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Artigo de Opinião

ISRAEL E PALESTINA, UMA REFLEXÃO

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Tiago Vaz

Tiago Vaz

Lembro-me de ler, ao estudar para uma cadeira de História, que o século XX foi um século marcado pelos conflitos regionais. O século XXI, perpétua, de certa forma, esta tendência. O conflito entre Israel e a Palestina (entre outros) prova isso mesmo: são as diferenças entre as pessoas, os problemas sociais e culturais e a intolerância entre algumas regiões do mundo que provocaram e provocam os conflitos armados mais violentos deste início de século.

O caso particular de Israel e da Palestina, que por estes dias tem dominado as notícias internacionais um pouco por todo o mundo, tem, contudo, raízes mais complexas do que os problemas culturais, linguísticos e religiosos que ditaram o fim, por exemplo, da Jugoslávia. Trata-se, acima de tudo, de um problema de pertença. A quem pertence realmente aquele território? Quem tem direito a ele? Deveria existir Israel? Palestina? Ambos? Quem sabe nenhum dos dois? A guerra faz-se em torno destas questões, pela terra e pelo direito a isso mesmo: existir. E, ao contrário da Jugoslávia, um aglomerado de “países” que se desintegrou e deu lugar a Estados independentes, Israel e Palestina não formam um único Estado, mas antes dois, num território que ambos reclamam como seu.

O problema entre israelitas e palestinianos nasce com o final da 2ª Guerra Mundial e a criação do Estado de Israel. Desde esse momento, os países nesta área entraram em conflito com Israel, acabando invariavelmente por perder, o que consolidou a posição israelita não só na região mas na comunidade internacional. De facto, se o domínio militar for uma condição essencial para se ter direito a um território, Israel já há muito que garantiu o seu direito de existência. Apoiado politicamente pela ONU e, mais importante ainda, militarmente pelos EUA, dificilmente se pode esperar que Israel deixe de existir.

Não seria correto condenar o direito de Israel à existência. Mas seria ainda menos correto não condenar o tratamento que foi dado, que é dado aos palestinianos e à sua luta, Esta luta faz-se por um território que defendem ser seu e que, efetivamente, já era ocupado por palestinianos antes da criação de Israel ou do enorme fluxo migratório de judeus para a região. A Palestina, que foi pela primeira vez assim designada nos últimos séculos do Império Romano, fez parte de vários domínios que conquistaram e foram governando a zona do chamado Crescente Fértil. Sem nunca ter sido, aos olhos da comunidade internacional, um Estado, a Palestina nunca deixou de o ser, tendo assim razões históricas para sustentar o seu direito a existir,

No fundo, o que está na base deste problema é a criação artificial de territórios, por parte de países exteriores a esses territórios (países europeus e os EUA), que não respeitou o direito de quem há muito tempo habitava nesses territórios e por isso os considerava seus. Apesar de não concordar com ações terroristas e ataques à soberania de um país, como os que são levados a cabo pelo Hamas contra Israel, é-me impossível não considerar que é em Israel e na sua criação por parte da ONU que reside a razão deste conflito. E que, tendo já Israel conquistado um direito a existir, tem uma obrigação moral e humana de respeitar e reconhecer o direito à existência da Palestina. Israel não pode continuar a agir como se fosse o único país com direito a ocupar aquele território. O Hamas não pode continuar com uma guerra que vai perdendo a cada dia que passa. Os palestinianos não podem desistir do seu direito a existir. Os israelitas não podem continuar a negá-lo. E a comunidade internacional, em especial a ONU, não pode continuar a fugir da responsabilidade deste problema que criou e que, portanto, tem obrigação de resolver. Em nome dos quase dois mil palestinianos que perderam a vida nas últimas semanas.

Como ouvi estes dias uma israelita dizer: Israel já não faz guerra contra o Hamas, faz guerra para erradicar os palestinianos e isso o povo israelita não pode defender. Como ouvi também uma palestiniana dizer: o Hamas já não luta pela Palestina, luta apenas contra Israel. Já não defende os palestinianos, nem nós o defendemos. Está na altura de ambos os lados tomarem consciência disto. Porque o que se tem destruído nos últimos anos, seja israelita ou palestiniano, começa a tornar-se muito difícil de recuperar.

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