Cultura
Onde vive Paul Thomas Anderson
Filmadas com “audácia formal e uma profunda empatia pela imperfeição humana”, as longa-metragens de Paul Thomas Anderson estão em exibição no Batalha Centro de Cinema. Até dia 13 de junho, a nova retrospetiva vai revisitar o que é o humor trágico. Nada disto esquece dois debates — a nostalgia no cinema, e onde fica Los Angeles.
«A obsessão segundo Paul Thomas Anderson», retrospetiva ao autor estadunidense, trouxe para as salas do Batalha um retrato holista das 10 longas na programação. A folha de sala, escrita por Christopher Small — fundador da revista independente Outskirts Film Magazine — dá destaque à estilização das emoções e de tempos na filmografia.
De tal sorte que o primeiro título desta retrospetiva, Boogie Nights (1997), encheu a sala até ao teto da tribuna. A “obsessão” e a “redenção” são motores nesta recreação da indústria de cinema pornográfico dos anos 70. Para os olhares atentos, Dirk Diggler, protagonista “literalmente com um talento imenso” (piada da equipa que moderou o filme, não minha), passou pelos mesmos sinais de trânsito qua Linda (Julianne Moore) em Magnolia (1999), Barry (Adam Sandler) em Punch-Drunk Love (2002), e que Gary em Licorice Pizza (2021). Afinal, são personagens fictícias, estradas reais.
A norte da baía de Los Angeles, o Vale de San Fernando, é a casa de grandes estúdios de gravação. Este é o cenário de vários filmes de Anderson. Claro que os Warner Bros. Studios e os Walt Disney Studios escolheram o Valley — perto o suficiente do centro de LA para beber da agitação de Hollywood, mas longe que basta para viver algum do conforto dos subúrbios.
As muitas Boogie Nights em San Fernando Valley
Foi o clima da revolução sexual dos anos 1970 que escreveu a reputação do San Fernando Valley. Estava eufórica a opinião pública.
Aos poucos, a ameaça de libertinagem sexual levou Nixon a constituir a President’s Commission on Obscenity and Pornography, depois do Supremo Tribunal ter fechado o caso Stanley v. Georgia em 1969. Daí em diante, a mera posse de material obsceno em casa não pode, constitucionalmente, ser considerada crime. Mesmo assim, foi lançada a guerra contra a revolução sexual e Nixon gritava aos eleitores dos EUA para formarem uma campanha contra a obscecinidade. Diz a revista Time (2015):
The “torrent of sexuality,” as LIFE called it, was a subject of debate from the Capitol Building to small-town living room as elected officials and private citizens debated not only what to do about porn, but also how to define it in the first place.
Logo pressionada pelo debate público reativo, a indústria do filme pornográfico subiu como nunca antes visto — tanto por preocupados com o destronar da pureza da moral, como por mais consumidores. A introdução do leitor de VHS em 1976 (transição que apanhamos na segunda parte de Boogie Nights), gradualmente levou a pornografia para a esfera privada, pela reprodução dos filmes em sistemas de vídeo caseiros. O potencial de lucro tornou a indústria numa mina de ouro. Aliás, uma produção barata de 125 mil dólares (USD) podia arrecadar mais de 10 milhões. Equivale a cerca de 85 milhões em 2026.
A miragem destes estúdios “adultos” comprou, na clandestinidade, armazéns não sinalizados e casas suburbanas em San Fernando Valley. A reputação manteve-se e o Valley é até hoje um epicentro da produção de filmes pornográficos. Cerca de 70-80% da produção à escala mundial está nos arredores de LA, muito dela no Valley (Danta, 2009; Colazzo, 2020; Morgan, 2026).
Burt Reynolds (que interpretou Jack Horner, o realizador de filmes pornográficos) falou publicamente sobre o quanto odiou filmar Boogie Nights ao The Guardian. A presença de pessoas da indústria nas zonas de filmagem pertubou-o, e reduziu-as ao epíteto de “essas pessoas”.
O tempo como uma personagem em Paul Thomas Anderson
Foi o diálogo (in)tenso entre a reivindicação da libertação sexual e o conservadorismo social (Sprague, 2021) que deu, hoje, o interesse na estetização dos anos de 1960’s e 70’s norte-americanos nos mídia. A tensão cultural causada pela sexualidade desviante, pelas lutas dos direitos civis e o embrião das lutas feministas, é simplificada pelo guarda-roupa dos movimentos culturais e pela rebeldia dos protagonistas. Ainda que não mencione datas, o papel de Julianne Moore como Amber captura muitas destas nuances. Claro, é impossível ficar indiferente à dor nua de uma mulher que teatraliza ser mãe, mas perde a custódia do filho.
