Cultura
Memórias do Cárcere: um filme de Sérgio Graciano
Memórias do Cárcere foi publicado pela primeira vez em 1862, pela pena de Camilo Castelo Branco, autor maior da Literatura Portuguesa. Nada mais, nada menos do que 164 anos depois, o livro é adaptado ao grande ecrã, pela técnica de Sérgio Graciano.
Com Alberto Jerónimo como Camilo Castelo Branco e Maria João Bastos como Ana Plácido, o filme acompanha parte do tempo em que ambos estiveram presos na Cadeia da Relação do Porto, por adultério. Ora, tenho para mim que Camilo é um autor que o tempo e as modas tentam esquecer. Talvez não seja tão conhecido como Pessoa nem tão contemporâneo como Saramago ou talvez, simplesmente, o seu rosto não se adapte tão bem ao merchandising dos nossos dias. Por isso, quando soube que o meu autor preferido teria direito ao seu próprio filme, não hesitei em comprar bilhete.
No entanto, é também sabido que tenho sempre as minhas reservas no que ao cinema português diz respeito. Ainda assim, considero que a escolha de atores foi muito bem feita e a realização também não estava nada má: silêncios barulhentos, cenas lentas, pausas para reflexão, cada ângulo bem pensado. Contudo, tudo estaria ainda melhor se o filme não durasse praticamente três horas. Isto é, não defendo que os filmes devam ser feitos a correr e que fiquemos com o assunto resolvido numa hora, mas diria que 167 minutos é excessivo, sobretudo para um filme que não foi feito para todos os públicos. Os portugueses já leem pouco, já veem pouco cinema português e, por isso, não diria que um filme longo seja a melhor solução.
Fora isso, muito me agrada que o livro tenha sido adaptado: deixou-me com aquela vontade de reler Camilo, de conhecer mais e melhor Ana Plácido e foi muito divertido perceber que narrativas vividas na Relação originaram determinados romances e novelas. Porém, há mais um reparo que me vejo forçada a fazer: sabemos que a vida na prisão para Camilo foi bastante diferente do que para um comum mortal. A cela era outra, as condições também. Ainda assim, não quero crer que tenha sido um período despreocupado, interessante e, até, divertido como o filme pretende demonstrar. Não me parece que as celas fossem abertas com tanta frequência, com tanta leviandade, como se fosse uma residência com grades…
Ademais, gostei de ver narradas as histórias de personagens inigualáveis, como o Zé do Telhado ou de Vieira Mendes, bem como a presença do grande amigo de Camilo, Vieira de Castro. No que diz respeito aos factos, não me parece que se possa acusar Graciano de um mau trabalho. Talvez o realizar tenha apenas romantizado em demasia a vida numa prisão no século XIX. Ou talvez tenha sido o seu amor por Camilo a sobrepor-se. E, nesse aspeto, quem sou eu para falar?
Em suma, se me perguntarem se vale a pena, a minha resposta é: ide ver, conhecei Camilo. Se é um interessante filme português? Sim. Tudo o resto são pequenas migalhas que uma fã incurável e que pouco percebe de cinematografia aponta…