Ciência e Saúde

PHDA e os ‘doutores’ do Tiktok: entre ajuda e desinformação

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Fonte: Mart Production | Pexels

A quarentena exigida pela pandemia do Covid-19 deu aso a uma revolução digital, com uma maior abertura para a discussão em saúde, mas também um aumento da partilha descontrolada de desinformação.

 

A importância do diálogo sobre saúde mental

Com cerca de 1,5 mil milhões de usuários ativos, a rede social Tiktok tornou-se uma fonte de informação para populações mais jovens nesta época digital, com a atratividade dos vídeos curtos e estimulantes, e de criadores de conteúdo com os quais esta audiência se pode identificar.

Este fator, aliado a um incremento do diálogo acerca da importância da saúde mental, numa fase em que a humanidade se viu obrigada a despir de todas as características sociais, fez com que o Tiktok se tornasse uma importante rede de partilha de consciencialização acerca de doenças mentais e promotor da literacia em saúde. Isto reduziu o estigma associado a estas doenças a nível global e trouxe algum conforto a quem sofria há anos para tentar perceber a raiz das dificuldades encontradas no seu dia-a-dia.

Com um notável -se como uma das doenças mentais que mais preocupa a sociedade atual, nomeadamente os jovens (atualmente existem quase 5 milhões de vídeos publicados com a #adhd na plataforma). Vídeos em que jovens relatam a própria experiência e que abordam os sintomas mais comuns, elaborados tanto por profissionais de saúde como não profissionais, tornaram-se extremamente populares.

 

A desinformação e sobre-generalização

Contudo, com esta popularidade surge também a desinformação acerca da doença. Um estudo publicado no ‘The Canadian Journal of Psychiatry’ revela que 52% das caraterísticas associadas à PHDA mencionadas nestes vídeos são enganadoras, enquanto 21% são verdadeiramente úteis.

Uma grande parte desta desinformação deve-se à sobre-generalização de sintomas e à associação patológica de traços que, na maioria das vezes, são caraterísticas normais da experiência humana. Sintomas frequentemente mencionados são, por exemplo, esquecimentos repetidos ou distrações durante o trabalho ou estudo. Embora estes sintomas possam aparecer em muitos dos pacientes diagnosticados com PHDA, a sua simples definição e generalização em vídeos do Tiktok, necessárias ao carácter curto e apelativo desta plataforma, levam, muitas vezes, a autodiagnósticos sem fundamentos em normas oficiais ou opiniões médicas. Muitos clínicos reportaram um

Por outro lado, o incremento no número de rastreios realizados provocou um aumento proporcional na taxa de diagnósticos e, consequentemente, na prescrição medicamentosa da PHDA. Esta diferença revelou-se mais significativa no sexo feminino: apesar de ser uma condição que afeta predominantemente o sexo masculino, a apresentação da doença, tendencialmente atenuada nas mulheres, pode explicar algum subdiagnóstico nesta população.

 

Mas, afinal, o que é a PHDA?

A PHDA é uma doença complexa, cujos sintomas primários e secundários variam significativamente de pessoa para pessoa e que deve ser tratada de modo a promover o correto desenvolvimento da pessoa.

Segundo as normas oficiais utilizadas pelos profissionais de saúde, pertencentes ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, a PHDA corresponde, primariamente, a um “padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade/impulsividade que interfere no normal funcionamento e desenvolvimento da pessoa”, contemplando um conjunto de critérios que não podem estar associados a qualquer outra doença mental, como a ansiedade generalizada, depressão ou esquizofrenia. Para além disso, estes sintomas deverão ter início antes dos doze anos e persistir para além de seis meses em várias facetas da vida do paciente, nomeadamente nos contextos laboral, familiar e social. Se estes sintomas aparecerem na vida adulta, é essencial diferenciar de outras etiologias como perturbações ansiosas ou traumas psicológicos/orgânicos.

 

A crescente desinformação e sobre-generalização acerca da PHDA nas redes sociais reforça a importância da literacia em saúde e do papel dos profissionais da área na promoção da mesma. Em casos de preocupação acerca de sintomas que possam interferir com o normal funcionamento da rotina diária, a procura da opinião médica deverá ser uma prioridade para que o seguimento ou tratamento sejam os mais adequados.

 

Artigo da autoria de Catarina Pereira. Revisão por Ana Luísa Silva.

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