Cultura
Tributo a Zeca Afonso enche o Coliseu – “O nosso Zeca enganou-se”
O Coliseu do Porto esteve lotado no passado dia 29 de Junho para o concerto «Zeca Afonso: Maior que o pensamento». As 3 horas de espetáculo contaram com artistas que partilharam o palco na última atuação de José Afonso, a 25 de maio de 1983, naquela mesma sala, e uma seleção de outros músicos de renome. A homenagem ao legado da voz de Abril conquistou também as vozes da audiência, no ano do cinquentenário da Revolução.
COLISEU PORTO AGEAS – José Afonso: Maior que o pensamento. 29 de junho. [Porto: Coliseu Porto Ageas]. Panfleto. Pág. 8-9.
O espetáculo teve início da mesma forma com que Zeca Afonso entrou na música: com a canção coimbrã. Octávio Sérgio (guitarra portuguesa), Rui Pato (guitarra), e Nuno Oliveira (voz) subiram ao palco com a capa traçada do traje de Coimbra, e apresentaram os temas “Saudades de Coimbra (do Choupal até à Lapa)”, “Balada do Outono” e “Balada do Mondego”, o que tornou logo evidente o plano para a primeira parte da noite. Evocava-se o concerto de 1983, que começou exatamente dessa maneira. Partilharam recordações do tempo com o público, numa ação de agradecimento ao amigo, e à emoção da plateia. Quatro décadas depois, persistiu o entusiasmo. Atuou Janita Salomé, acompanhado ao piano por Alexandre Dinis, com letras e melodias de Zeca, mas uma interpretação própria. As 400 bruxas deste “Ronda dos Mafarricas” não eram bruxas boas. As gargalhadas diabólicas de Janita muito bem passaram essa mensagem.
Júlio Pereira, na companhia de Miguel Veras (viola), Pedro Dias (guitarra portuguesa), Sandra Martins (violoncelo), e do seu inerente cavaquinho, foram o ato seguinte. Tocaram o instrumental de 3 canções, e o Coliseu, apenas com o som de 4 instrumentos, ficou preenchido. Fortes aplausos acolheram os músicos da Banda Filarmónica Fraternidade Operária Grandolense, grupo da vila do Baixo Alentejo que inspirara a canção que a História conhece como hino da Revolução dos Cravos. Com o som das vozes de João Afonso e Francisco Fanhais, ouviram-se 7 das faixas do álbum Cantigas do Maio.
O cartaz da segunda parte da noite foi uma união de personalidades artísticas multímodas, como se já não fossem sabidos os plurivalentes gostos e feitios que se comovem por Zeca Afonso. Lena D’Água, que cantou “Coro dos Tribunais” para um público pela primeira vez, numa vez que não se esquece; B Fachada, com “Vampiros”, transformou a plateia num movimento contra aqueles que “comem tudo”; “Canção de embalar” num terno dueto, por Dino D’Santiago e Teresa Salgueiro; “Canto Moço” por Teresa Salgueiro, a solo, mas que tocou nas almas de outros tantos “filhos da madrugada”; Ricardo Ribeiro, cantor face a encantados, com performances aplaudidas de pé de “A morte saiu à rua” e “Senhora do Almortão”; e, como nome final, o familiar conforto de Jorge Palma em “Por detrás daquela janela” e “Traz um amigo também”. O acompanhamento foi feito pela mesma banda desde o começo até o fechar das cortinas. Bruno Oliveira (bateria, percussão), Nuxo Espinheira (baixo, voz), Patrícia Lestre (violino, ukelele, voz) e Pedro Vidal (guitarras, voz, e responsável pelos arranjos e direção musical), reforçaram tantos aplausos, pelo dom excecional e plena entrega aos instrumentos. A euforia pela performance de Patrícia Lestre foi notada, que dedilha um ukelele como poucos pegam numa guitarra elétrica.
O final é previsível. “Grândola, Vila Morena” teve os músicos todos em palco e o barulho de 3000 outras vozes. As pessoas replicaram os passos ouvidos no início do canto, em réplica (da réplica) que José Mário Branco reproduzira, ao trazer a ideia de imitar as passadas carregadas de exaustão dos camponeses da escolhida vila alentejana, abraçado a Francisco Fanhais e a Zeca Afonso, para a gravação original, em outubro de 1971. Coletivo manifesto de inquietação, do tempo, mas que o transcende. Mais contribuiu para que as palavras proferidas em nome da AJA (Associação José Afonso – à qual se deve, em parceria com a equipa Coliseu Porto Ageas, a direção artística e produção), numa pausa entre as atuações, ecoassem:
«Quando disse, na “Balada do Outono”, “Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar” … o nosso Zeca enganou-se.»
Talvez para que a memória se redimisse, do mítico último concerto de Zeca Afonso, a organização apresentou, nos panfletos distribuídos, artigos de jornais. Para o combate do esquecimento da performance no Norte, a RTP exibiu, numa reportagem do dia 30 deste mês, algumas imagens de 25 de maio de 1983, achadas nos arquivos, e gravou a totalidade do concerto de dia 29. O mesmo será emitido e disponibilizado ao público, com data e local de emissão ainda por anunciar.
Diário de Lisboa. [Em linha]. Lisboa: Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Ano 63, Quarta, 25 de Maio de 1983, n.º 21163. Página 24 [Consult. 29 jun. 2024] Disponível on-line: <http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06840.190.29647#!24 >
