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Ciência e Saúde

“Sentineleses”: a tribo incontactável

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Imagem de satélite Sentinela do Norte; Crédito: European Space Agency (contém dados modificados do Copernicus Sentinel, 2022)
Imagem de satélite Sentinela do Norte; Crédito: European Space Agency (contém dados modificados do Copernicus Sentinel, 2022)

Os “Sentineleses” são conhecidos pela sua hostilidade, atacando qualquer embarcação que se aproxime. No entanto, as leis que impedem o contacto com esta tribo não surgiram para proteção de visitantes.

 

Sentinela do Norte: Geografia e História Filogenética

A ilha Sentinela do Norte pertence ao arquipélago de Andamã e Nicobar, um território sob administração do governo indiano, na Baía de Bengala, no Oceano Índico. Com cerca de 60 km2 e uma densa floresta tropical que se estende até à costa, os únicos sinais de vida são pequenos trilhos, visíveis em imagens de satélite, que atravessam as árvores da ilha.

Mapa Sentinela do Norte; Crédito: EVS-islands, CC BY-SA 2.0, Flickr

O seu povo, os “Sentineleses” (assim denominados pelos povos das restantes ilhas do arquipélago), vivem completamente isolados do resto do mundo. Isto deve-se à posição ofensiva em relação a visitantes, ameaçando embarcações que se aproximam com flechas e lanças, mas também a medidas implementadas pelo governo indiano.

Por este motivo, pouco se sabe acerca desta tribo. Crê-se que serão descendentes de outras tribos de Andamã e Nicobar, nomeadamente os Jarawas e os Onges (da Pequena Andamã), devido a ligeiras parecenças linguísticas, culturais e físicas. Estas populações deverão ser oriundas das primeiras gerações de seres humanos a emergir em África e emigrar para diferentes partes do globo.

Especialistas admitem a hipótese de que um ciclone os terá transportado até à ilha durante uma expedição de pesca.

 

Como vivem os “Sentineleses”?

Mesmo dependendo de uma reduzida diversidade genética, isolamento reprodutivo e recursos limitados, a comunidade da Sentinela do Norte continua a prosperar. A aparência saudável e número significativo de crianças e grávidas avistadas durante as expedições ao local provam este ponto.

De estatura mediana, pele escura e cabelo com textura semelhante a lã, vivem em pequenos bandos com relação harmoniosa entre os mesmos. Mulheres pescam em águas rasas (com redes e cestas), dedicam-se ao cuidado das crianças e foram até avistadas a dançar, batendo palmas com os joelhos dobrados. Homens constroem arcos e flechas e dedicam-se à caça e pesca. As canoas de madeira, finas e instáveis, revelam que os “Sentineleses” não se aventuram para além das águas paradas da costa.

Andamaneses capturam tartarugas marinhas; Publicado em The Modern Review, 1907

Neste sentido, a sua alimentação baseia-se em javali, tartarugas marinhas, peixe e moluscos, fruta, raízes, tubérculos e ovos.

Vestem cintos de casca de árvore e incorporam vários materiais oferecidos durante as expedições à ilha no seu vestuário.

A postura defensiva surge como um ato de auto preservação, fruto de múltiplos conflitos no passado. Os arcos e as flechas, de um metro e meio e cabeça de metal, apresentam o sinal dos “Sentineleses”: um padrão em ziguezague.

Este povo não pratica o canibalismo. Os seus mortos são enterrados segundo rituais; são colocadas conchas sobre campas de crianças. Invasores, como os pescadores que desapareceram em 2006 e 2022, são enterrados longe do local comum, nas praias.

 

Tentativas prévias de contacto

Apesar do extenso historial de tentativas de contacto, o primeiro relato escrito de observação e comunicação com os “Sentineleses” remonta ao ano de 1899. Maurice V. Portman, oficial naval britânico responsável pelas ilhas do arquipélago de Andamã, descreve a sua experiência em jornadas à ilha de Sentinela do Norte no compilado de histórias e registos governamentais “A History of our Relations with the Andamanese”.

Em 1969, o governo indiano criou o Comitê de Sundaram com o intuito de fornecer recomendações para o bem-estar das tribos de Andamã e Nicobar. Fruto dessas recomendações, entre 1970 e 1994, o antropólogo indiano Triloknath Pandit e a sua equipa realizaram diversas expedições à ilha. Nestas viagens foram estabelecidos os primeiros contactos amigáveis com os “Sentineleses” e foram observados comportamentos, objetos e habitações que se revelaram de extrema importância para a compreensão do estilo de vida desta tribo. Isto foi apenas possível devido a contínuas oferendas de bens como peixe, coco, bananas e tecidos.

