Crónica
Reflexões ao Fiel Leitor – I
Não fosse a minha pessoa um ilustre engenheiro industrial, talvez tivesse a pretensão de dissertar sobre outras temáticas mais rebuscadas… os belos temas, grandes realidades e célebres personalidades. Desprovido de todos esses sonhos e capacidades, decido, portanto, escrever sobre o que, inadvertidamente, flui nos confins das minhas células pensantes. Este assunto surge instantaneamente após a leitura do livro “Trilogia” de Jon Fosse. Dispensando o autor apresentações, considero fascinante a forma como um livro consegue, durante três novelas, colocar-nos tão perto das personagens, ao ponto de sentirmos uma envolvência total nas suas decisões, ansiedades, felicidades… Foi uma experiência reveladora que aconselho a todos, e que me incentivou a tentar abordar alguns temas que me são caros da forma mais crua que me ocorresse. E por crua refiro-me, naturalmente, à confusão que paira na minha cabeça sobre as minhas reflexões, cheias de pontos de vista tão complementares como contrastantes. Falo, sim, das caras que o espelho não vê, e dos poemas que o olho não escreve.
Julguei durante anos que a poesia se deveria escrever nos esconderijos que a luz da porta vai deixando, longe da irresolúvel mundanidade que os fios de cobre e os indicadores de desempenho vão marcando nas caras despidas de grandes feitos. Senti, por vezes, esta tão velha necessidade de dispersar as preocupações por pessoas errantes da mesma carne, sujeitas às mesmas regras do pão e vinho, da higiene pessoal, e do transporte “à la pata”, mas responsáveis supremas pela palavra impulsiva que o relógio fosse ditando. Fui deixando que o verso se tornasse gradualmente num privilégio autorreflexivo, resultante de uma ou outra solução aquosa dos meus olhos, num momento em que uma das muitas pessoas dispersas dentro de mim decidisse sentar-se à mesa dos adultos e discutir aquelas coisas que os adultos vão falando, com números e coisas e gentes e lentes.
Permita-me o Fiel Leitor dizer que estava profundamente enganado. Estava não, estou… Porque isto das pessoas diversas, das poesias e confusões fatais a um estado de espírito… é, talvez, um dos mais lógicos paradoxos que nos definem. Aquelas caras que nos seguem quando olhamos um produto no supermercado ou vemos aquela pessoa que não nos inspira grande euforia, ou o ligeiro sorriso quando vemos uma fenda no pavimento de betão do parque citadino (que há décadas substituiu o pavimento lusitano onde provavelmente os meus avós privaram); todos esses longos vultos familiares são soberanos e constroem-se em conjunto.
Apresento, com esta base multipersonalística, a primeira reflexão desta série aleatória, referindo algo que me provocou algum conforto desconfortante no início desta semana. Encontrava-me calmamente a admirar a paisagem pelas dimensões fechadas da janela central da sala de jantar alto-minhota, com vista para a irmã Espanha, quando refleti sobre as formas cubistas que me rodeavam e os seus materiais. Refleti sobre a madeira. “A madeira?” – perguntará o Fiel Leitor. Pois sim, a madeira de castanho português que caracteriza a janela pela qual durante anos olhei, vivi e admirei as paisagens transfronteiriças. Pensei na árvore, quem sabe onde casais anciãos terão passeado, escrito as suas iniciais, abraçado, a mirar as serras enquanto trincavam uma das inúmeras castanhas que nos seus braços caíam… E como ela devia ser bela, ela pujante no meio dos montes húmidos e densos cobertos de flora melgacense, onde grupos de animais escolhiam deambular há mais de oitenta anos.
Penso também no obreiro da janela. Penso na mulher, sentada ela também à janela, a cozinhar o almoço, a cuidar dos seus três filhos, a tratar de um lar que no papel não é seu, para que o marido possa, na garagem, desenhar com delicadeza aquele modelo e trabalhar a madeira com as suas mãos cheias de calos. Penso num casal que, sendo o tempo patriarcal, seria quiçá dos menos austeros. Penso também no meu avô, terna figura, a despender meio mês de salário naquela peça de museu, privando, quem sabe, os pés de um sapato mais novo, ou o pescoço de um colarinho mais hirto. Penso, repenso, olho e volto a olhar, e o que vejo são mundos, e o tempo volta a correr e perco-me de novo em predicados.
Por fim, decido documentar as minhas ânsias num poema, consciente da cara que aquele momento revelaria no lápis que guardava no bolso da camisa. Assim, procedo, como sempre, ao verso raro e, findos alguns minutos, o papel pinta-se de carvão. E, por momentos, volto a pensar nas caras. Onde teria aquela ido? Teria ficado no papel, presa, sujeita às vontades da capa A5 que tão sub-repticiamente se fechava com a brisa? É possível. Volto, desta forma, à cara dos números e coisas e gentes e lentes, e as caras escondem-se, começam a discutir o próximo distúrbio pacífico. E eu, Fiel Leitor, deixo-me levar pelo dia, até que uma força maior me impeça de navegar os ponteiros.
