Ciência e Saúde

O funcionamento do Ozempic e de outros medicamentos no combate à obesidade

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Fonte: Haberdoedas | Unsplash

Criados para regular os níveis de glicemia, medicamentos como o Ozempic acabaram por transformar o combate à obesidade e abrir uma discussão sobre o acesso a esta forma terapêutica.

Fármacos como a semaglutida e a tirzepatida, que se encontram presentes em medicamentos mundialmente conhecidos, sob nomes comerciais como o Ozempic e o Mounjaro, demonstram um potencial elevado e, para além das suas expectativas iniciais, uma vez que podem ser prescritos no combate à obesidade, considerada pela OMS, uma epidemia.

A verdade é que, inicialmente, estes fármacos foram concebidos para combater a diabetes tipo 2, isto é, uma doença crónica comum caracterizada pela hiperglicemia (níveis elevados de glicose no sangue). Esta condição pode ser explicada pela resistência à insulina e, por vezes pela disfunção das células beta, localizadas no pâncreas e, cuja função é produzir as moléculas de insulina.

O que são os agonistas

Agonistas nada mais são que moléculas que se ligam a recetores específicos do organismo, estimulando uma resposta fisiológica do mesmo. Por outras palavras, são moléculas endógenas ou sintéticas, no caso dos fármacos, que imitem a função e o funcionamento de ligando naturais, ou endógenos. A semaglutida e a tirzepatida são exemplos de agonistas que têm o mesmo princípio de funcionamento que outras moléculas sinalizadoras, como o caso dos neurotransmissores. Estas moléculas atuam sobre os recetores específicos, de cada uma das hormonas (GLP-1 e GIP), cujo funcionamento está a ser complementado pela ação das próprias hormonas naturais.

GLP-1 e GIP

Acrónimos de Glucagon-like peptide 1 e Glucose-dependent Insulinotropic Polypeptide, GLP-1 e GIP são hormonas que fomentam a produção de insulina pelo próprio organismo, aquando da sua ligação aos recetores específicos. Simultaneamente, são capazes de inibir a secreção de glucagon, que é responsável pelo aumento dos níveis de glucose do sangue, aumento da sensação de saciedade e diminuição da velocidade da digestão, contribuindo desta forma, para o combate à obesidade. A semaglutida e a tirzepatida são substâncias ativas que replicam estas hormonas e a sua forma de atuação. Especificamente, a semaglutida tem como alvo os recetores da hormona GLP-1 e a tirzepatida é um agonista duplo dos recetores das hormonas GLP-1 e GIP. Apesar destes fármacos terem sido desenvolvidos para o combate à diabetes tipo 2 (a forma menos grave), investigadores aperceberam-se, mais tarde, que estes agonistas tinham esta capacidade para além daquela idealizada, quando as doses eram superiores àquelas dadas no tratamento desse tipo de diabetes.

As substâncias ativas

Como já mencionado anteriormente, a semaglutida e a tirzepatida são encontradas, nos medicamentos globalmente comercializados, para o combate à obesidade. A questão que se coloca é o que é que eles fazem na prática. Vários estudos conduzidos numa amostra razoável de indivíduos, mostraram que estes reduzem a massa gorda, especialmente, a que se situa na zona visceral do corpo, sem comprometer a massa muscular. Em termos percentuais, ocorre uma redução da massa de gordura total do corpo em 3,5% e, de gordura visceral em dois pontos percentuais. No entanto, é importante salientar, que os efeitos podem ser mais ou menos significativos, conforme a dose aplicada. Quanto maior for a dose injetada, maior será a redução de tecido adiposo e, vice-versa. Outro aspeto, que merece ser destacado, é o melhor desempenho da tirzepatida face à semaglutida, nestes tratamentos.

Efeitos adversos

Apesar de serem expostos a uma vasta, complexa e exaustiva bateria de testes antes de se iniciar a comercialização destes medicamentos, de forma a verificar a sua segurança, farmacologia e eficácia, assim como os outros, estes fármacos possuem efeitos adversos documentados, graças à farmacovigilância. Os efeitos secundários mais relatados, aquando da toma destes medicamentos, são as náuseas e problemas digestivos, sendo que estes últimos já tinham sido reportados, durante a fase de ensaios clínicos. É sobretudo graças a estes efeitos que os indivíduos que recorrem a este método para a perda de peso abandonam o tratamento. Para além dos efeitos adversos clinicamente reportados, são necessários mais dados para provar uma possível correlação com patologias oculares e, não há nenhum aumento substancial de risco de cancro pancreático ou doenças envolvendo a tiroide, uma das glândulas endócrinas do corpo humano. Como tal, até à data, não há nenhum efeito secundário cientificamente provado que seja considerado grave ou muito grave, associado a estes fármacos, embora seja importante continuar a monitorizar estes novos compostos.

O elevado custo deste tipo de fármacos, também contribui para um abandono gradual, já que estes medicamentos não são comparticipados no combate à obesidade. Não obstante, a ministra da Saúde disse, no final de 2025, que “Tem de ser avaliado pelos peritos e tem de estar dentro das indicações definidas pela DGS para situações consideradas graves, onde se comprove que há o tal custo-efetividade”, portanto é uma questão que está em cima da mesa e, alvo de discussão.

Nova geração de fármacos

Como a ciência é um mundo que está em constante evolução, existe um fármaco que atualmente se encontra, em fase de testes e que parece ser ainda mais promissor no combate à obesidade e ao controlo da diabetes tipo 2. Chama-se retatrutida e é um agonista triplo dos recetores das hormonas, que para além das GLP-1 e GIP, agora também envolve o recetor de glucagon. Avanços científicos como estes, deixam a sociedade e, mais concretamente, as pessoas que necessitam deste tipo de fármacos para melhorar a sua qualidade de vida, com maior esperança para o que o futuro lhes reserva. Graças à ciência, abriu-se a possibilidade de tratamentos mais eficazes e personalizados, capazes de responder a necessidades, que durante décadas, não tiveram qualquer solução.

 

Artigo da autoria de Armando Santos. Revisão por Joana Ribeiro da Silva.

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