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KHORROREEE: O JUP Junta-se aos Estudantes da FBAUP na Terceira edição do Hallowqueer do Porto Inclusive

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A decoração contará ainda com alguns trabalhos de estudantes a transformar o espaço numa espécie de casa assombrada da criação artística. Porque, convenhamos, há monstros que assustam e há monstros que só precisam de um palco | Imagem de Reprodução

Sexta-feira, 30 de outubro, a partir das 23h59, os portões da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) abrem-se para uma noite de morrer. Entre guitarras dissonantes, performances, instalações artísticas e DJ sets de outro mundo, a terceira edição do Hallowqueer promete transformar o salão dos monstros numa pista de dança para corpos, criaturas e outras existências que nem sempre encontram espaço para respirar fora das sombras. 

Organizada numa grande parceria entre o Porto Inclusive, a AEFBAUP (Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto ) e do Jornal Universitário do Porto (JUP), a festa convida a comunidade a celebrar o Halloween à sua maneira: com arte, música e muita monstruosidade queer.

Para começar as travessuras, contamos com um concerto de arrepiar dos TRASGO, às 00h30. A partir das 2h, preparem-se para DJ sets que prometem prolongar a noite até às primeiras horas da manhã. 

Ao longo do percurso, o público poderá participar do concurso de fantasias, de brincadeiras com rodadas e roleta de shots, e do correio fantasma. A programação traz ainda a performance de Marco e a instalação artística ‘eu presunto, você presente, 2024’, assinada por Sophia Cavalcante (que também atua sob o alter ego Susana Estrada), multiartista e ex-aluna da FBAUP.

A decoração contará ainda com trabalhos de estudantes da faculdade a transformar o espaço numa espécie de casa assombrada da criação artística. Porque, convenhamos, há monstros que assustam e há monstros que só precisam de um palco.

TRASGO: Duendes, Guitarras e Muito Barulho

Vindos do Porto, os TRASGO são uma banda de noise rock experimental que parece ter levado a figura do trasgo — criatura travessa do folclore transmontano — demasiado a sério. A sua proposta musical mistura dissonância extrema, experimentação sonora, performance artística e humor satírico. A própria banda descreve a sua sonoridade, sem grande preocupação em pedir licença aos dicionários, como Avant-Surf-Piça-Free-Metal-Concrète. É difícil imaginar uma melhor banda sonora para uma noite em que as convenções são convidadas a ficar à porta.

A 12 de dezembro de 2025, o grupo lançou o seu primeiro álbum homónimo, TRASGO, composto por oito faixas que, no total, ultrapassam uma hora de duração. A banda conta ainda com um split colaborativo com os Drenagem, editado em formato mini CD-R pela Enfermo Distro. Associados à cena musical independente portuense, com ligações a espaços como o histórico Centro Comercial STOP, os TRASGO têm passado por palcos e festivais nacionais, entre os quais o Maus Hábitos, o RCA Porto, o Basqueiral e o Banana Bong.

No KHORROREEE: Hallowqueer, a banda abre a programação musical. Esperem guitarras, ruído, experimentação e, quem sabe, alguma possessão sonora. Afinal, nem todos os espíritos precisam de uma sessão espírita para se manifestarem.

Profanações Pela Pista: Icaromac, Sucata e Dillitzer: 

A partir das 2h, a pista passa a ser território dos sets e das performances. Primeiro, Icaromac assume a cabine com uma seleção que atravessa o rock, o pop e o techno, numa proposta que cruza diferentes universos musicais. Residente nas festas do Porto Inclusive e editor no JUP, o set Mad House conta com a performance “A QUEDA”, protagonizada pelo artista Marco. Entre a música e o gesto performativo, a madrugada abre espaço para outras formas de ocupar o corpo, o som e o palco.

