Cultura
Sonus Art Fest volta a inundar o Teatro Jordão com música emergente
Após o grande sucesso da edição passada, que contou com Folly Group e Opus Kink, a revista Sound voltou a apostar numa nova iteração do tão aguardado Sonus Art Fest. O festival, que se repartiu por dois dias, deu-se por aberto na passada noite de 9 de outubro.
Pelas 21h30, o understage do Teatro Jordão recebia a sua primeira convidada, Dana Margolin. A cantautora londrina, maioritariamente reconhecida pelo seu anterior projeto Porridge Radio, encontra-se neste momento exclusivamente numa fase de exploração da sua carreira a solo. Apesar de nos ter trazido um repertório bastante completo na sua atuação, a britânica apenas publicou uma música — Big Beautiful Sound — lançada a 16 de setembro deste ano. Fazendo-se acompanhar apenas por uma guitarra, a parelha que esta fez com a sua voz foi suficiente para nos transmitir perfeitamente a emoção pura e crua que a sua música expelia.
Dana Margolin @ Sonus Art Fest | Fotografia: Inês Aleixo (@0xiela)
Logo de seguida, os seus conterrâneos Hank deram início ao concerto, grupo formado por Claryn Chong no baixo elétrico, Lauren Stephen e George Coggan nas guitarras e vozes, estando a percussão assegurada por Ashley Cooper. E, por uma grande infelicidade, foi mesmo o pedal do bombo que assombrou o set ao baterista, com a equipa técnica a intervir inúmeras vezes, sem conseguir compor a peça. Percalços à parte, conhecemos pela primeira vez este conjunto nos palcos portugueses, que trouxeram do Reino Unido o artful noise e, até me atreveria a dizer, uma grande influência de Bar Italia. Angel Says, RanThruBlue e DYLM fizeram parte da setlist, que seria de esperar, assim como Tell The Leaves Not To Turn, o single do seu novo álbum Hero Weak Thing, a estrear dia 27 de novembro.
Diretamente da costa sul da Grã-Bretanha vieram os cowboyy, um trio cheio de surpresas a cada riff. E é bem possível que a imprevisibilidade seja a sua maior força, já que por entre o caos controlado do math rock foram surgindo indícios da maniera do líder do grupo, Stan Powell. Pequenos detalhes iam embelezando ou destruindo qualquer indício de um caminho óbvio na composição melódica das faixas, confiando sempre na imaculada técnica e métrica da secção rítmica, com Kai Smith no baixo elétrico e Dan Haysom na bateria. Seja pela estrutura pop, como pelas guitarradas psicadélicas e desinibidas, o grupo pretende acima de tudo exaltar a humanidade — o erro — como esteticamente superior à perfeição, que a técnica nunca se poderá sobrepor à personalidade que cada membro investe na sua produção artística. Naturalmente, tudo isto foi capturado no seu mais recente lançamento, revocder, que encapsula vários anos de experimentação e quilómetros de estrada em turnés, numa mixórdia estranhamente sedutora.
cowboyy @ Sonus Art Fest | Fotografia: Inês Aleixo (@0xiela)
Por fim, os franceses marta renegaram a formalidade do palco principal e assumiram uma posição digna do clubbing: bem no meio da plateia. E isto foi literal, tendo a organização transportado um palco móvel para o centro da sala, onde a dupla constituída pelo violinista Joachim Baumerder e pelo baterista Simon Lacouture nos proporcionou com o mais puro trance minimalista. Longe da habitual necessidade das tecnologias na eletrónica, os músicos de jazz exploraram o acústico como instrumento de interpretação de uma outra realidade, despida de adorno, somente hipnótica. O grande sucesso do seu álbum PUSH é prova disso mesmo, com o grupo em trajetória crescente desde a primeiro single, GROUND, lançado em 2023.
Texto:
– Diogo Macedo Malcata
Fotografia:
– Inês Aleixo @ 0xiela (Instagram)
