Cultura

Paredes de Coura 2025 – Segundo Dia

Published

on

Maruja em falta, Lola Young apaixonada pelo público luso e a loucura de Fat Dog: dia 14 de agosto o festival Vodafone Paredes de Coura aqueceu para a segunda noite de música.

No palco BacanaPlay, os bracarenses Bed Legs abriram as hostilidades a meio da tarde, demonstrando, desde logo, a gratidão por poderem atuar num palco em que tantas vezes marcaram presença do outro lado do fosso. Uma energia motard, do hard rock de inspiração americana animou os festivaleiros que progressivamente iam chegando ao recinto.

Do outro lado, os veteranos Linda Martini, que atuaram pela sexta vez no festival, provaram porque são um dos nomes essenciais do rock alternativo português. Um concerto bastante cheio para a hora em que decorreu, em que as letras ecoaram pela multidão de adeptos do post-hardcore, talvez uma fusão entre Sonic Youth e At The Drive-In, com uma certa melancolia familiar aos portugueses. Os temas do seu último álbum Passa-Montanhas estiveram em destaque, assim como não podiam faltar as icónicas Boca de Sal e Cem Metros Sereia, que causaram delírio sobre a plateia.

A terceira banda portuguesa consecutiva trouxe de volta as raízes ao Minho, mais concretamente a Barcelos. O quarteto Glockenwise proporcionou uma abordagem diferente, mas igualmente energética. A banda presenteou-nos com uma seleção de qualidade do seu repertório, fosse do Plástico ou do Gótico Português, sobrelevando-se uma energia extremamente emotiva vinda da multidão. Nuno Rodrigues, vocalista, terminou a atuação partilhando uma reflexão provocatória acerca dos horários: talvez um dia artistas portugueses possam tocar de noite neste festival. 

Mesma língua, um sotaque doce. Os paulistas Terno Rei deram início ao seu concerto quando o pôr-do-sol já se começava a avistar, uma banda sonora adequada à paisagem, com melodias delicadas de dream pop, com fundações post-punk. Um acalmar de ritmo, um momento mais introspectivo, justamente necessário.

Pelas 19h40, era a vez dos angelinos La Lom darem asas às suas influências latino-americanas do jazz e folclore mexicano e peruano, assim como as baladas das décadas de 50 e 60 do sul da Califórnia. A sua estética traduz precisamente o que compõe, mais parecendo retirados das ruas de um blockbuster sobre gangsters americanos, o que não retira nada às suas qualidades enquanto músicos, antes pelo contrário. La Lom provou ser sem dúvida um dos melhores concertos do festival, pela sua dominação sobre a simplicidade expressiva, alcançável apenas quando se consegue dialogar naturalmente através de um instrumento musical.

Diretamente da terra natal do grunge, o greco-americano Perfume Genius trouxe as suas baladas de art e chamber pop, quando a noite se começava a esfriar. Numa atuação pouco ortodoxa, o cantor tornou o palco no seu espaço de abstracionismo corporal, fazendo a música exprimir-se através dos seus movimentos erráticos e emotivos. O seu mais recente lançamento, Glory, esteve em grande destaque ao longo do concerto.

Pode-se resumir a prestação do grupo Fat Dog numa palavra: loucura. Os londrinos chegaram às margens do rio Taboão com um objetivo claro, e, certamente, não falharam em cumpri-lo. Após um concerto repleto de mosh pits espontâneos pela plateia, demasiados crowdsurfers para o que o staff do festival conseguia lidar e festivaleiros completamente em transe, a banda toca Running, Pray To That e Peace Song como as cerejas no topo do bolo da perfeita insanidade. 

Numa outra surpresa, Lola Young, provavelmente a artista mais aguardada da noite, ficou sem palavras com a receção calorosa dos portugueses e apaixonou-se. O seu notório crescimento ao estatuto de estrela não se deixa ficar pela grande presença em plataformas de streaming de música e na rádio. Juntamente com a sua banda de apoio, Lola Young proporcionou ao público uma atuação digna da sua fama, terminando, claro, com o seu estrondoso hit Messy.

Soft Play, antigos Slaves, trouxeram consigo uma energia inigualável e violenta. É possível que Royal Tunbridge Wells seja o covil da pura agressividade, porque o duo não se deixou por menos. Num momento inesperado e caricato, pediram para todas as mulheres na plateia se juntarem e fazerem um mosh pit exclusivamente feminino. O vocalista observou que nunca tinham conseguido realizar um com tanta participação como este, tendo servido a pequena cantiga de 10 segundos Girl Fight como banda sonora para o caos.

Portugal. The Man, cabeças de cartaz deste dia, fecharam o palco principal em primeiro lugar por agradecer aos portugueses pelo nome. A banda de origens humildes na cidade de Wasilla, no Alasca, trouxe consigo elementos alternativos e da psicadélia característica da cena indie americana dos 2000s e 2010s nos EUA, como no hino Got It All (This Can’t Be Living Now). A longevidade e transformação da banda traduziu-se no hit astronómico Feel It Still, que não poderia faltar na setlist do concerto. 

Outro dos atos mais esperados da noite, Maruja, infelizmente não pode marcar presença por motivos não divulgados. Em seu lugar, os bracarenses Travo, que já haviam tocado no Sobe À Vila poucos dias antes, tomaram o palco secundário. Entre as suas maiores influências fazem-se claramente notar o trio francês SLIFT ou os australianos Psychedelic Porn Crumpets, numa mistela de que mais parece a produção de duendes psicadélicos com visões astronómicas de paredes de amplificadores ensurdecedores, no melhor sentido possível. De sublinhar no seu lançamento Astromorph God, a faixa Faceless Ghoul que ganha uma nova dimensão ao vivo pelo seu groove, pouco usual neste género, e guitarras gritantes em uníssono que penetram pela multidão.

Texto:
Diogo Macedo Malcata

Fotografia:
Inês Aleixo @ 0xiela (Instagram)

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Exit mobile version