Às 3h, Sucata toma conta da pista com o Eletrofunkcuír, uma proposta que convoca sonoridades afro para uma experiência musical atravessada pela identidade queer. Pessoa gorda, preta e queer, Sucata traz para a cabine uma presença que não se limita a acompanhar o ritmo: reivindica também o direito de existir, criar e fazer vibrar os espaços culturais. Numa festa dedicada às monstruosidades, a pista torna-se lugar de encontro entre corpos, ritmos e experiências que recusam caber numa única definição.

Às 4h, é a vez de Dillitzer, artista brasileira residente no Porto, assumir a cabine com o set Possession &Chaosdedicado dedicado ao funk. Depois de uma madrugada de ruído, experimentação e diferentes expressões musicais, a proposta é continuar a dançar até ao encerramento da programação, previsto para às 4h50. Se o Halloween é uma noite para deixar sair aquilo que o cotidiano insiste em esconder, então que o corpo faça o resto: aumenta o volume e deixa a vergonha para outro dia.

Mercado dos Monstros: Antes da festa, Mãos à Obra!

Mas nem só de criaturas noturnas se faz o Hallowqueer. Antes de ocupar a pista, há também espaço para sujar as mãos, experimentar materiais e criar os próprios disfarces. O Mercado dos Monstros chega como uma extensão artística da festa, reunindo uma feirinha de artistas e oficinas que convidam a comunidade a participar ativamente na construção do imaginário do evento. Aqui, a fantasia não é apenas algo que se veste: é também algo que se inventa, partilha e constrói coletivamente.

Esta quarta-feira, 28 de outubro, entre as 15h e as 18h, os jardins da FBAUP recebem mais uma feirinha de artistas. Durante a tarde, estão previstas duas oficinas abertas à participação do público, mediante inscrição através do link na biografia da organização.

Às 16h, Martim Freestyle orienta uma oficina de máscaras spooky, pensada para o Halloween e para a Acampada do Porto. A proposta é ocupar as ruas com criatividade, humor e resistência, lembrando que as máscaras também podem ser instrumentos de expressão e intervenção. Afinal, os polícias não são os únicos a andar mascarados!!

Mais tarde, às 17h30, Beatriz Rebelo convida os participantes a aprender técnicas de maquiagem para completar os disfarces de Halloween. Entre pincéis, cores e outras transformações, a oficina propõe um momento de experimentação artística acessível a quem queira dar forma à criatura que tem dentro de si. Porque nem toda a transformação exige uma poção mágica: às vezes, basta um espelho, alguma imaginação e a coragem de sair à rua diferente de quando se entrou.

Jornal Universitário do Porto: Novas Formas de Ocupar a Cultura

A participação do Jornal Universitário do Porto nesta iniciativa acompanha uma vontade de alargar a presença do jornal para lá das páginas, dos ecrãs e das rotinas da redação. Se o jornalismo universitário tem como missão acompanhar a vida académica e dar visibilidade às questões que atravessam a comunidade, também pode criar oportunidades de encontro, experimentação e participação cultural.

A ideia é desenvolver novas atividades que aproximem tanto as pessoas ligadas ao JUP como o público em geral, promovendo experiências em que a comunicação não se esgote na produção e divulgação de conteúdos. Entre a música, a arte e a intervenção cultural, participar no Hallowqueer é também reconhecer que os espaços universitários podem ser lugares de criação coletiva, onde diferentes vozes encontram condições para se expressar. Desta vez, em vez de apenas contar a história, o JUP junta-se à festa. E, ao que tudo indica, não será uma noite para ficar quieto no canto.

Hallowqueer: Corpos que (R)existem

Há qualquer coisa de particularmente interessante no Halloween: durante uma noite, aquilo que habitualmente provoca estranheza, medo ou desconforto ganha autorização para sair à rua. Monstros, fantasmas, criaturas e figuras improváveis abandonam os esconderijos e tornam-se parte da paisagem. O que seria impensável num dia comum passa a ser motivo de celebração. Mas será que precisamos mesmo de uma data no calendário para permitir que o diferente exista?

