Cultura
Êxito no Congresso de Educação da AEESEP deixa mensagem aos novos professores
A Escola Superior da Educação do Porto recebeu, ao longo de 2 dias, mais de 355 participantes no congresso ESEducar.
A II edição do ESEducar, evento realizado pela Associação de Estudantes da ESEP (Escola Superior de Educação do Porto), nos dias 17 e 18 de abril, renuiu público de diferentes idades e de diferentes experiências com educação e investigação em pedagogia.
Professores, aspirantes a educadores, pais e alunos, ouviram e conversaram. O congresso não só quebrou a barreira entre oradores informados e público ouvinte, como criou um espaço onde a norma foi pensar em conjunto. Foram dois dias enfáticos, que não teriam acontecido sem gente que desafia uma reflexão profunda do que é, afinal, trabalhar no Ensino.
Ser professor
No dia em que o ESEducar arrancou, a federação dos professores (FENPROF) convocou uma greve geral. A FENPROF aliou-se à CGTP e ao sindicato dos trabalhadores locais e de empresas públicas (STAL) para uma paralisação. O protesto à reforma do pacote laboral fora já anunciado no Público, a 15 de abril.
O debate nacional está agitado. A decisão polémica do Ministério de juntar os seis primeiros anos de escolaridade num único ciclo vai entrar já em vigor no ano letivo 2027/28. A fusão dos 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico (CEB) (Público; O Regiões) causou um listar dos prós e contras da mudança curricular (opinião no Escola portuguesa), rebatida por não ter consultado os sindicatos à decisão (Público). Debate-se, agora (outra vez), a influência da continuidade no acompanhamento dos alunos por um só professor, estando a decisão sobre a monodocência por um professor titular ainda indefinida.
Foi de forma que o ESEducar não ficou indiferente aos desafios da adaptação à nova reforma do currículo, nem à realidade que nos indica a adesão histórica de professores à greve geral de dezembro. Como resultado, falaram abertamente do desconfortável.
Oradora convidada no painel «Ensinar em continuidade: do 1.º CEB ao 2.º CEB»,Sara Pereira, professora do 1º CEB e autora de projetos com a LEYA e a Penguin livros que promovem o estudo autónomo, falou do hábito de culpar o ciclo anterior pelo que está mal, sistematicamente. Sobre isto já escreveu António Nóvoa, em ensaios:
«(…) o professor universitário diz que os alunos vêm muitíssimo mal preparados; por sua vez, o professor liceal não perde a oportunidade de afirmar que o seu trabalho é prejudicado pela deficiente preparação dada na escola primária; o professor primário esse, na impossibilidade de atribuir culpas a inferior grau de ensino, queixa-se da influência perniciosa das famílias ou do atraso mental das crianças.» (Nóvoa, A. (2005) Evidentemente : histórias da educação)
Mares calmos não fazem bons marinheiros. Logo, a II edição do ESEducar faz parte de uma geração que rema para que hajam melhores condições para os professores, e que vão mais bem preparados.

Cenas dos workshops «Comunicar em sala: o drama, o horror, a tragédia» (com Paulo Rebelo Gonçalves), de preparação da voz e coaching de comunicação (com a Dr.ª Daniela Crespo), e «Sou criança e então?» (com Nuno Pinto Martins) Fotografia: Joana Vale @vales.ph e Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto.


