Ciência e Saúde

O declínio da atenção na era dos algoritmos

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Fonte: Andrea Piacquadio | Pexels

Até aos últimos anos vistos como uma ótima ferramenta para a sociedade, capaz de rapidamente fornecer conhecimento ilimitado, os dispositivos móveis e computadores começam a revelar um lado nocivo: contribuem para a perda de capacidade de foco, durante qualquer atividade.

 

O fenómeno da saciedade instantânea

As redes sociais, que cada vez mais fazem parte do quotidiano enquanto sociedade global, têm como principal objetivo o entretenimento, que é relacionado a uma sensação de felicidade e prazer. Esta sensação está associada à libertação de dopamina, um neurotransmissor cuja função é regular emoções, a motivação e a sensação de recompensa. Quando os seus níveis se mantém elevados durante um longo período de tempo podem surgir vícios e comportamentos compulsivos e, quando em falta, é responsável por episódios depressivos e de desmotivação. O problema surge quando se observa os momentos em que é libertada. Atividades como a alimentação, a prática desportiva ou até a sexual, são capazes de libertar este neurotransmissor, mas assim como estas, as redes sociais podem fazê-lo, numa questão de segundos.

A evolução dos níveis de atenção

É, graças a esse acesso instantâneo que o attention span, ou em português, os níveis de atenção da população mundial têm vindo a diminuir. Isto traduz-se num menor período de tempo em que se consegue manter o foco na realização de uma tarefa.

No livro “Attention Span”, da autoria de Gloria Mark, uma professora da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, é abordado um estudo realizado sobre um grupo de trabalhadores acerca de como a omnipresença dos dispositivos digitais e as interrupções constantes afetaram estruturalmente a capacidade de foco. Enquanto que em 2004 os trabalhadores ficavam focados no mesmo ecrã/página durante uma média de 150 segundos, o que equivale a dois minutos e vinte segundos, o mesmo estudo aplicado a um grupo de trabalhadores, no ano de 2023, revela que os visados mantinham a mesma página aberta, sem mudarem de ecrã, apenas durante 47 segundos, o que revela uma perda de foco, em duas décadas, de mais de 50%. Estes resultados podem ser justificados pela popularização dos vídeos de pequena duração, comumente chamados de shorts, que podem ser vistos nas redes sociais, como o TikTok. Até os próprios vídeos estão a ser afetados por esta redução dos níveis de foco, com os vídeos de longa duração a perderem audiência ao longo do tempo.

A tendência de declínio nos níveis de foco, também é refletida no modo como se lê. É cada vez mais observada uma abordagem superficial aos textos, caracterizada pela leitura na diagonal, ou seja, com os leitores a deter a sua atenção apenas em algumas palavras e/ou expressões de maior destaque, entre linhas. O resultado é uma retenção inferior de informação e conhecimento, dificultando a compreensão sobre um tema mais complexo.

Consequências no ensino

No contexto do ensino a perda da capacidade de concentração torna-se evidente. Um estudo realizado em estudantes do ensino superior demonstra que estes recorrem à cafeína e até à taurina, presente nas bebidas energéticas, com o objetivo de aumentarem a produtividade e o rendimento das sessões de estudo. Todavia, esse hábito tem sérias consequências, como as insónias, fadiga, tremores ou episódios de taquicardia, um aumento da frequência cardíaca.

 

Ao reconhecer as consequências da redução dos níveis de attention span e o seu impacto real, em vários aspetos da vida, é possível adotar algumas estratégias que impeçam um maior agravamento desta condição, como evitar a exposição constante a estímulos que dispersam a atenção e tentar reduzir o consumo de conteúdos de curta duração, de modo a evitar que a mente se habitue à gratificação imediata.

 

Artigo da autoria de Armando Santos. Revisão por Ana Luísa Silva.

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