Cultura
A Escrevivência de Conceição Evaristo e a Urgência Política de Milton Hatoum no Festival Babell
O calor intenso que se fazia sentir às 16h não desanimou as centenas de pessoas que procuraram o festival Babell. Inicialmente previsto para o Largo dos Leões, o encontro mudou de palco para o Largo de Santo Ildefonso, uma alteração de última hora que acabou por emoldurar a tarde num cenário vibrante.
Para mitigar as temperaturas elevadas, a organização distribuiu chapéus de palha com o logótipo do evento, um pormenor que se revelou tão útil quanto funcional para quem enfrentava o sol a descoberto. À entrada do recinto, uma banquinha de livros exibia as obras dos autores convidados, transformando-se num ponto de paragem obrigatório para o público adquirir títulos em falta ou descobrir novas leituras estimuladas pelas sessões.

Créditos: Lívia Bueno
Com o recinto completamente lotado, o ambiente transbordava entusiasmo e, mesmo quem não conseguiu bilhete instalou-se pelos jardins e na relva ao redor da vedação para acompanhar a conversa à distância. Quando entraram no espaço, Conceição Evaristo e Milton Hatoum, dois grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, foram ovacionados com uma calorosa salva de palmas por um público visivelmente emocionado. A conversa foi moderada com sensibilidade por Inês Castanheira, do Bairro dos Livros, e a experiência literária foi expandida e incrementada através da leitura de excertos marcantes das obras de ambos os autores, interpretados de forma cativante por Francisca Bartilotti.

Créditos: Lívia Bueno
Conceição Evaristo partilhou que esta era a sua primeira vez na cidade do Porto e fez questão de dedicar o encontro ao seu amigo de longa data, o escritor português Valter Hugo Mãe, que assistia à sessão na primeira fila. Na sua intervenção inicial, a autora expressou uma profunda gratidão “pela competência e sensibilidade que a vida lhe deu para ter o dom de escrever”, sublinhando uma distinção essencial na sua identidade artística: “Eu não escrevo para as mulheres negras, mas sim COMO uma mulher negra”, afirmou, acrescentando que é precisamente na escrita que encontra a sua realização mais íntima.
A autora, natural de Belo Horizonte, é linguista e atuou também como pesquisadora e docente universitária. Foi precisamente durante a sua investigação de mestrado na PUC que cunhou o termo “Escrevivência”, conceito literário que defende uma mistura das experiências pessoais e ancestrais na literatura, focado na autoria de populações historicamente subalternizadas. Falando da sua própria infância marcada pela pobreza, filha de uma mãe lavadeira e pai pedreiro (trolha), Conceição relembrou como a perceção precoce da desigualdade social se transformou, através da escrita, num movimento de esperança.
Ao explicar a génese da escrevivência, a escritora recuperou a figura histórica da “mãe preta” e a força da oralidade, citando a sua célebre premissa de que essas histórias contadas pelas mulheres escravizadas “não são para adormecer os da casa-grande, mas sim para incomodá-los nos seus sonos injustos”. Para a autora, a escrevivência funciona como uma ferramenta política para borrar esse passado e libertar a voz que as mães pretas outrora não podiam ter.
O percurso de Conceição na literatura arrancou com o seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio, lançado em 2003, onde aborda temas como a discriminação racial, de género e de classe, tendo sido inclusive foco de pesquisa académica em 2007. Canção para ninar menino grande, Olhos d’água e Becos da memória são algumas das suas obras mais aclamadas. Ao longo da carreira, acumulou diversos galardões, com especial destaque para o Prémio Jabuti em 2015, na categoria de Contos, com a obra Olhos d’água.

Créditos: Lívia Bueno
Ao seu lado, Milton Hatoum trouxe para o debate uma reflexão profunda sobre a utilidade da arte. Escritor, tradutor, professor e membro da Academia Brasileira de Letras, Hatoum afirmou convictamente que “a literatura não tem nada de inútil, sendo uma das mais profundas necessidades humanas”, dado que explora com uma subtileza única a complexidade das relações. Revelou ainda que, embora se tenha formado em Arquitetura, acabou por não seguir a profissão porque simplesmente “não podia deixar de escrever”. O seu primeiro livro, Relato de um certo oriente, foi publicado em 1989, dando início a uma carreira exemplar que também coleciona prestigiados prémios literários, com destaque para os prémios Jabuti conquistados nos anos de 1990, 2001, 2006, 2009 e 2014.
Hatoum não hesitou em adotar uma postura assumidamente política no palco do Babel. Ao recordar a época da ditadura militar brasileira, período em que se mudou de São Paulo para Brasília, o autor apontou aquele que considera um dos maiores crimes do regime: o desmantelamento deliberado da escola pública. Segundo o escritor, o fim de um modelo onde pessoas de todas as classes sociais estudavam juntas gerou uma segregação profunda entre os mais ricos e os mais pobres, cujas repercussões se perpetuam há gerações. Face à atualidade, Hatoum teceu duras críticas ao governo do estado de São Paulo pela tentativa de implementação de escolas cívico-militares, classificando a medida como um claro retrocesso para a democracia.
Defendendo que a arte deve ser intrinsecamente política, Hatoum criticou publicamente realizadores como Wim Wenders por defenderem opiniões contrárias, considerando que o distanciamento artístico não faz sentido perante as crises globais. O escritor lamentou ainda o receio que muitas figuras públicas e artistas demonstram em posicionar-se criticamente em relação ao que classificou como “o genocídio do povo palestino”. Precisamente no momento em que proferia estas palavras, o sino da Igreja de Santo Ildefonso começou a dobrar, criando um momento cómico espontâneo. O público reagiu com risos e palmas, encarando a coincidência como uma espécie de “bênção” oportuna às declarações do autor.

Créditos: Lívia Bueno
Apesar do impacto e da importância das suas vozes no panorama cultural, ambos os escritores concordaram numa premissa humilde: a necessidade de não “endeusar” ou mistificar a figura do escritor. Para Hatoum e Evaristo, os autores são pessoas comuns que possuem, apenas, uma relação diferenciada e trabalhada com a linguagem. Ainda assim, Conceição Evaristo arrancou mais sorrisos da plateia ao confessar, entre risos, que apesar de reconhecer essa normalidade, gosta genuinamente de ser reconhecida pelo seu trabalho, recorrendo com graça à expressão mineira “metigueza” para descrever esse orgulho legítimo.
- Créditos: Lívia Bueno
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