Mudar os quadros
Na verdade, os professores vivem tempos (in)tensos. Os profissionais em formação sentados no congresso serão “o rosto de referência das crianças do futuro”, que esperam trazer a” visão crítica e holística que o ensino precisa“. Declarações de reverência, como estas, disse-as Rodrigo Passos, vereador do Pelouro do Desporto, Juventude e Associativismo na Câmara Municipal do Porto, cidade Capital Nacional da Juventude 2026 (JPN). Essa “lógica construtiva, mas, também, disruptiva” está, diz o Vereador, em linha com o programa do Município, que quer trabalhar em rede e promover uma “malha transformada da sociedade”. Foram impulsionados à participação e ao trabalho em conjunto.
De modo que, da voz dos estudantes, Ângela Machado, presidente da AEESEP, deixou um profundo agradecimento ao companheirismo da equipa de organização (Beatriz Gonçalves, Mariana Moita e Marta Freitas). Elas, apesar de sentirem e saberem os dissabores da profissão que escolhem, relembraram o seu sentido, e trabalharam para dar nome à casa onde estudam.
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Rodrigo Passos, Beatriz Gonçalves, Ângela Machado, e Dr.ª Celda Morgado (Professora Coordenadora da ESEP) na sesão de abertura. Fotografia: Joana Vale @vales.ph
Nova consciência na pedagogia
Os dois dias não se refugiaram em problemas antigos, mantendo-se a teoria atualizada. Todo o programa do congresso foi um espetáculo de transdisciplinaridade real e atual. A interação entre áreas não satisfez só cada campo, como também integrou todos os resultados num só projeto – a escola.
«O mundo a cores e a sala a preto e branco»
Exemplos como a transformação digital em curso são um tópico cansado quando falamos de inovação curricular. Mas falá-los com diferentes fundos de formação, e a partir da noção que a tecnologia serve para a ampliação, e não a correção, das capacidades, é renovador. Os quatro oradores do 1º painel, «Inovação pedagógica», aplaudiram um mote – “O nosso objetivo não é ensinar, é motivar a aprender”.
Afinal, a frase que está aqui a servir de subtítulo, dita pelo Prof. António Guedes, exige que inovação nas escolas seja crítica e eticamente cuidada. Somos provocados a pensar como se deve abordar a a avaliação externa das escolas e a agenda estrutural do ensino. Adotar um catálogo que defina a boa da má escola valoriza a avaliação formativa, ou a métrica? A às cores, ou o preto e branco?
Perguntas como estas só terão efeito se houver um diálogo estreito entre a investigação que foi aqui discutida e a profissão que se pratica. É convencional que o ensino se foque no resultado. Sabendo isso, o que o ESEducar quis provocar foi a problematização da aprendizagem como um processo, em todas as suas fases. “Se não souberem ler o mundo e trazê-lo para dentro da sala de aula, fiquem com o vosso conhecimento“.
Há várias propostas para responder a estas questões. O fascínio pela educação não-formal (aquela que não faz parte do programa das disciplinas, mas serve de experiência) assume várias formas, e foi discutido no ESEducar.

Painel «Inovação Pedagógica». Prof. António Guedes (um professor doutorado em Teoria e História da Educação), ,Prof.ª Daniela Mascarenhas (doutora formada em Didática da Matemática), Prof.ª Luciana Bessa (professora doutorada em Didática das Línguas) e Dr. Filipe Portela (doutor em Tecnologias e Sistemas de Informação). Moderado pelo Dr. Paulo Gonçalves (adjunto da Vereadora da Educação, na CM de Gaia). Fotografia: Joana Vale @vales.ph

Fotografia: Joana Vale@vales.ph
Mente sã em corpo são
As práticas educativas do Colégio Escola Mãe ou da Escola da Ponte são uma lição de sucesso para muitos da área do Ensino. Estas metodologias ativas, que acionam a participação em atividades ao ar livre e a conversa com os tutores, rompem com a rigidez do ensino tradicional, e acrescentam-lhe as dimensões social e emocional.
Ao público geral, preocupa-lhes que estas práticas educativas alternativas afastem as crianças do sistema de Educação nacional. Que, assim, se sintam alienados quando saírem da sua bolha. “Uma escola que resgata a emoção tem dificuldades em seguir mapas”.
Só que os críticos se esquecem de perguntar o que pensam disto as crianças. Razão pela qual Cláudia Cardoso, que se dedica à educação emocional para crianças e à formação de pais, trouxe depoimentos do seu programa Geração emocionar para completar estas preocupações. Numa das sessões, perguntou aos alunos se há algum assunto que lhes incomoda, que gostavam que os professores soubessem. A isto, um aluno honesto respondeu: “Gostava que soubessem que não sou uma pessoa qualquer”.
Auscultadas crianças entre os 3 aos 16 anos, e alguns adultos, a frase mais repetida, sozinha, foi um workshop de auto reflexão. Temos de pensar porque é que o que mais dissemos é “não consigo”.
A preocupação inicial, da alienação destas pedagogias, desvanece quando se ouvem estas realidades. Quando a criança se sente ouvida, quando a criança se move fora e dentro da escola com confiança que tem quem a apoie na queda, cresce mais confiante de como pensa e por onde se move. Cresce crítico.


