Cultura
Paredes de Coura 2025 – Primeiro Dia
No passado dia 13 de agosto abriu-se a 31ª edição do festival de música Vodafone Paredes de Coura. Vampire Weekend e Zaho de Sagazan foram estelares, mas Joey Valence & Brae roubaram a noite.
Pelas 16h30 iniciava-se mais uma edição do “Couraíso”; e a dar a cara os texanos Being Dead, cuja honestidade e ingenuidade se escapava pelas suas mãos e vozes, numa filosofia pragmática que funde o art pop, garage e a experimentação de uma das múltiplas cenas indie americanas.
Being Dead | Fotografia: Inês Aleixo (@0xiela)
No palco principal, um dos maiores nomes da música portuguesa, Samuel Úria, deu-nos logo a provar uma melodia milenar com a sua 2000 A.D. Sob o sol abrasador minhoto, a sua atuação contou com momentos emotivos e bastante diálogo com o público.
Samuel Úria | Fotografia: Inês Aleixo (@0xiela)
Do outro lado do recinto, os portugueses Unsafe Space Garden deram uma lição sobre presença em palco, acompanhada por introspecções apocalípticas e distópicas, as contradições de um mundo traduzidas numa amálgama teatral complexa de diversos estilos musicais. Seja num palco pequeno ou grande, para qualquer plateia, a mesma postura, intensidade e carisma – um exemplo a seguir.
Nilüfer Yanya, diretamente da Londres dos 00’s, um reviver de uma era tão presente na cultura digital de hoje. Seja como for, o conteúdo ficou a par da estética, e deixou impressões positivas pela sua qualidade, numa poção de jazz, soul e rock, com uma pitada de psicadélia.
Nilüfer Yanya | Fotografia: Inês Aleixo (@0xiela)
O californiano Cass McCombs atuou de seguida. Desapontante ver o artista num contexto massificado de festival, quando a memória do seu concerto poucas horas antes prevalece. McCombs brilhou com as suas rendições na Music Session da tarde, num passadiço a perfurar a floresta, uma sonoridade etérea e delicada, um blues a vir ao de cima.
MJ Linderman & The Wind, seus compatriotas, proporcionaram uma experiência bastante característica. O norte-americano regressou um ano depois em nome próprio, após ter marcado presença em 2024 com Wednesday. Naquilo a que se pode chamar de loser rock, o cantor e compositor expressa uma brutal honestidade nas suas letras e melodias melancólicas, nostálgicas, mas genuínas.
O “aussie” Don West trouxe o soul do outro lado do mundo, ao palco secundário do festival. Um falsete suave e uma postura assumidamente sensual e desinibida deixaram o público hipnotizado pelas suas palavras cantadas. Uma escolha acertada na programação para aquecer os festivaleiros para o que se aproximava.
Depois de uma atuação intemporal dos franceses L’Imperatrice em 2024, a fasquia para artistas francófonos alcançou um nível elevadíssimo. E coube a Zaho de Sagazan alcançar esse patamar. Numa atuação expressiva e visceral, a artista auxiliou-se de batidas eletrónicas para transmitir uma mensagem elementar: o corpo foi feito para se mexer. E insistiu neste mote, suscitando a plateia a acompanhá-la numa viagem exploratória do movimento e da dança, a união entre o corpo e a música.
Uma outra voz feminina seguiu-se com a rapper portuense Capicua, à qual se juntaram inúmeras outras espectadoras. Abordando temas fulcrais acerca do papel da mulher na sociedade, a artista teve uma forte presença em palco durante a apresentação do seu mais recente lançamento, Um Gelado Antes Do Fim Do Mundo.
Os cabeças de cartaz do primeiro dia, Vampire Weekend, levaram a cabo a sua grande peça de teatro. Uma abertura com os três membros da banda, depois apenas o vocalista, num clímax inesperado – o grande pano à sua retaguarda cai para revelar todo um grupo musical que os auxiliaram a partilhar Only God Was Above Us, o seu disco de 2024. Multidão a abarrotar no grande anfiteatro natural do palco Vodafone, e os nova-iorquinos provaram estar à altura das exigências, sem dúvida. Contudo, a surpresa da noite estava por vir.
JVB, por extenso Joey Valence & Brae, surpreenderam pela sua energia crua e contagiante, um gigante mosh pit dos valentes que resistiram até às 2h da madrugada para presenciar uma lição dos fundamentos do hip-hop. As influências dos anos 90 à mistura com uma infância da geração Z, com referências à cultura dubstep dos 2010s e uma pós-ironia atual, fundiram-se numa sonoridade violenta e berrante. A multidão contagiou-se pelos seus hinos THE BADDEST e OK, naquele que foi um dos momentos mais inesperados do primeiro dia do festival.
Texto:
– Diogo Macedo Malcata
Fotografia:
– Inês Aleixo @ 0xiela (Instagram)