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Cultura em Agenda

Nova temporada do Batalha Centro de Cinema destaca cinema com história

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One Flew Over the Cuckoo's Nest (1975), que será exibido no Batalha a 12 de dezembro.
One Flew Over the Cuckoo's Nest (1975), de Miloš Forman, que será exibido no Batalha a 12 de dezembro.

O Batalha Centro de Cinema revelou, na manhã de 20 de julho, a programação para os meses de setembro de 2026 a fevereiro de 2027.  No seu último momento de apresentação pública como diretor artístico, Guilherme Blanc apresentou à comunicação social uma nova agenda para a instituição, repleta de ícones da história do cinema. 

As salas do Batalha Centro de Cinema voltam a abrir dia 5 de setembro. Novos ciclos temáticos sobre como a morte é retratada no ecrã e a evolução dos efeitos especiais, retrospetivas a Miloš Forman, João Canijo, Satoshi Kon, Andrea Arnold, e a primeira em Portugal dedicada à cineasta franco-columbiana Paula Gaitán, antestreias de filmes gravados no Porto, de Sérgio Graciano e Tiago Guedes, e próximos capítulos dos programas regulares do Batalha Centro de Cinema.

Novos ciclos temáticos

Esta temporada irá abrir com Orphée (1950), da realização do surrealista francês Jean Cocteau. Cinema do Além é um novo ciclo temático, lançado para percorrer os pensamentos do cinema sobre o pós-morte. Começando pela releitura modernista de Cocteau, do mito grego de Orfeu transportado para um Paris do pós-guerra. São esses estados intermediários, de transição entre o corpo que morre e o que sobrevive depois da matéria física, que são explorados desde os primórdios do cinema. Debate memória, consciência e sobrevivência, e vai contar com cerca de 20 sessões.

Ao mesmo tempo, o convite às famílias para o cinema mantém-se, sem ignorar o cruzamento com o resto da programação. Dos primeiros filmes do Programa para Famílias será Todos os Cães Merecem o Céu (1989), do realizador e animador norte-americano Don Bluth.

O segundo ciclo será Efeitos Especiais no Cinema. O mote lançado passa por questionar o impacto e melhoria das possibilidades técnicas na linguagem cinematográfica, e o que é, em si, o efeito especial. Este planeamento, que acompanha cronologicamente a História do cinema, foi feito em colaboração com o cineasta Gabriel Abrantes, e com a direção de fotografia por Jorge Quintela.

Retrospetivas integrais

Clássicos do século XX

A retrospetiva dedicada a Miloš Forman, relembra um nome incontornável. Nascido na Boémia Central em 1932, atual Chéquia, Forman emigrou para os Estados Unidos depois da invasão soviética à Checoslováquia, no verão de 1968. Obras como Black Peter (1964), que acompanha a vida de um jovem de 16 anos, estágiário num supermercado, ao mesmo tempo que introduz a revolta de jovens do bloco oriental antes do início da Primavera de Praga, fizeram do cineasta uma das figuras mais importantes do New Wave e do cinema checoslovaco.

Logo, a performance e o caminho para um libertismo inconformado guiam esta retrospetiva, que termina com Hair (1979), uma comédia que celebra a cultura hippie antiguerrista, e One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975), uma reflexão que desafia a autoridade de uma instituição psiquiátrica. Este último venceu os 5 Óscares das categorias mais importantes. Depois dessa vitória, só o Silêncio dos Inocentes (1991) foi premiado com todas essas categorias pela Academia.

Animação japonesa

Satoshi Kon é uma novidade no programa. Apesar de Paprika (2006), thriller de ficção científica, já ter passado várias vezes nas salas do cinema Batalha, é a primeira vez que o cineasta de animação japonês tem uma retrospetiva integral dedicada à obra. Mais conhecido por Perfect Blue (1997), autêntico sucesso do terror psicológico, e o seu primeiro filme, Satoshi Kon realizou 3 outras longas-metragens e uma série televisiva, Paranoia Agent (2004). Menos citada, mas igualmente marcante, a série mantém o gosto pelo pós-modernismo e explora até que ponto o real e o imaginário se podem entrelaçar, até se consumirem um ao outro. Há metódo na loucura.

