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Cultura

O Ambicioso Projeto de Christopher Nolan: “A Odisseia”

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Anunciada em dezembro de 2024, “A Odisseia” prometeu ser uma adaptação da obra épica de Homero, produzida por Christopher Nolan, um dos diretores de cinema mais aclamado e que conta, no seu repertório, com filmes de sucesso como  A Origem (2010); Interstellar (2014) e, mais recentemente, Oppenheimer (2023). 

Ansiosamente antecipado, o trailer deste filme obteve uma reação tumultuosa do público, pois levantou certos problemas que não deveriam ocorrer num filme com uma responsabilidade tão grande como a de recontar a história que está subjacente a centenas de gerações por si influenciadas. Alguns desses problemas basearam-se na escolha do elenco que, para além de conter nomes tão atuais como os de Matt Damon (como Ulisses), Anne Hathaway (como Penélope), Tom Holland (como Telémaco), Zendaya (como Palas Atena), Lupita Nyong’o (como Helena e Clitemnestra), Robert Pattinson (como Antínoo), entre outros, não contou com qualquer presença de um ator de origem grega ou mediterrânica. Essa falta de representação custou a Nolan imensas críticas bem antes de o próprio filme estrear. 

Adicionalmente, os fãs criticaram a escolha de Lupita Nyong’o, uma atriz negra, para o papel de Helena, apesar de Homero nunca descrever o aspecto da espartana detalhadamente, o que levanta a questão de mudanças raciais em media e a sua legitimidade. Criticaram ainda alguns erros de matriz histórica no design e materiais usados no cenário do filme, bem como as tonalidades acinzentadas e melancólicas dos planos, a maior parte dos quais foram gravados na Escócia, Islândia e Marrocos.

Apesar de todo o movimento em torno da estreia do filme, “A Odisseia” de Christopher Nolan está a ser muito aplaudida e a direcionar o interesse de pessoas por todo o mundo de volta para os mitos clássicos de origem greco-romana. 

Na sua adaptação, Nolan retirou muitas partes do poema original, convergindo outros textos como a “Eneida” de Virgílio e consultando diversas fontes e traduções, fazendo alterações e elisões. Algumas das quais incluem os personagens de Calipso e Ulisses, que se esqueceu da missão de regresso a casa durante os 7 anos que viveu com a primeira, devido à flor de lótus, que provoca o esquecimento e que, neste filme, foi unida à história da ninfa. Esta mudança transfere a responsabilidade da sua retenção na ilha durante tanto tempo de uma Calipso loucamente apaixonada, para uma isenta de egoísmo. 

Sinon aparece neste filme como um catalisador da história de Antínoo, que foi quase toda reinventada. Desta forma, porém, apaga toda a herança latina que o nome daquele orador traiçoeiro representa no mito da queda de Tróia, que Virgílio explorou em detalhe, e apaga também consigo a temática da importância da palavra, um de dois atributos essenciais constituintes da areté (excelência) guerreira dos gregos antigos.

Penélope é também um personagem recorrente e que, apesar de, no texto de Homero, ser o exemplo de uma mulher fiel e inteligente, que participa na sua própria épica feminina, aqui, o diretor britânico utiliza os seus pequenos momentos de voz para expressar uma frustração sobre a autonomia feminina que era vetada às mulheres daquele tempo, coisa que é mais familiar ao nosso mundo moderno do que à Idade do Bronze.

Durante quase três horas de filme, acompanhamos o frenesi de fragmentos que empurram a história para a frente, concomitantemente seguindo o desespero de Ulisses e dos companheiros a aumentar e a enovelar-se com a distância de casa, a morte constante e os erros cometidos que levam à sua perdição. Os grandes cenários demonstram a solidão cada vez maior do protagonista naquele mundo e a ação feroz faz jus à magnitude da épica. Por diversas vezes, o filme coloca uma capa de exposição silenciosa dos acontecimentos e deixa ao nosso critério avaliar aqueles personagens e as suas ações. Existem imensas temáticas representadas pela Odisseia e algumas pelo filme, e a sua interpretação como um todo exige do espectador uma avaliação e consideração que consistentemente flutuam e que o diretor não nos quer impor diretamente. Apesar de subtil, a mensagem que Nolan nos quer passar é, ainda assim, perceptível: Ulisses é um homem assombrado pela culpa dos atos violentos praticados numa guerra que não deixa vencedores, mas apenas sobreviventes.

Ulysses and Argus (1885) Briton Rivière

Nolan possui uma intuição artística muito refinada e as suas qualidades fílmicas são inegáveis, no entanto, a ambição de adaptar a Odisseia, por vezes, parece ofuscar aquilo que realmente está na essência da história que quer expor. A Odisseia era um poema conhecido e cantado por todos, antes de ter sido escrito ou fixado. É uma história sobre o Homem, sobre a vida como viagem, sobre a vulnerabilidade e escolhas humanas, mais do que uma coleção de monstros, deuses ou sequências de ação espetaculares, e, por vezes, neste filme, o roteirista parece ignorar essa nuance e humanidade tão importantes, ao ponto de alguma artificialidade.

Mas tal como muitos antes de si, Christopher Nolan imita e altera os mitos que lhe chegaram, recontando mais uma vez e, desta vez, em formato cinematográfico, uma história que conhecemos há três mil anos, dando assim continuidade à sua influência intemporal.

Lançado nos cinemas a 17 de Julho de 2026, este filme deve servir como um incentivo para os espectadores pegarem num exemplar da Odisseia e aprofundarem o seu conhecimento sobre uma das obras fundadoras da cultura ocidental, mas também mundial.

Quando partires de regresso a Ítaca,

deves orar por uma viagem longa,

plena de aventuras e de experiências.

(Kavafis, 1911)

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