Cultura
Babell: A apresentação de “O Século dos Imbecis”, o novo livro de Valter Hugo Mãe
O encerramento do festival Babel, no passado dia 29 de junho, ficou marcado por uma das sessões mais aguardadas desta edição. Celebrando 30 anos de carreira, Valter Hugo Mãe subiu ao palco para lançar o seu mais recente livro, O Século dos Imbecis, cuja moderação ficou a cargo do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince, que já se tinha apresentado no festival em nome próprio, numa conversa que equilibrou de forma perfeita a perspicácia crítica com momentos de enorme cumplicidade e humor.
A sessão arrancou precisamente de uma maneira descontraída, quando Faciolince confessou, entre risos, que lhe tinham enviado o livro físico na versão original em português e que o próprio se sentira “um imbecil” por não ter conseguido descodificar todas as nuances da língua. O autor português recolheu a piada com desprendimento, transformando o momento no mote ideal para uma tarde de partilha e informalidade.
Valter Hugo Mãe começou por agradecer calorosamente ao público que lotava o recinto, dirigindo uma reverência muito especial à escritora brasileira Conceição Evaristo, que estava atenta na primeira fila. Retribuindo o carinho da autora, que dias antes lhe tinha dedicado a sua própria sessão, o escritor brincou com a plateia afirmando que os dois viviam “uma paquera” literária, para deleite dos presentes. Pelo meio, e numa altura em que se ouviam gritos e celebrações vindas do exterior devido ao jogo da seleção brasileira que decorria em simultâneo, o autor voltou a usar do humor, comentando que estava quase a tirar um CPF (Cadastro de Pessoas Físicas, quase um NIF) porque o seu grande plano era “juntar dinheiro para comprar uma casa no Brasil”.
Entrando no coração de O Século dos Imbecis, Valter Hugo Mãe detalhou algumas das suas opções narrativas mais intrigantes, com particular destaque para a ausência de nomes próprios nas personagens femininas. No livro, as mulheres não são nomeadas, mas sim identificadas pelas suas funções. Longe de ser uma menorização, o autor explicou que se trata de uma inversão deliberada: para ele, as mulheres são as verdadeiras detentoras da ação, do movimento e da esperança necessária para fazer o mundo avançar.
O público foi ainda conduzido pelo enredo de Agilulfo, uma personagem central na obra que funciona como uma alegoria direta às fragilidades e fraturas da condição humana. O autor assumiu a forte relação desta figura com o universo de Italo Calvino (evocando O Cavaleiro Inexistente), utilizando-a para dissecar a armadura vazia em que o homem contemporâneo se fechou.
Um dos pontos mais reflexivos da sessão deu-se com o diagnóstico severo que o escritor faz da contemporaneidade. Valter Hugo Mãe lamentou o paradoxo de vivermos numa época em que a informação nunca foi tão abundante e acessível, enquanto o conhecimento profundo parece cada vez mais escasso e negligenciado. Ao analisar a contemporaneidade, o escritor detalhou o paradoxo de uma era saturada de dados, mas carente de discernimento real, sublinhando que o perigo não reside no desconhecimento natural da nossa espécie, mas sim no orgulho bizarro com que a falta de cultura é hoje exibida no espaço público. Esta “apatia intelectual voluntária”, que minimiza ou mesmo dispensa o esforço de reflexão e do pensamento, resulta numa imaturidade geral onde as ferramentas digitais de liberdade mental acabam reduzidas a meros “sedativos” recreativos, uma decomposição que compromete a maturidade crítica dos cidadãos e esvazia a substância da própria democracia.
- @Lívia Bueno
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