Cinema de intervenção

Esta última retrospetiva integral a começar, a 8 de setembro, é dedicada à britânica Andrea Arnold. As contribuições de Arnold para o cinema vêm de um plano interventivo e de um foco no realismo social, primordialmente narrado pela experiência feminina. Tal e qual acontece em Fish Tank (2009), drama sobre uma adolescente num bairro social na paisagem pós-industrial de Essex, em que uma narração individual se transforma numa reflexão crítica sobre classe, sociopatia e aspetos partilhados na psicologia do coletivo. Como em Milk (1998) ou American Honey (2016), a escolha de Arnold por contratar atores e não-atores cria uma atmosfera profundamente crua e íntima, que baloiça “entre a realidade e a metáfora” (Al Houari, 2025).

Retrospetivas selecionadas

Sugerida pelo Pelouro da Cultura e Património da Câmara Municipal do Porto, não podia faltar a celebração no aniversário de João Canijo, que faleceu em janeiro deste ano. Até fevereiro, haverão sessões dos filmes mais reconhecidos da sua filmografia. Desde a primeira longa-metragem, Três Menos Eu (1988), a versão original alargada de Noite Escura (2004), até aos último projetos, e mostras de filmes de realizadores que influenciaram os filmes em exibição. A retrospetiva selecionada de Canijo irá começar a 10 de dezembro, dia de nascimento do cineasta.

Conforme a inconformidade do resto do programa, também Paula Gaitán vai ter a primeira retrospetiva feita em Portugal. A cineasta multidisciplinar explora o documental e o surrealista, a ficção e as artes plásticas. Professora de Cinema Experimental, Gaitán trabalha a memória coletiva de povos indígenas. De tal forma que Luz nos trópicos (2020), o seu filme monumental, atravessa, durante 4 horas, a história dos povos americanos indígenas até à modernidade do norte da América, através da expedição de Langsdorff, médico naturalista a comando do czar russo numa excursão “científica” à Amazónia, em 1821. Como resultado, a observação, o corpo, a memória, o tempo e o poético, são algumas das dimensões presentes na filmografia da cineasta (Mourão de Andrade e Chiaretti, 2026). Paula Gaitán foi também convidada para dar uma masterclass, com data ainda por anunciar.

Sessões especiais

Claro que, dentro dos realizadores internacionais, celebrar a cidade do Porto continua a ser um mote do Batalha Centro de Cinema. Memórias do Cárcere  de Sérgio Graciano, vai ter sessão de antestreia dia 19 de setembro. Passado em 1860, o filme retrata a prisão de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido na Antiga Cadeia da Relação do Porto e a escrita do Amor de Perdição. 

Conforme, dar-se-á uma sessão especial para Aquífilme de Tiago Guedes exibido este ano no Festival de Cannes. O cineasta portuense volta a passar a adaptação da trilogia de Jesus. Premiada com o Nobel de literatura em 2003, entregue ao escritor sul-africano J. M. Coetzee, a obra tem uma sessão dedicada em dezembro.

Ao propósito, na conferência de imprensa, o Vereador da Cultura Jorge Sobrado parabenizou a instituição por continuar a ser um baluarte do cinema português. Por essa razão relembrou que, em novembro deste ano, se assinalam os 130 anos da primeria projeção de um filme português. A curta de Aurélio da Paz dos Reis, “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, foi exibida no que hoje conhecemos como Teatro Sá da Bandeira. Aliás, em junho desse ano, 1896, foi também a data da primeira projeção de cinema no país, no Real Coliseu de Lisboa.

Claro que, dentro das sessões especiais, ainda haverá espaço para celebrações como o 25º aniversário da Casa da Animação, duas sessões dedicadas aos 90 anos de Paulo Rocha (autor de Os Verdes Anos), um evento de Halloween, e uma nova edição do Play it Again, Batalha!

