Cultura
BOOK 2.0 chega à sua 4ª edição em Lisboa
A quarta edição do BOOK 2.0 deu-se no grande auditório do Centro de Congressos de Belém (CCB) nos dias 15 e 16 de setembro. Com um público já fiel e a chegada de novos membros, os diversos oradores levantaram temas atuais e pertinentes à indústria literária e não só: educação, sociedade e tecnologia foram assuntos afluentes abordados nas conferências que contaram com profissionais da área editorial, membros do governo, artistas e convidados internacionais.
BOOK 2.0_@Rui Valido
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Dia 1
O primeiro dia arrancou com as boas-vindas da apresentadora Sílvia Alberto, a anfitriã desta edição. De seguida foi a vez de Silvia Pazos Rodrigues (Diretora Executiva do Book 2.0) e Miguel Pauseiro (Presidente APEL) fazerem as honras e falarem ao público já a apresentarem os números atualizados da pesquisa feita pela GFK sobre o setor livreiro. O Vereador da Cultura, Economia e Turismo da Câmara Municipal de Lisboa, Diogo Moura, também falou aos presentes sobre a importância da leitura e medidas a serem tomadas. Em formato online, numa mensagem de vídeo, o Subdiretor-Geral da UNESCO para a Educação, Qun Chen, deixou a sua contribuição. Para encerrar este primeiro bloco institucional, Nuno Crato, Professor-Investigador e ex-Ministro da Educação e Ciência, fez uma apresentação bastante contundente, com a exibição de gráficos e informações sobre a utilização das apostilas.
O professor reforçou o uso da repetição no processo de alfabetização e afirmou que ler é um processo complexo que precisa sim de um treino sistemático. Além disso, afirmou que quanto mais cedo se dá esta iniciação, melhor, pois é preciso que se tenha um conhecimento de base para tornar a leitura natural e prazerosa. Crato narrou a sua experiência pessoal e partilhou a cartilha de João de Deus, na qual aprendeu a ler.
Também exibiu os dados do PISA, admitindo que as coisas estão a piorar, com ênfase no âmbito da literatura. Quanto a isto, questionou o prazer da leitura, já que há dificuldade em fazê-la e explicou a proficiência da leitura através de um treino sistemático da fluência. Contudo, diz ter esperança, sobretudo pelas crianças, que devem ler textos completos, complexos e de géneros variados, pois isso é importante para o desenvolvimento do gosto pela leitura e também oferece elementos cognitivos e sociais através dos elementos presentes nas obras destinadas a este público. Antes do seguimento das sessões, um grupo de dançarinas apresentou a perfomance ” The playground was never green” – com coreografia de O´Brien, num momento artístico e de leveza.
BOOK 2.0_@Rui Valido
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Ainda pela manhã, BOOK 2.0 considerou as grandes tendências que estão a redefinir o setor editorial, assumindo a leitura como um pilar central da democracia, da liberdade e do desenvolvimento socioeconómico. Com os preocupantes resultados do teste PISA a surgirem como um diagnóstico urgente e transversalmente citado pelos oradores como uma realidade cuja reversão deve ser prioritária, as sessões cruzaram perspetivas globais e locais sobre a evolução do livro enquanto ferramenta cultural e de estilo de vida.
A discussão prosseguiu com a análise do panorama global e da adaptação digital por Markus Dohle e Clara Capitão, estendendo-se às políticas públicas de literacia e ao alcance da edição portuguesa com contributos de Emma House e Erin Cox. Na perspetiva europeia, Alessandra Carra, Joan Tarrida e Rebecca Jones debateram o equilíbrio sensível entre a missão cultural e a sustentabilidade comercial, enquanto Vincent Phan trouxe a dimensão comunitária ao abordar o acesso à leitura em contextos vulneráveis através do projeto 1000 Libraries. O impacto da leitura na saúde mental e na longevidade, de particular relevância no contexto português de combate ao stresse e à solidão, foi destacado por Maria Eduarda Reis e Cláudia Godinho, concluindo com a apresentação do Ano Nacional da Leitura do Reino Unido para 2026 por David Hayman. O bloco da manhã encerrou com a condução da apresentadora Sílvia Alberto, consolidando a urgência de uma ação conjunta de todo o ecossistema do livro.
A tarde, explorou-se a leitura e a literacia como forças ativas na resposta aos grandes dilemas contemporâneos, cruzando realidades sociais, neurociência e espiritualidade. A autora Cara Hunter abordou o papel da ficção criminal ao espelhar e desafiar questões prementes como a violência de género, a misoginia e as ansiedades das jovens gerações, reforçando o poder da literatura como estímulo para debates críticos. Na interseção entre inovação e mente humana, Adolfo Mesquita Nunes e José Manuel Fernandes debateram os impactos da Inteligência Artificial, da ética e da neurociência, destacando como o ato de ler reconfigura o cérebro e serve de alicerce tanto cívico como intelectual. A perspetiva filosófica existencial da leitura marcou presença com as participações do médico Manuel Sans Segarra (via zoom) e do autor Luís Portela, em conversa com Mário Augusto, que exploraram as fronteiras da consciência humana, o elo entre aciência e aespiritualidade e o impacto das narrativas na forma como compreendemos a vida e a saúde.
