Cultura

Paredes de Coura 2025 – Quarto Dia

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O melhor da música contemporânea carioca de Ana Frango Elétrico, um safari pela lua guiado pelos gauleses Air, a explosão do dance-punk dos escoceses Franz Ferdinand: o último dia do Vodafone Paredes de Coura não deixou nada por pedir, nem músicas por dançar.

Na derradeira tarde nas margens do rio Taboão, os portugueses Cassete Pirata abriram o dia 16 de Agosto no palco BacanaPlay. O quinteto liderado por João Firmino — mais conhecido como Pir — conta, também com Margarida Campelo e Joana Espadinha nas vozes e teclas, António Quintino no baixo elétrico e João Pinheiro na bateria. Os sons de Alvalade não nos causam estranheza, inserindo-se na elevação da cena do indie rock lisboeta de meio da década de 2010. À semelhança de todos os atos nacionais que passaram pelos palcos do festival, o grupo mostrou-se igualmente grato pela oportunidade de atuar num lugar onde frequentou muitas vezes o lado oposto do fosso. Ferro e Brasa e A Próxima Viagem foram algumas das faixas que constaram no seu repertório, diretamente do seu lançamento de 2019, A Montra.

Poucos passos foram necessários para se chegar ao outro lado do Atlântico, com Ana Frango Elétrico a subir ao palco principal pelas 17h10. A artista brasileira, que explodiu em popularidade no panorama internacional após a crítica de Anthony Fantano do seu álbum Little Electric Chicken Heart de 2019, cimentou a sua reputação com Me Chama De Gato Que Eu Sou Sua, publicado em 2023. A carioca tem vindo a reunir influências mais clássicas do jazz brasileiro com uma interpretação moderna, quer das composições musicais, quer dos próprios temas líricos. A sua doce voz tanto cantou em português como inglês, talvez aparente pela versatilidade dos seus êxitos Chocolate e Electric Fish. A plateia ficou claramente hipnotizada pelas suas cantigas, espalhando-se progressivamente pelo anfiteatro relvado ao som desta banda sonora funky.

Da terra do grunge vieram as norte-americanas Chastity Belt, com uma boa dose de melancolia, ironia e um post-punk, a puxar para o dream pop, que enaltece a beleza na fragilidade da vida adulta. Canções como Seattle Party aprofundam a vertente sarcástica, mas profundamente crítica do quotidiano do grupo; já em Different Now vemos um lado mais sentimental e retrospetivo das artistas, seja nas melodias, na honestidade da performance vocal, ou na própria letra. Uma atuação adequada ao contexto da tarde no festival, e em diálogo com as direções tomadas pelos seus compatriotas, que logo tomariam as rédeas no palco Vodafone.

Nascida em Brooklyn, mas sediada na “cidade dos anjos”, DIIV foi o quarto ato do dia, com uma atuação ao nível das expectativas, sem margem de dúvida. Os californianos já haviam passado pelos palcos portugueses em 2022, no regresso da música ao Primavera Sound do Porto, mas desta vez com uma prestação mais completa. Cada música era acompanhada de projeções satíricas, críticas ao governo e sociedade americanos, fosse na sua dimensão doméstica, como externa. Naturalmente, a plateia foi-se densificando, especialmente na frente, sendo o grupo um favorito entre as camadas mais jovens. As influências do shoegaze anglo-saxónico e do no wave dos Sonic Youth não são de estranhar, tendo a banda explodido em 2012 com Doused e continuado a manter a sua posição cimeira por estas terras da música alternativa, produzindo mais sucessos com os álbuns Is The Is Are e Deceiver

As madrilenhas Hinds, formadas em 2011 por Carlotta Cosials e Ana Perrote, tornaram-se um quarteto em 2014 após o grande sucesso do seu single Demo, juntando Ade Martín no baixo elétrico e Amber Grimbergen na percussão. O grupo veio apresentar o seu mais recente disco VIVA HINDS, publicado em 2024, que contou com a participação de Beck e do vocalista dos irlandeses Fontaines D.C., Grian Chatten. A sua atuação, baseada numa forte vertente do garage rock e lo fi, rapidamente captou o espírito de festa dos festivaleiros, naquele que prometia ser o dia mais lotado até então.

Sharon Van Etten regressou a Portugal, desta vez acompanhada pelos companheiros The Attachment Theory, com os quais lançou o álbum em nome próprio em Fevereiro de 2025. A noite já se tinha instalado pelo recinto, e a leve escuridão até permitiu que a imagem mais sombria da vocalista perfurasse pela atuação. Os temas abordados, a dicotomia entre a vida e o viver, a inconstância e incerteza da procura por uma identidade e a inserção num determinado ambiente emocional, assim como a libertação alcançada por seguir este caminho, encaixaram perfeitamente com o panorama do festival. A artista norte-americana admitiu ter feito a preparação e os ensaios da sua turné no meio do deserto, seguindo uma filosofia de libertação artística, sem guías nem direções predefinidas. O que resultou foram jams que originaram faixas como I Can’t Imagine e Southern Life, para o profundo agrado da artista. 