Festivais e parcerias do Cinema ao Redor

Do mesmo modo que não se esquece do filme português, o Batalha Centro de Cinema promete continuar a acolher festivais dedicados à valorização da Sétima Arte. Podemos aguardar novo cartaz em outubro do Family Film Project e da Mostra Internacional do Cinema Anti-Racista (MICAR), dos Queer Porto e Porto/Post/Doc em novembro, e dos retornos dos IndieJúnior e Fantasporto em 2027

Setembro vai assinalar a 4ª edição do Big Show, mostra dos projetos finais de finalistas de cinema do Porto. No campo educativo, mantém o esforço da abertura dos cursos do Batalha, dando início ao Curso O Porto no Cinema  (inscrições em breve) na segunda quinzena desse mês, e o regresso do Curso de Crítica de Cinema num futuro próximo

Também darão continuidade ao Clube de Leitura e à parceria com o grupo de cinefilia “Porto, Texas“.

Programas regulares

Faltam ainda os próximos capítulos dos programas regulares do Batalha, bem como a última edição da Seleção Nacional. Cenários “telúricos” dominam as sessões, com a curadoria de Guilherme Blanc e do Diretor da Cineteca Madrid e Documenta Madrid (Luis Parés). Foram selecionadas peças do cinema português e espanhol, desde o pós-ditaduras ao cinema depois das crises de 2008. Esta seleção, por produções que retratam os laços (um quanto sacro-profanos) das comunidades com os ritmos da natureza, debate história e profundas crises culturais.

Bem como para os Tesouros do Arquivo, está publicado o programa mensal Câmara Sónica. Do mesmo modo, continuarão as sessões do Luas Novas, em sintonia com o calendário lunar, e a parceria associativa e cívica nas Matinés do Cineclube

Voltará o Vai e Vem, circuito de cinema que tira o cinema fora da sala e o projeta em outros locais da cidade, com o epicentro na Praça do Batalha. O programa ainda não foi publicado, mas voltará a contar com espaços experimentais, de cabeleireiros a quartos de hotel.

Los Montes (1981), curta de José María Martín Sarmiento, que será exibido a 23 de setembro.

Exposições

Vai regresssar a exposição do Sobre um Filme, Sobre um Poemaagora com a curadoria da multifacetada artista portuense Regina Guimarães. De entre outros, haverá instalações de Cecília Bengolea, Marie Losier, Paulo Carneiro, Isadora Neves Marques, Omar Chowdhury, Wang Bing e Maxime Jean-Baptiste. A agenda destes projetos já está programada até dezembro de 2027.

Novas páginas

Além de Paula Gaitán, o cineasta argentino Matías Piñeiro irá conduzir uma masterclass dia 29 de outubro (inscrições gratuitas). Há também uma seleção de obras de Piñeiro, exibidas em preparação ao lançamento da primeira monografia sobre a sua produção fílmica. Editada pelo Batalha Centro de Cinema em conjunto com a Fireflies Press, esta edição é outro passo num percurso que tem 4 anos. Desde a (re)abertura em 2022, a instituição já editou 13 livros, movimento significativo para um cruzamento entre a literatura e o cinema.

De facto, o crescimento do Batalha Centro de Cinema e de toda a sua atividade mostra um balanço acima da média. Dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) português revelam que a média de 128 espetadores por sessão do Batalha Centro de Cinema (só contabilizando sessões fechadas) está significativamente acima da média nacional e de outros cinemas comerciais.

Ainda que as estatísticas sejam motivo de aplausos, Guilherme Blanc ressalva que devem haver salas com poucos espetadores. “Um sítio onde todo o cinema cabe (…) Se houver públicos segmentados, isso não é um erro, um problema, ou um defeito da instituição.”, disse Blanc à comunicação social. Simples em ideia, mas muito difícil de pôr em prática, como fez questão de marcar o Diretor Artístico. Em todo o caso, o Batalha Centro de Cinema continua a provar-se um espaço onde as pessoas podem escolher o seu próprio cinema.

Diretor artístico cessante, Guilherme Blanc, na conferência de imprensa de apresentação do novo programa do Batalha Centro de Cinema. Fotografia: @ Mariana Torrão.

Vereador da Cultura da CMP Jorge Sobrado e Guilherme Blanc, na conferência de imprensa de apresentação do novo programa do Batalha Centro de Cinema. Fotografia: @ Mariana Torrão.

Acesso à programação completa e compra de bilhetes online aqui.

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