Fotografia: JoanaVale (@vales.ph). Parte da cobertura no painel «Oficinas em ação» da psicomotricista Dra. Marise. A participação de todos na atividade foi instantânea, sem precisarmos de palavras.

Painel «Mapas da Educação». Com Cláudia Emocionar, Professora Catarina Lefebvre (em representação da Escola da Ponte) e Dra. Mónica Grifo (em representação do Colégio Casa Mãe). Moderado por Hugo Monteiro. Fotografia: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto.
Crescer sem esquecer ou ser esquecido
Como falávamos no 1º painel, a normalização do erro ou da queda, do passo em falso, é transformador. A neurociência tem vindo a provar a plasticidade do cérebro. Quando uma falha é detetada, são abertas novas possibilidades de resultados hipotéticos de uma ação que desencadeiam reações cerebrais potentes, permitindo que o cérebro se ajuste a novas situações. Errar é das formas mais marcantes de aprender.
Estes exemplos contemporâneos de escolas democráticas, metodologias baseadas em projetos e aprendizagem baseada em problemas, não são propriamente novidades. Os métodos rígidos, memorização mecânica e passividade, característicos do ensino tradicional, recebem críticas desde o século passado. Os 30 pontos da Escola Nova de Adolphe Ferrière, escritos em 1915, partilham muito destas orientações. E embora se fale dos incentivos a uma escola mais “democrática”, que colocam o aluno no centro do processo de aprender, há mais de 100 anos, eles nunca foram plenamente incorporados.
De facto, a escola tradicional deixa de falar de emoções muito cedo. A corrida para acabar o programa relega o bem-estar dos alunos para segundo plano, e eventualmente para fora da sala de aula. Pensando assim, a partir do 6º ano acaba de vez o acompanhamento emocional do aluno e, por vezes, mais cedo. Esquecemo-nos das crianças aos 11 anos de idade?
São esforços como os “Emocionários” (dicionários de emoções) que Maria Silva, professora do 4º ano, guarda na sala, ou estantes que incentivam que sejam os alunos a ir buscar os livros, da Prof.ª Neuza Margarida Ferreira Pinto, que instalam em pequenas salas as mudanças que não conseguem vir de cima, do Ministério.
Educação inclusiva
O ESEducar perguntou também o que é inclusão.
O estudo Transforming the Schoolyards (Barcelona, 2023) mostrou como algo tão simples como os espaços do recreio são magnéticos a recriar conjunturas sociais de um mundo desigual cá fora. Quantas raparigas se sentaram nos muros, enquanto os rapazes ocupavam o espaço o campo? O estudo das urbanistas Honorata Grzesikowska e Ewelina Jaskulska é uma das ilustrações para que percebamos que este hábito inocente é, de facto, um comportamento estrutural. O centro dos espaços é só para alguns.

Fonte: Lima, Célia Fernando (2025), Lunetas
Sabendo perfeitamente, e sem esquecer o que sentiram também, o ESEducar trouxe várias destas preocupações em adaptar o espaço escolar para todos. Desde workshops sobre uma introdução ao Braille, à lingua gestual portuguesa, a outros que nos fizeram ver a alimentação como conexão, a conhecer a metodologia EKUI (multissensorial e inclusiva que une alfabeto gráfico e o fonético, o Braille, a linguagem gestual), a formas de criar um bebé para comunicar por gestos, antes de desbloquear a fala. É possível termos voz sem dependermos da fala.