De volta ao palco secundário, foi a vez dos londrinos Warmduscher, um sexteto funky que nos trouxe mais um ambiente de danceteria. Apesar de um vasto leque sonoro, desde o gqom, hip-hop, funk-punk, jazz e disco, há uma matéria maleável que une todas as disciplinas: um post-punk indubitavelmente britânico. Em alguns momentos, cheiramos resquícios de Viagra Boys em Fashion Week e Midnight Dipper, mas na sua generalidade, é uma banda quase como nenhuma.

O segundo nome mais aguardado da noite proporcionou um crescendo de excitação pelo público. Os franceses Air, que abriram o concerto com algumas dificuldades técnicas — algo que provou a maturidade e experiência do grupo, que nunca interrompeu a atuação e deu seguimento de forma bastante natural — maravilharam-nos com uma reprodução, do início ao fim, do seu histórico disco Moon Safari, de 1998. Apesar da qualidade constante nos quase 44 minutos de disco, o trio de abertura de La feme d’argent, Sexy Boy e All I Need foi claramente o momento dourado do percurso do álbum. A atmosfera criada, não só pela música, como pelas luzes e projeções, tornou este instante do festival num momento magnificamente mágico e inesquecível, do melhor que as margens do Taboão tiveram para oferecer nas edições mais recentes.

Na intermissão entre os dois cabeças de cartaz, os belgas Lander & Adriaan trouxeram um pouco da loucura da cena eletrónica do Benelux, uma alternativa aos sons do palco principal. Uma miscelânea de house, techno e ambient, com raízes em Ghent, consolidou o Palco BacanaPlay como o mais mexido do dia, com mais uma onda de batidas rítmicas e uma disposição pouco usual sobre o palco. O seu álbum em nome próprio lançou a dupla no mundo da música, sublinhando Dansshow como um dos maiores sucessos desse projeto.

E por fim, depois de 4 dias completos de música — e certamente muita emoção — os maiores cabeças de cartaz, diretamente de Glasgow: Franz Ferdinand. Uma longa setlist, com hits atrás de hits, contando com diversas faixas do seu mais recente disco The Human Fear, de 2025, e You Could Have It So Much Better, de 2005 — celebrando os 20 anos do seu lançamento. Porém, o domínio foi do álbum em nome próprio, uma peça incontornável da cultura britânica dos 00’s, e um marco do dance-punk, já com 21 anos. Apesar da saída de dois membros fundadores do grupo, Nick McCarthy em 2016 e Paul Thompson em 2021, a banda continua em pico de forma, com o vocalista Alex Kapranos a realizar acrobacias em palco, sintetizando toda a energia dos artistas. E quando chegou a vez da eterna Take Me Out, o momento mais arrepiante do festival, ao ver acima de 30 mil pessoas a saltar e cantar a melodia da guitarra no refrão. Esta imaculada atuação terminou, como seria de esperar, em grande, com uma versão de This Fire que se estendeu até aos limites da energia que ainda restava dos festivaleiros.

Era, então, altura da visualização do vídeo habitual de resumo dos quatro dias em Paredes de Coura, realizado pela organização do festival. Alguns murmúrios acerca de uma possível confirmação de LCD Soundsystem, devido à escolha da All My Friends para a banda sonora, contudo acabou por não se provar verdade, infelizmente. Uma grande explosão de confetes marcou oficialmente o encerramento do Palco Vodafone, passando as hostilidades ao palco secundário.

Os irlandeses Gurriers, vindos da mesma cena de post-punk de Dublin, à semelhança dos compatriotas Fontaines D.C., que marcaram presença como cabeças de cartaz da edição de 2024 do festival, proporcionaram-nos um dos concertos mais subvalorizados dos quatro dias. Foi pena renegarem-nos para tão tarde, sobrando apenas os corajosos que ainda tinham energia para abanar a cabeça nesta excelente atuação. Do noise rock, ao shoegaze, um equilíbrio requintado entre peso e leveza, dureza e suavidade, nuances e pura agressão, nunca abdicando, claro, de produzirem músicas extremamente contagiantes. Top Of The Bill, Des Goblin e Approachable, que constaram no seu lançamento de 2024, Come And See, provaram ser dos favoritos da multidão, que partilhava da mesma mentalidade de loucura da banda.

Texto:
Diogo Macedo Malcata

Fotografia:
Inês Aleixo @ 0xiela (Instagram)

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