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A Fidai Film — A reconstrução da memória contra a negação histórica

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Nascido em Ramla, Kamal Aljafari desenvolveu grande parte das suas obras em volta da memória, tornando-se uma das figuras mais reconhecidas do cinema palestiniano contemporâneo. Durante a sua adolescência, o autor foi preso num centro juvenil durante a Primeira Intifada. Mais tarde, estudou em Jerusalém, antes de sair da Palestina para a Alemanha, onde frequentou a Academy of Media Arts Cologne. Ao longo da sua carreira Aljafari aprendeu a atribuir aos seus filmes, sem os despir da sua camada artística, uma vertente ensaística e política, que parece cada vez mais importante nos dias de hoje.

A retrospetiva que decorre é, como diz Rita Morais a propósito de um dos filmes exibidos: “urgente face a um presente marcado pela negação histórica e pela tentativa de apagamento do povo palestiniano”. E foi esse o principal motivo que me atraíu a ir assistir este filme, e um dos motivos pelos quais aconselho as próximas exibições.

À primeira vista, o filme pode parecer uma junção de materiais dispersos, e a realidade não está muito longe disso. A sua origem remonta a um episódio histórico específico. Em 1982, durante a invasão israelita do Líbano, o Centro de Pesquisa Palestiniano em Beirute foi saqueado. Por causa disto, a maior parte do arquivo foi destruído ou confiscado. Esta foi a inspiração e a base central na construção do filme: o apagar da memória que revoltou o realizador.

Aljafari, décadas depois, ao explorar os arquivos de cinema israelitas, encontra várias imagens filmadas na palestina, utilizadas como simples cenários, desprovidos de contexto, de qualquer ligação à historia palestiniana. A escolha do artista foi transformar o arquivo.

“I’ve always reworked the images to make them my own. I didn’t just take the archival footage as it is. I reworked these images, by doing so, I created a different ownership. Altering these images is both an artistic and political act. In a way, by changing them, you liberate them and they become your own images.”

Assim, imagens de arquivo, excertos de filmes de ficção e documentos históricos são ferramentas utilizadas num processo de reapropriação das imagens. Títulos são riscados, textos apagados, rostos manchados. O vermelho é a cor de escolha do relizador e ,com certeza, um dos aspetos que mais chama a atenção do público.

Um exemplo particularmente marcante surge numa cena retirada de um filme israelita. Um casal conversa numa praia: o homem diz que não consegue parar o que está a acontecer, enquanto a mulher responde que era terrível. Os rostos cobertos dão um aspeto sombrio a uma cena inicialmente quase romântica, e a conversa parece com isto ganhar uma dimensão metafórica simbólica.

O filme inclui também uma referência a Letter from Gaza, de Ghassan Kanafani. Aljafari relata acontecimentos, mais especificamente a perda da perna de Nadine, uma jovem vítima de um ataque militar em Gaza. Embora descreva acontecimentos de há quase setenta anos, a história parece ressoar diretamente no presente. A sensação que fica é a de que certos episódios da história continuam a repetir-se, que existe uma continuidade de sofrimento e opressão cujo fim ainda está longe.

Finalmente, é importante ressaltar um dos aspetos mais memoráveis sobre o filme: o seu título. O realizador utiliza “Fidayin”, palavra usada para se referir aos combatentes palestinianos que tinham como objetivo sabotar o projeto Zionista, enquanto tentavam não magoar pessoas. Este filme, como explícito no título, faz questão de sabotar o projeto, de uma forma marcante e simbólica, para além de essencialmente artística.

Aconselho vivamente a todos interessados em cinema, memória e história a aproveitarem a oportunidade de ir ver os próximos filmes em exibição, concretamente:

25 março 2026, 15:15- With Hasan In Gaza

26 março 2026, 19:15- UNDR+ Recollection

29 de março 2026, 17:15- Balconies + The Roof

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