Equipa de T. Pandit (à esquerda) oferece cocos aos “Sentineleses”; Crédito: T. Pandit

Em 2004, no seguimento do tsunami que atingiu o Oceano Índico, a guarda costeira indiana enviou um helicóptero para averiguar a sobrevivência da população da ilha. Embora tenha provocado um significativo número de vítimas e estragos noutras ilhas do Índico e alterado a topografia costeira da Sentinela do Norte, com perda de áreas de pesca, a continuidade da tribo não foi posta em causa. Esta resiliência poderá ser explicada por um sistema de conhecimento indígena, transmitido de geração em geração, resultado de séculos de experiência de interação entre ser humano e natureza.

Os desaparecimentos de pescadores em 2006 e 2022 geraram grande controvérsia a nível global, com apologistas da aplicação da justiça nos “Sentineleses” homicidas, e acentuaram os comportamentos hostis por parte desta população.

Contudo, o incidente de John Allen Chau, em novembro de 2018, foi o caso mais mediático. O evangelista, determinado em partilhar a mensagem do Cristianismo com a tribo, realizou várias tentativas de contacto. Após grande insistência, acabou por ser assassinado por uma das flechas fabricadas pelos indígenas.

John Allen Chau; Imagem Facebook

A importância da evicção de contacto

Em 1956, o governo indiano publicou o Regulamento para as Ilhas de Andamã e Nicobar, onde está contemplada a proibição de aproximação não autorizada (para além de 9,26 quilómetros) à ilha de Sentinela do Norte.

Esta lei, atualizada em 2010, nasceu com o propósito de proteger os interesses das tribos deste território. A história de tribos indígenas por todo o globo lembra-nos da importância de medidas como esta para a continuidade de sociedades com séculos de existência, costumes e sabedoria próprios e relação de simbiose com a mãe natureza.

Comunidades isoladas são mais suscetíveis a agentes patogénicos comuns na sociedade moderna

Nos anos 80 e 90 do século passado, no seguimento da exploração de óleo, grande parte das tribos de Nahua e Murunahua, no Perú, foi dizimada por transmissão daquilo que, para os invasores, era uma comum constipação.

Gripe e malária são exemplos de epidemias que vitimizaram dezenas de membros da comunidade Zo’é, no Brasil, após contacto com missionários da “New Tribes Mission”, que visavam convertê-los ao Cristianismo. Com o passar dos anos, os Zo’é foram, gradualmente, perdendo a autonomia e começando a depender dos missionários até 1991, altura em que o governo expulsou os cristãos do território.

Projetos agro-industriais e rodoviários, madeireiros e criadores de gado invadem territórios tribais e limitam os seus recursos

Os Awá, uma das últimas comunidades nómadas a viver da caça no Brasil, estão rodeados por grandes indústrias agrícolas e colonizadores que, para além de invadirem progressivamente o seu território, competem com a tribo pela caça de animais como veados, apresentado a vantagem de possuir armas de fogo.

Após a construção de uma autoestrada nas suas terras, os Panará, do Brasil, viram a sua população reduzida a cerca de um quinto da inicial. Em 1997, regressados à floresta do Mato Grosso após exílio forçado, acabaram por processar o governo brasileiro pelo sofrimento provocado. A justiça concordou com a queixa apresentada, levando a uma compensação monetária por parte do governo pelos “danos mortais e culturais”.

Tribo Panará, do Brasil; Crédito: Agda Detogni

Os próprios Jarawa, de Andamã e Nicobar, viram o nascimento de uma autoestrada trazer trânsito, turistas e caçadores à sua floresta. Sendo a estrada principal destas ilhas, o impacto na tribo é significativo.

 

Apesar das várias tentativas de colonização e aproveitamento de território, a hostilidade dos “Sentineleses” permite que estes continuem a ser um povo que vive dos costumes e conhecimentos adquiridos após séculos de convívio harmonioso com a natureza, sem qualquer consciência acerca da vida civilizacional moderna, como se tivessem parado no tempo.

 

Artigo da autoria de Catarina Pereira. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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