Ciência e Saúde

Quando o medo governa: A psicologia do fascismo

Published

on

As ideologias ligadas ao fascismo estão a ganhar força em vários países. Compreender como líderes autoritários exploram o medo ajuda a perceber porque é que estas ideologias continuam a atrair apoio, mesmo em sociedades democráticas.

O que é o fascismo?

O fascismo é um regime político de extrema-direita, autoritário e ultranacionalista.

O termo “autoritário” refere-se à submissão à autoridade, em que são reprimidas as liberdades individuais. Está associado, por isso, à rejeição da pluralidade política – isto é, opõe-se à existência de diferentes partidos, opiniões e instituições que representem a diversidade de interesses e ideologias dentro da sociedade. Em vez disso, no fascismo o poder concentra-se num único órgão, muitas vezes personificado num líder carismático, apresentado como o salvador da nação.

Já o termo “ultranacionalista” significa acreditar numa superioridade nacional. Por este motivo, está frequentemente relacionado a discursos de pureza racial, étnica ou religiosa, e à exclusão ou desumanização de grupos considerados “outros”.

Uma vez estabelecidos, os regimes fascistas usam o medo para controlar e manipular as massas, através do isolamento social, censura e culminação da crença de que todas as formas de oposição são impossíveis.

O fascismo está intrinsecamente associado aos regimes do século XX da Alemanha Nazi, da Itália de Mussolini, e até mesmo do Estado Novo em Portugal. No entanto, sinais contemporâneos de reemergência têm sido amplamente debatidos. Em 2025, 28 laureados do Prémio Nobel da Paz assinaram uma carta pública a alertar para o crescimento do autoritarismo e de movimentos com características fascistas. Em Portugal, grupos neonazis como o 1143 têm ganho visibilidade e
simpatizantes, refletindo uma tendência observada noutros países.

No século XX, Hitler criou um inimigo comum na população judaica, e usou esse medo para ganhar o apoio e controlar a população alemã. Créditos: Karsten Winegeart, unsplash.com.

A psicologia do fascismo

As alterações climáticas, os conflitos armados em várias regiões do mundo, a instabilidade política e incerteza económica contribuem para uma perceção crescente de que o mundo se tornou um lugar perigoso. Para muitos, esta perceção gera medo, stress e ansiedade constantes.

Do ponto de vista biológico, estes estados prolongados de stress ou ansiedade, mesmo que moderados, levam à ativação da “reação de lutar ou fugir” (do inglês, fight or flight response), um processo fisiológico que, apesar de ter grande importância evolutiva, afeta a capacidade cognitiva. Observa-se uma redução da atividade do córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável pelo pensamento crítico, planeamento e avaliação de consequências. Simultaneamente, estruturas ligadas à deteção de ameaças, como a amígdala, tornam-se dominantes.

O consenso na ciência política indica que líderes populistas autoritários se aproveitam deste fenómeno fisiológico ao alimentar a ansiedade coletiva. Esta ansiedade tende a aumentar a aversão ao risco, levando os indivíduos a privilegiar a proteção, ordem e controlo, e a resistir à mudança social. Estas características alinham-se frequentemente com ideologias políticas conservadoras e autoritárias, que se apresentam como uma garantia de segurança e estabilidade num “mundo ameaçador”.

As ameaças que alimentam este medo coletivo são, em geral, enquadradas em narrativas sobre a imigração, o terrorismo e a insegurança económica. Este processo alimenta uma lógica de “nós contra eles”, na qual minorias são responsabilizadas por problemas complexos. É assim que o medo se manifesta sob a forma de xenofobia, racismo ou discriminação de grupos marginalizados.

O córtex pré-frontal e a amígdala partilham uma relação bidirecional. Enquanto a amígdala atua como um
sistema de deteção de ameaças, o córtex pré-frontal é responsável por tomar decisões, fornecer avaliação cognitiva e regulação emocional. Créditos: Injurymap, www.injurymap.com/free-human-anatomy-illustrations. Adaptado do inglês.

A solução: uma faca de dois gumes?

Nunca foi tão fácil aceder a informação: todo o conhecimento do mundo está à distância de um click. No entanto, a forma como a informação é apresentada pode ser, por si só, enviesada.

Os algoritmos das redes sociais, a partir das quais uma percentagem significativa da população adquire informação, privilegiam conteúdos emocionalmente intensos, porque são esses que geram mais interações, como likes e comentários. Por este motivo, notícias falsas espalham-se mais rapidamente do que informação factual.

Além disso, as bolhas de informação criam uma perceção distorcida da realidade. Cada utilizador recebe conteúdos diferentes, moldados pelo seu histórico e preferências, o que pode intensificar discursos extremistas.

Combater o fascismo e, de uma forma geral, as políticas baseadas no medo, é, por isso, uma tarefa delicada. É importante consumir informação de confiança, mas sempre aliada ao pensamento crítico, à literacia científica e mediática, e à capacidade de ouvir discursos de opiniões divergentes com uma mente aberta.

Artigo por Isabel Santos de Sousa. Revisto por Joana Ribeiro da Silva. Créditos da imagem de capa: loochanin, pixabay.com.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Exit mobile version