BOOK 2.0_@Rui Valido
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Um dos momentos mais significativos da programação foi protagonizado pelo ex-Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, num painel partilhado com o Secretário-Geral Ibero-Americano, Andrés Allamand. Num testemunho focado no compromisso pessoal e institucional com o livro, a intervenção delineou uma visão estratégica para o futuro da literacia em Portugal, reafirmando a leitura como um instrumento insubstituível de transformação social e coesão democrática. Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou a responsabilidade contínua de quem liderou nações em prosseguir a defesa do acesso à cultura, celebrando a capacidade que os livros têm de aproximar gerações, cruzar geografias e cultivar o pensamento livre, mesmo muito depois da cessação de cargos políticos. Inclusive justifcou ser este o motivo de, ao voltar a lecionar, ter optado pelo ensino secundário, época em que os jovens começam a ter de tomar decisões e o pensamento crítico precisa ser fomentado.
O encerramento do dia ficou a cargo professor e autor sueco Joel Halldorf que apresentou um ponto de vista histórico e sociológico, da evolução da leitura como um reflexo da própria civilização. Ao analisar o modo como os diferentes meios de comunicação moldam a mente humana e afetam a estabilidade das democracias num tempo de profunda incerteza, o debate resgatou as lições da história e o valor da palavra escrita como a base fundamental contra a polarização. Assim, as sessões do período da tarde suscitaram a urgência de classificar os livros não apenas como um hábito de lazer ou consumo cultural, mas como uma infraestrutura vital para a liberdade, a empatia e a sustentabilidade social do país.
BOOK 2.0_@Rui Valido
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Dia 2
O segundo dia do evento abriu teve sessões com o lema “Educação e a Voz Humana”. As boas-vindas ficaram a cargo da Diretora Executiva do BOOK 2.0, Sílvia Pazos Rodríguez, numa manhã que seguiu focada no impacto da leitura na identidade, na saúde mental e na cidadania. O painel inicial recebeu a ex-Primeira-Ministra finlandesa Sanna Marin e Maria Castello Branco, que debateram a relação entre literacia e resiliência democrática; Stacy Ennis e Matt Trinetti abordaram o poder das comunidades globais de escrita; enquanto Luísa Sobral e Francisco Guimarães exploraram as pontes entre música, emoção e narrativa.
No âmbito social e científico, o públicou presenciou a conferência de Mafalda Ribeiro e Daniela Pierre, que defenderam a inclusão e o livro em espaços não convencionais como as prisões, e com Célia Oliveira, que alertou para os impactos dos ecrãs e algoritmos no cérebro dos mais jovens. A Ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, também falou ao público sobre a importância da leitura e da necessidade do seu incentivo para além da escola e das políticas públicas, que os mais jovens devem visitar bibliotecas e livrarias, descobrir as obras e os autores de forma habitual. Aproveitou para comunicar o aumento na adesão do cheque-livro este ano. Ainda nesta bloco, Gonçalo Saraiva Matias e Isabel Nery, defenderam uma aliança ibérica de promoção da leitura e estratégias de transição digital para o setor.
As sessões matinais chegavam quase ao fim, quando se deu a apresentação da palestra de D. José Tolentino Mendonça sobre a ética, os desafios da Inteligência Artificial e a encíclica Magnifica Humanitas. Devido a um problema na garganta do cardeal, o texto foi lido pela apresentadora Sílvia Alberto, que partilhou com a sala a honra do momento ao revelar que, embora ateia, fora sua aluna no ensino superior e guardava com enorme carinho um texto religioso recomendado por ele. De seguida, Todos puseram-se de pé num enérgicoa aplauso para receber o Presidente da República, António José Seguro, que na sua intervenção, reforçou a leitura como uma prioridade nacional urgente e posicionou a língua portuguesa como uma ponte literária e estratégica vital para toda a lusofonia global. O presidente aproveitou para convidar os presentes para a 9ª edição da Festa do Livro de Belém, que teve início no dia 17 de setembro.
Após a pausa para o almoço, o evento retornou oferecendo aos presentes uma série de masterclasses direcionadas para o ecossistema empresarial do livro e na economia da atenção. Com contributos de especialistas internacionais, tais como Matt Locke, Ani Attamian, Salvador Medina, Giacomo D’Angelo, Nathan Hull, Raúl Pérez e Sarah Arbuthnot, as sessões abordaram o marketing criativo, a visibilidade das obras na era da Inteligência Artificial e a criação de estratégias além do convencional.
Pode-se dizer que, ao convergir a literatura com o cinema, a música, o bem-estar e o trabalho com comunidades digitais, o encerramento desta edição do BOOK 2.0 ofereceu também uma capacitação extra aos agentes do setor do livro com ferramentas e práticas para captar de forma mais eficiente as novas gerações de leitores, além de garantir o crescimento sustentável da indústria editorial.

Fotografias: Rui Valido