Momentos do workshop «Introdução à Língua Gestual Portuguesa», com as intérpretes Íris Pinto e Mariana Moreira. Fotografia: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto

Workshop «Braille», com a Prof.ª Daniela Massa. Além de promover formações para as noções básicas de Braille e ter apresentado tecnologias assistivas para vários métodos de escrita, vendou os participantes na sala. O ESEducar esteve repleto de momentos interativos, saltando da teoria para a prática. Fotografia: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto


Painel «Parentalidade que transforma», com a Psicóloga Mónica Soares, Professora Luciana Joana, e Tânia Martins (arquiteta e criadora do Home stories). Debateu-se o quanto devem os pais estar envolvidos com a escola, os desafios de comprar livros aos filhos, e a (falsa) importância dos TPC’s. Fotografia: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto
Há quem pense e há quem aja – o ESEducar fez os dois.
O impacto real destes ideais de uma escola inclusiva e atenta às emoções é, ainda, duvidado. A Professora Ana Cristina Macedo, filha de uma 3ª geração nascida em África, vem de Angola para Portugal em 1975. O livro E nas florestas os bichos falaram …, escrito em 1972 por Maria Eugénia Neto, foi o 2º livro que leu na infância, por conta própria. Não podemos separar a Eugénia Neto, autora de livros infantis, da Eugénia Neto que, na luta armada pela libertação de Angola, divulgou poemas na rádio. A potência deste livro ilustrado, de 48 páginas, ao mesmo tempo que ajudaram uma criança a esquecer o presente, a ajudaram a compreender a sua mudança para Portugal, e a guerra colonial.
Fica, aqui, então, a lição de que nem tudo está nos livros, está também no que eles provocam. O ESEducar teve em todos os instantes consigo o ônus consciente de que a formação da criança é um momento que não se capta numa linha, mas sim pelo acompanhamento e preocupação com a totalidade do processo de aprenzidagem.

Fotografia: Joana Vale (@vales.ph). Momento do painel «Educação literária na infância», com a Prof.ªNeuza Pinto, Prof.ª Ana Macedo, as mães por detrás dos projetos Estante da Beatriz e Máe, Vamos Ler, e o escritor Nuno Higino.


Capturas das atuações das tunas (Cantuna, ESEPUS Tunae, Vintuna, Gristo Académico). Fotografia: Joana Vale @vales.ph e Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto

Os momentos culturais contribuiram para que se começasse já a praticar formas de aprender com as emoções em alto. O especial momento do Bando dos Gambozinos recebeu fortes aplausos. Formado em 1973, a escola dos Gambozinos é uma associação cultural de fins não lucrativos, fundada em parte por Manuel António Pina, escritor e jornalista, no Porto. Mostram que estes novos métodos de pedagogia não deixam nada de parte, não se esquecem de brincar ao mesmo tempo que criticam e fazem por um Ensino que profundamente se critica a si próprio, e evolui. Sobretudo que é este exercício de liberdade que luta para que todas as crianças tenham acesso ao sucesso.

Final da atuação do Bando das Gambozinos, que distribuir abraços pela plateia. Fotografia: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto
Notas finais
O congresso terminou quase às 21h00 do dia 18 de abril. Com o evento final, ninguém queria ir embora. O carisma magnético de Beatriz Gosta, convidada a falar no ESEducar como mãe, libertou a conversa e rompeu com as tímidas partilhas. Falaram de tudo – o que pensam sobre a licenciatura na ESE, e do que nos lembramos, todos, professores que nos marcaram. Sejam bons ou maus docentes, são figuras trasnformadoras. Dadas todas as mensagens por uma educação inclusiva e que se problematiza a si própria, uma professora na audiência disse, dirigindo-se a esta nova geração de professores: “entrem pelas escolas adentro”.
O JUP espera pela próxima edição do ESEducar. Por mais associativismo que disrompe e constrói. Ocupem espaço.


Fotografia da equipa da organização – Mariana Moita, Beatriz Gonçalves, Ângela Machado e Marta Freitas (respetivamente). Porque o vosso trabalho consegue mover montanhas. Fotografias: Cristóvão Peixoto @cristovaopeixoto