Devaneios

Fragmento Lusitano

Published

on

Não prometo que estas linhas que tracei caracterizem todos os corações portugueses, até porque seria impossível reduzir a tão pouco uma alma tão grande | IMAGEM: Pexels

É impossível negar que a cada nação e a cada povo pertencem marcas eminentes e que essas são, frequentemente, alvos de uma fragilidade à qual atribuo o nome de caricatura. Esta suscetibilidade é perpetuada não só pelas redes sociais, mas, também, por exemplo, pela criação de personagens estereotipadas de um país em séries de comédia.

Porém, creio que, como portugueses, não temos muitas razões de queixa.

Imaterialidade

A alma portuguesa é legitimamente descrita pela sua fragmentação em diversas matérias imateriais: fado, poesia, ironia patente, “bom dia”.

Gostamos que apreciem a musicalidade da guitarra portuguesa e da voz por detrás de “O Fado nasceu um dia/ Quando o vento mal bulia”. E quem diz fado diz, também, a desgarrada e a concertina. E não esqueçamos a letra. A letra das músicas e, igualmente, dos poemas. Sentimos orgulho dos versos pessoanos e desfrutamos da beleza das linhas de Sophia de Mello e de Florbela Espanca.

O reconhecimento da nossa ironia é, pelo que tenho visto, outro fator definidor do lusitano. É verdade. Somos irónicos e literais. A mesma pessoa que diz com um sorriso sincero “bom dia, o que vai ser?”, também afirma, com a maior naturalidade, “queria um café? Então já não quer”. Mas tal não anula a simpatia inicial, nem a que virá na hora de pagar a conta.

Mais além

O português gosta de falar; queixa-se dos aumentos de preço, comenta os mexericos mais recentes e afirma que “têm de tomar um cafézinho” para falarem ainda mais. Faz parte da sua identidade tácita. E as conversas nascem, muitas vezes, nas salas de espera ou nas filas de supermercado, com rostos nunca antes vistos. Começam com o emblemático e célebre “bom dia”, continuam no “o tempo anda muito esquisito” e terminam no “cumprimentos à família”, e seguem caminho.

É esplêndida, realmente, esta perícia em criar familiaridade em momentos tão simples.

Deleitam-me, sobretudo, os diálogos que surgem nos jogos de cartas; e não importa se se trata da “Sueca”, “Peixinho” ou, o meu favorito, “Gringo” pois dar-se-ão, eventualmente,  acusações de batota. Desconheço melhor situação em que surjam argumentos e contra-argumentos tão falaciosos. E não deixam de ser cenários propícios para quebrar o gelo, nomeadamente se em cima da mesa, para além do baralho, se observarem tacinhas com tremoços e copos de finos.

E a nossa cultura é tão repleta de provérbios e expressões que seria impossível seguir sem os mencionar. Aplicamo-los em todas as situações e usamo-los para expressar os imensos estados de espírito. Não é à toa que alguém pode estar “com cara de pau”. Estes possuem, também, no seu cerne, uma certa doutrina, que gera reflexão. “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer” e “Quem semeia ventos, colhe tempestades” são alguns ilustres exemplos.

Prato e copo

Gastronomicamente falando também não temos muitos motivos de lamúria. Reconhecem-nos pelo pastel de nata, pelos pratos de peixe fresco, pela francesinha, pela bifana. E a lista segue.

Nada sabe melhor que uma bola de berlim na praia, o polvo no natal, as sardinhas no São João. Devo admitir que isto são apenas preferências. E agora que estamos na época pascoal, não posso deixar de recomendar os pães de ló de Ovar.

E no copo estará sempre um vinho tinto, um galão ou uma cerveja. Depende, claro, da refeição e do momento do dia.

A variedade de pratos é tão grande e completa que é difícil colocar em escrito. Mas sei que nos orgulhamos da popularidade do pastel de nata. E, além disso, sentimos a honra do reconhecimento que a nossa comida recebe, seja em sites da internet (como o tasteatlas), ou pela boca de quem experimentou.

Materialidade

Nestas linhas não escapa a menção à beleza dos trajes. Os trajes regionais e os trajes académicos são de uma elegância tão magna que é impossível não fixar o olhar e contemplar o que agulha e fio são capazes de criar.

Estupendas são, também, as ricas obras artesanais. Falo do galo de barcelos, com as suas abundantes cores, os azulejos que contam histórias e os lenços dos namorados, que bordam líricas ardentes.

São marcas das mãos de ofício. Horas de trabalho e resultados impressionantes.

Por fim, Lusitano!

Estamos longe de ser um povo perfeito. Historicamente cometemos erros e, mesmo atualmente, existem aspetos desconcertantes.

Não prometo que estas linhas que tracei caracterizem todos os corações portugueses, até porque seria impossível reduzir a tão pouco uma alma tão grande. Mas espero, com toda a sinceridade, que o fosso de simpatia, tolerância e bondade em cada um de nós seja infinitamente longo. E que tal nos caracterize hoje e sempre, aqui e ali.

 

Texto da autoria de Joana Simões

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Exit mobile version