Para muitas pessoas queer, a questão vai além da fantasia. Os corpos, as identidades e as expressões de género continuam a ser avaliados por padrões estéticos e sociais que determinam o que é considerado aceitável, desejável ou digno de reconhecimento. A monstruosidade, nesse contexto, pode ser também uma metáfora para aquilo que a norma tenta excluir: o corpo que não corresponde ao padrão, a expressão que escapa às expectativas, a identidade que se recusa a pedir autorização. Não se trata de romantizar a marginalização, mas de reconhecer a potência de transformar o estigma em linguagem, presença e criação.

O Hallowqueer propõe precisamente esse deslocamento. Entre fantasias, performances, música e instalações, a festa abre espaço para que os corpos sejam mais do que objetos de observação ou alvos de julgamento. São também agentes de criação, capazes de inventar outras formas de se apresentar ao mundo. E se, durante séculos, tantas existências foram tratadas como aberrações, talvez seja tempo de perguntar quem inventou os monstros e a quem interessa continuar a apontar-lhes o dedo.

No fundo, a monstruosidade queer não está necessariamente em parecer diferente, mas em desafiar a ideia de que existe uma única forma legítima de ser. E, se o Halloween nos dá uma noite para celebrar criaturas improváveis, que essa celebração não termine quando as luzes se acenderem. Porque existir, para muitos corpos, continua a ser um exercício quotidiano de resistência.

Porto Inclusive: Comunidade, Cultura e Mobilização

Criado em 2018 por Jorge Queirós e Bruno Pereira, o Porto Inclusive nasceu da vontade de dar continuidade ao trabalho comunitário desenvolvido em torno da população LGBTI+. Partindo de experiências de voluntariado e da organização de convívios queer, o projeto foi-se estruturando como uma plataforma de inclusão, partilha de informação e mobilização ativista. A sua atuação procura responder à necessidade de criar espaços onde as pessoas possam encontrar outras experiências, estabelecer relações e construir redes de apoio, sem que a identidade seja um obstáculo à participação.

A iniciativa promove encontros sociais, atividades culturais, oficinas artísticas, conversas e ações de intervenção, procurando aproximar a comunidade através de experiências partilhadas. Integra também a Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto, contribuindo para a articulação do movimento pelos direitos queer e para a defesa de lutas interseccionais na cidade. Num contexto em que a discriminação e o conservadorismo continuam a limitar a liberdade de muitas pessoas, iniciativas como esta recordam que a inclusão não se constrói apenas através de discursos: exige presença, compromisso e oportunidades concretas de encontro. O Hallowqueer insere-se nessa lógica, cruzando festa, expressão artística e criação de comunidade.

E agora, Quem Tem Medo Dos Monstros?

A terceira edição do Hallowqueer promete uma madrugada de música, experimentação e celebração queer. Antes disso, na quarta-feira, dia 28, o Mercado dos Monstros convida a comunidade a criar, aprender e preparar as fantasias que vão ocupar a noite.

Afinal, não é preciso ser santo para entrar, nem monstro para ficar. Basta vontade de dançar, respeitar as diferenças e celebrar a possibilidade de existir sem pedir licença. O convite está feito: apareçam, tragam as vossas criaturas, vistam as vossas fantasias e juntem-se à festa. Porque, se há noite em que o Porto pode ser assombrado pela liberdade, é esta.

 

Serviço:

KHORROREEEEE: HALLOWQUEER

Local: Jardim da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Data: 30 de outubro, às 23:59 hrs
Alunos FBAUP: Entrada Grátis
Externos: 2 euros
__________

Programação Completa:

00:10hrs – Instalação Sophia Cavalcante (abertura)
00:30hrs – Banda TRASGO
2:00hrs – Icaromac (set – Mad House) + Performance (A QUEDA – Marco)
3:05hrs – Sucata (set – Eletrofunkcuír)
4:00hrs – Dillitzer (set – Possession&Chaos)
4:50hrs – Fim



Texto da autoria de Ícaro Machado

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