A maior vitória da luta pela “maternidade voluntária” do século XIX, que iniciou o movimento estadunidense pelos direitos reprodutivos, foi a legalização do direito ao aborto em janeiro de 1973. O auto controlo sobre o sistema reprodutivo foi um dos pilares da emancipação feminina. Coincide que, nesse mesmo ano, mais de um terço das mulheres norte-americanas (36%) tomavam a pílula já como controlo da natividade (Watkins, 2012).
Algum contexto
Os casos Roe v. Wade e Doe v. Bolton declararam pelo Supremo Tribunal o direito à privacidade individual e, por isso, a escolha individual de interromper a gravidez. Mas, não só a campanha fracassou em reconhecer a história do seu movimento, como a emenda Hyde de 1977 extinguiu os fundos federais para o aborto.
Nos 5 anos depois da descriminalização, quase metade das mulheres que recorreram aos fundos eram negras, porto-riquenhas, de origem mexicana ou indígena, a grande maioria em condição de pobreza. Com a ofensiva da extinção dos apoios em vários estados, foram estas mulheres que tiveram o seu direito ao apoio legal destituído. Assim, na segunda metade da década de 70, houve a vindicação da união do movimento por todas as mulheres (Davis, 2016[1981]), a condenação à esterilização sem consentimento informado, e o direito ao aborto (não só a legalização).
Um dos temas nucleares da emancipação feminina foi (e mantém-se) a libertação dos instintos e do corpo (marcado hoje pelo movimento de 1974, Wages Against Housework). Um artigo do American journal of public health (2012) articulou esta nova era expressa no anúncio para a primeira pílula comercializada, G.D. Searle’s Enovid. A publicidade, de 1961, diz:
From the beginning, woman has been a vassal to the temporal demands—and frequently the aberrations—of the cyclic mechanism of her reproductive system. Now to a degree heretofore unknown, she is permitted normalization, enhancement, or suspension of cyclic function and procreative potential. This new physiologic control is symbolized in an illustration borrowed from Greek mythology—Andromeda freed from her chains.
Apesar de, hoje (e assim é a campanha dos produtores farmacêuticos desde os anos 90), a pílula contracetiva oral combinada (PCOC) ser mais comercializada pela possibilidade de resultados estéticos (por poder regular o acne), recreativos e opcionais, foram um avanço significativo e assumiram uma forte dimensão política. As hormonas sintéticas foram dos maiores inibidores do comportamento sexual desacorrentado. Foi a primeira medicação a ser receitada, em massa, a pessoas saudáveis.
As emoções distantes da nostalgia no cinema
Portanto, conectamo-nos a décadas passadas pelas emoções, “anteriores experiências presentes”. Julianne Moore, para o podcast Fashion Neurosis (2025), respondeu, sobre a história de Amber, como é instintivo ancorarmo-nos em realidades fabricadas. A ilusão de pertença desta personagem figura uma ferida não corrigida. Diz Moore, é pelo fascínio que este delírio com o irreal causa no observador que a exposição da reality television tem tanto sucesso. O mesmo se passa com os filmes de Paul Thomas Anderson, intensamente emotivos.
O conforto do refúgio na fantasia, seja ela um devaneio da imaginação, ou um filme passado em 1975, distancia-nos da responsabilidade da dor emocional, por algo que mimetiza o mundo que nos é tátil.
A steadicam, as sequências filmadas em planos longos, e os close-ups fazem parte de um dinamismo propositado. Anderson destaca-se por criar a imersão no filme e a preocupação com os sucessos e fracassos pessoais das vidas no ecrã, na mestria em sequências tão mundanas como personagens num carro.
Sobre a nostalgia, talvez, não seja de propósito. Anderson disse já que não consegue escapar muito além do Los Angeles Valley dos anos 70 — gosta da estética, do cheiro, do sabor (Far out, 2026). Seja como for, a lente nostálgica serve de leitura crítica.
As a staging of the lived experience of nostalgia, nostalgic artifice locates us in the present moment (Laks, 2023)
Recomendações finais
Isto é apenas uma leitura viajada da retrospetiva, em exibição no cinema Batalha. Fica aos olhos e mentes de cada um decidir onde vivem os filmes de Paul Thomas Anderson.
Os próximos títulos são Magnolia (29 de abril), “filme-mosaico” com nove linhas narrativas principais, e Punch Drunk-Love (30 de abril), socialmente constrangedor. Confesso que tenho marcado na agenda a sessão do Popeye, a 2 de maio. Robin Williams e Shelley Duvall protagonizam este filme de Altman, fonte de inspiração para Anderson.
Fora isto, a oferta do Batalha Centro de Cinema não acaba. Está ainda a acontecer o Porto Femme-Festival Internacional de Cinema, com sessões no Batalha até dia 26. Vai passar, ainda dia 29 de abril, às 19h15, Scenes from the Class Struggle in Portugal (1977), um retrato da revolução filmado por dois cineastas norte americanos.
