Cultura
Bispo e Calum Scott – O 6º dia da Queima
O rap de Bispo. Amor, revolta, talvez até finitude.
Calum Scott e a coabitação dos tempos. Uma mancha de gente que confessou ao ar do mar as suas razões, as suas memórias de dançar sozinha, talvez até as suas nostalgias de um tempo de breves instantes e corridas de gotas de chuva na janela do carro.
Bispo e a esperança de caber no vento
O sexto dia de Queima viu o seu início no Palco Principal com o concerto de Bispo, nome decerto já bem conhecido pela Invicta em geral e pela Academia em particular, sendo este o terceiro ano consecutivo que o hip-pop do português marca presença no Queimódromo. Afinal, a Queima do Porto já está bem habituada às nossas reiterações enquanto criaturas de hábito e se é verdade que o nome de Bispo entretem estas nossas teimosias há já alguns anos, também é verdade que não é por isso que o concerto perdeu qualquer encanto. Até porque o rapper voltou com um repertório mais alargado tendo lançado o seu novo álbum em agosto de 2025, Entre Nós, álbum este que carrega consigo os 5 anos de intervalo entre álbuns às costas de um Bispo mais marcado pela consciência de uma certa finitude e ânsia de viver os dias.
Foi com esta crescente consciência e com as músicas de sempre, já cimentadas na memória sonora que surge com o nome do artista, que Bispo subiu ao Palco da sexta noite desta semana académica; tendo cantado temas como Essa saia, Monarquia, Bênção, Aviola II e até Vou continuar, música deste novo álbum que contou com a colaboração e presença em palco de Gama WNTD.
Calum Scott, o permanecer e a nostalgia
O Dicionário de Angústias Obscuras (The Dictionary of Obscure Sorrows) , compêndio de definições de neologias que respondem à necessidade de palavras descritivas da estranheza fundamental das experiências da vida humana, define avenoir como o desejo de ver as nossas memórias antes de o tempo as trazer. Assim, é com esta premissa de que remando de costas para as águas que à frente nos esperam, ansiamos por as ver antes que o tempo as traga que Callum nos confronta com ao longo do seu álbum mais recente, Avenoir. É também com esta premissa de avenoir que apela para que sintamos um presente que também ele se tornará distante ao longo do curso do rio.
Scott criou assim um ambiente de intimidade com o público e um concerto que culminou num espaço comum de contrariedades, uma cadência de ritmos que denunciou a urgência de saber permanecer nos breves instantes do agora, mas também uma cadência de ritmos profundamente marcada pelo exercício inevitável da reminiscência. A verdade é que enquanto que os seus temas novos se traduziram nessa valorização do presente, os seus temas antigos como You are the reason e a sua cover de I´ll be dancing on my own desencadearam uma verdadeira metamorfose do tempo, todo um conjunto de vislumbres inconscientes de tempos mais simples. Passaram então os últimos momentos do concerto com o cantor a envolver o público em todo uma odisseia de resistência vocal, vozes a quebrar e pulmões a pedir socorro como se tivessem a fazer o vai e vem, naquele que considero um desafio de aguentar a última nota entre a falta de ar e a urgência de não deixar escapar uns breves instantes de infância pela fraqueza da traqueia.
