Cultura

Yasmine e Morad – O 5º dia da Queima

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Kizomba e Drill, as formas de ouvir o mundo de uma miúda tímida e de um mec de la Rue que fizeram dos seus quotidianos declarações musicais de identidade. Identidade esta que brotou num quinto dia de Queima repleto de ritmo e diversidade, num quinto dia de Queima em que nem a escuridão da noite nem as luzes incessantes do palco conseguiram surpassar a mancha de gente que se uniu ,uma vez mais, pela música.

Yasmine, uma voz da lusofonia que chamou a cidade para dançar

No Palco Principal foi Yasmine quem primeiro se fez ouvir nesta noite de maio, inquietando, desde logo, as pobres almas que insistem que as suas capacidades motoras só lhes permitem o abanar casual da cabeça e um passo ou outro para o lado, inquietando com movimento as figuras outrora paradas, a dança espalha-se assim pela gente.

A gente, um pouco por todo lado. A gente que lá fora chega aos poucos e a quem o som que viaja pelo muro já se oferece como premissa para uma movimento de braços, quem sabe até de ancas, a gente que cá dentro nas imediações da zona das barracas e da restauração encontra na música uma premissa para um sorriso ou lá dispensa um bocadinho de saliva para cantar, quem sabe até fora de tom, a canção que assola o ar e que já tantas vezes ouviu no carro ou numa festa, a gente que em frente ao palco entoa as palavras que tanto sabe e dança o ritmo que tanto perdoa, pois afinal a dança é de todos, até dos que insistem em dizer não ter a coordenação necessária, mas que quem sabe, até acabarão por se juntar.

A verdade é que para além da Queima, as músicas de Yasmine também têm andado um pouco por toda o lado, sendo ela uma das artistas mais ouvidas da lusofonia.  Deu-se assim como iniciada não só a noite no Palco Principal, como também a tour “Libra” da cantora, na qual nos apresenta o seu primeiro álbum do mesmo nome e com o qual chamou a cidade para dançar o seu Kizomba.

Morad e a mancha de gente

Passado o primeiro concerto, o tempo deu-se ao encargo de fazer crescer a multidão em preparação daquele que era o nome mais esperado da noite, Morad. A verdade é que o repertório musical do rapper espanhol de ascendência marroquina se vê em todo um espelho de crítica social e institucional, identidade e líricas descritivas da realidade das ruas (tema este reiterado ao longo de dois dos seus álbuns M.D.L.R e M.D.L.R 2.0 e resultando na popularização do termo mec de la Rue em Espanha, termo este originalmente usado por artistas de drill franceses com ascendência magrebina).

Assim, toda esta pluralidade de questões sociais relevantes, sentido de identidade marcadamente reiterados e toda uma sonoridade envolvente inerente à música do artista catalão podem explicar o porquê de ter sido este um dos concertos mais esperados e com maior afluência da Queima, o porquê de ter sido este um dos concertos em que mais uma vez se verificou a música como fator de união e pertença.

Quanto à mancha de gente? Não há dúvidas de que o espanhol a tenha encantado; quer no que toca ao aspeto musical, como no que toca ao conteúdo de expressão de media visual e gráfica, não desiludindo ,de igual modo, no que concerne a interação com o público, passando tanto pelo futebol como pelas selfies. Afinal, como não deixar o português enamorado quando se pergunta pelo melhor jogador do mundo, como não deixar o português enamorado com uma selfie, que em outro país qualquer nada mais é que uma simples ação commumente realizada por artistas, mas que em Portugal podemos dizer ter sempre o seu charme, ter talvez um quê de estilo à Marcelo, ter talvez um aconchego nacional inconsciente.

Em bom dizer, em honesto dizer, provavelmente trata-se tudo isto de reflexões demasiado pensadas, a verdade é que nada mais se esperava de um artista com 12 milhões de ouvintes mensais, a mancha de gente era inevitável e a mancha de gente diverte-se demais para pensar tanto nas coisas também, mas há que pensar sobre as manchas de gente.

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