Cultura
Sombra Dolorosa + Orphée e o Novo Programa do Batalha Centro de Cinema
No passado Sábado, dia 5 de Setembro, o Batalha Centro de Cinema abriu as portas a um novo programa de exibição de filmes, num catálogo muito variado e de nome Cinema do Além. Esta iniciativa reuniu cineastas de diferentes países e épocas, cujos filmes estão ligados pelo tema comum da vida após a morte, o além, a consciência e a matéria espiritual da transcendência. Dentro da grande sala poderão contar com filmes como Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, de Apichatpong Weerasethakul; Amadeus, de Miloš Forman; Kuroneko, de Kaneto Shindô; Ghost, de Jerry Zucker e muitos mais.
As primeiras exibições de todo o programa e que preencheram a noite foram Sombra Dolorosa, de Guy Maddin e Orphée, de Jean Cocteau. A primeira é uma curta-metragem acerca de uma viúva idosa que precisa de vencer a morte num ringue de luta livre mexicana para salvar o marido e a filha. No espaço de apenas 4 minutos, uma ação intensa e louca desenrola-se em cores saturadas e vozes estridentes, pintando uma cena surrealista e que roça o onírico. Numa bizarra luta contra o tempo, a viúva tem que ganhar à personificação da morte, que tem clara vantagem física, antes que se dê um eclipse solar. Maddin, ao mesmo tempo que explora a cultura e tradições mexicanas, torna evidente o confronto premeditadamente injusto entre a vida, a morte e o luto, e fá-lo através de sequências insólitas que deixam o espectador confuso, mas também ansioso para descodificar o enredo à sua frente. Com esta curta, as mentes estão aquecidas para o grande filme de Jean Cocteau, igualmente bizarro, mas com tempo suficiente para se justificar.
Orphée, o segundo filme de uma trilogia órfica do mesmo autor, reconta o mito grego de Orfeu e Eurídice no cenário de Paris contemporâneo. Nele, o poeta envolve-se perigosamente com a morte, aqui, com uma inesperada forma humana.
Orfeu é um poeta de sucesso que tem um encontro inesperado com uma mulher – a Princesa – durante o qual, um outro poeta e, tal como ele próprio, frequentador do Café des Poètes, morre em frente aos seus olhos. Fascinado e obcecado com as peripécias absurdas da noite anterior, o protagonista, acompanhado do motorista da misteriosa mulher, Heurtebise, regressa a casa e passa o tempo envolto de quaisquer pistas que o pudessem levar até ela novamente, nomeadamente, o estranho rádio de um carro, que emite poesia só para ele.
Ignorando completamente Eurídice e a sua gravidez, não se apercebe de que a Princesa levara a esposa para o submundo, pavimentando o seu caminho até ao poeta. Quando oferecida a possibilidade de resgatá-la da morte, Orfeu vacila nas suas motivações entre heroísmo épico movido pelo amor e entre a curiosidade digna de poeta acerca do místico fim da vida. A morte que separa Orfeu e Eurídice não é a mesma do mito original. Aqui, as motivações de Orfeu são reenquadradas num mundo moderno, onde o amor é, também, diferente e submisso ao frenesim da civilização urbana: as barulhentas inovações tecnológicas, como o rádio de um carro, eram já um obstáculo à relação do casal.
Cocteau apresenta estas e demais ideias com a sua obra, sugerindo uma nova interpretação do mito e soprando-lhe vida com o estilo de cinematografia cru, direto e veloz. Ainda assim, este filme tem uma essência poética que reflete a do próprio diretor. Influenciado pelos movimentos artísticos da época, nomeadamente, o surrealismo e o dadaísmo, Cocteau denuncia o seu interesse pelo imaginário, pelo sonho e pelo além, um dos mais antigos enigmas da humanidade. A forma como utiliza os cenários, as passadas e coreografia dos atores, a linguagem simbólica dos espelhos e das luvas mágicas contribuem para a criação de um universo místico onde não só caminham aqueles personagens, mas nós também no seu reflexo, pois toda a humanidade está vinculada a um mesmo destino.
Orphée é um filme cheio de simbolismo, que constrói uma inusitada ideia do além e no-la apresenta através de personagens realistas e cómicos na sua condição. Cheio de segredos, é uma obra que coloca mais questões do que as que está disposta a responder e insere-se naturalmente nos temas que o novo programa reúne na sua sala de cinema.
“Le miroir. -Je vous livre le secret des secrets. Les miroirs sont les portes par lesquelles la mort vient et va. Du reste, regardez-vous toute votre vie dans un miroir et vous verrez la mort travailler… comme les abeilles dans une ruche de verre.”
Assim, o Batalha Centro de Cinema dá as boas vindas a mais uma jornada riquíssima em atividades culturais para todos os gostos e idades, que contam com a exibição de filmes, exposições e oficinas, organizadamente agendadas e explicadas na sua página oficial.
