Cultura
O lugar do silêncio e a inevitabilidade da mudança
O lugar do silêncio esteve em cena no Auditório Municipal de Gondomar de 7 a 10 de maio, produzida pela Associação In Skené. Uma peça pautada pelas metamorfoses da vida e a certeza de que o passado nunca se repete.
Escrita por João Ferreira, O lugar do silêncio nasce de uma localidade em Figueira de Castelo Rodrigo e de uma vontade do autor de escrever sobre a repetição de eventos nas nossas vidas:
A peça mostra-nos a impossibilidade de recriarmos o nosso passado no presente e a inevitabilidade da mudança.
– João Ferreira
Em cena, cinco personagens centrais: Alba (Marlene Santos), Vitória (Maria Inês Rocha), Artur (Diogo Barbosa) e Camila (Ana Gomes), amigos de longa data que se separaram de maneira drástica e inacabada, e Isaac (António Alves), que entrou na vida de Alba e mergulhou nas profundezas da história dos quatro, mesmo sem o desejar ou se dar conta.
Já pensaste se o amor é uma armadilha de Deus para nos manter aqui?
Os quatro amigos perderam contacto no momento em que cada um partiu e seguiu caminhos diferentes das suas vidas, sem aceitar que teriam de fazer esforços e sacrifícios para continuarem a acompanhar os caminhos uns dos outros.
Agora, anos mais tarde, Alba decide reunir o grupo no lugar do silêncio, a casa dos avós. Cada um aparece muito diferente do que era, carregando as suas novas vidas com eles e sem saber se arranjarão espaço para recuperar as amizades perdidas.
Estás no sítio certo. Talvez o tempo ainda não te tenha mostrado quem procuras.
Isaac é apanhado no meio de palavras que ficaram por dizer e conversas que não foram tidas, fazendo a ponte entre os dois mundos de Alba e acaba, também ele, por ficar enredado na sua solidão, sem saber se deve ficar no passado ou no presente da amiga.
Pessoalmente, parece-me que a peça apresentava um guião belíssimo do ponto de vista literário. O lugar do silêncio é uma peça lenta, em que os silêncios são medidos e propositados, ainda que tal possa fazer com que peque pelo tempo de duração.
Se queres sobreviver à noite na montanha, tens de saber quando partir.
Para quem, como esta vossa autora, já mudou de vida pelo menos uma vez, sabe como é deixar amizades para trás e querer congelá-las quando as deixámos, para que permaneçam assim, inalteradas. No entanto, quem já mudou de vida sabe também que nós não permanecemos inalterados, pelo que é injusto esperar o mesmo de quem largámos. Assim, diria que esta peça é para os que têm de aprender com as mudanças da vida e a aceitar que há coisas que, simplesmente, pertencem ao nosso passado e não poderão pertencer ao nosso futuro.
Uma peça sobre o amor, a amizade e o papel de ambos numa vida em constante transformação.
Em suma, felicito o encenador, João Ferreira, pela brilhante estruturação da peça, bem como o elenco e o Auditório Municipal de Gondomar, cujo espaço é muito acolhedor e agradável.