isso, aquilo que é fundamental para a vida pode também contribuir para a sua destruição. Perante este facto, é responsabilidade de todos procurar agir de forma a atenuar esses impactos, porque, muitas vezes, é dos pequenos passos que nascem grandes conquistas. 

Artigo redigido por Alexandra Santos. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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