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Cultura

Amor de Perdição: um clássico intemporal reinterpretado na atualidade

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Amor de Perdição, obra escrita por Camilo Castelo Branco, em 1862, é um livro que comove gerações e que tem recebido diferentes interpretações. Hoje falo-vos sobre a mais recente, no Teatro Carlos Alberto.

 

Amor de Perdição é o meu livro preferido, é o livro da minha vida e grande parte da razão que me trouxe para as Letras. A partir daqui, há dois pontos que podemos definir: 1) irei a toda e qualquer representação ou atividade cultural que o envolva e 2) as minhas expectativas para qualquer representação ou atividade cultura que o envolva estarão extremamente altas.

Assim foi. Fui para o Teatro Carlos Alberto num dos únicos dias em que peça não esgotou, cheia de expectativas e de vontade de ver como é que retratariam a morte dos criados, a morte de Baltazar e, claro, as cenas finais.

Inicialmente, confesso, pensei que iria ficar desiludida: vi atores bastante jovens, um cenário minimalista e automaticamente pensei que fariam uma representação da obra nos nossos dias, com telemóveis e coisas que tais à mistura. Felizmente, enganei-me.

Os atores são todos bastante jovens, é verdade, mas extremamente talentosos. Encararam o papel com a seriedade merecida e os pontos de atualidade que trouxeram à peça não foram nada descabidos: um apontamento de humor aqui e ali e uma narração, palavra por palavra, de cenas do original.

Depois, é certo que o cenário era minimalista, mas surpreendeu-me o muito que se pode fazer com pouco – aliás, é nessa arte que o bom teatro é também exímio. Com um jogo de luzes impecável, foi fácil dar destaque a determinada personagem, saber quando é que ela falava consigo mesma, com o público ou com outras personagens. Em cenas de maior agitação, um jogo sincronizado entre os atores, cada um correndo não para um sítio qualquer, mas para um sítio pensado ao detalhe para que o som transmitido transportasse o espectador para uma cena de ação.

Os narradores que iam aparecendo em momentos específicos da peça, sempre com as passagens mais certeiras ou barulhos de fundo, foi inquietante: algo tão simples, mas tão bem concebido! Afinal, ouvir determinadas citações do original em palco é algo que arrebata qualquer leitor ávido da obra:

Amou, perdeu-se e morreu amando.

E, claro, as cenas finais que me trouxeram a lagriminha do costume: a beleza da morte, se tal existe, foi desenhada naquele palco. Cada um morrendo no seu tempo, no momento certo, terminando a peça numa mortandade geral, mas que as luzes captaram de uma maneira muito especial.

Morrerei, Simão. Adeus, até à eternidade.

Como sempre, termino estas apreciações com agradecimentos, porque ainda não saí desiludida dos teatros do Porto. Assim sendo, um obrigada especial à encenadora, Maria João Vicente, à equipa de produção, aos atores, ao Teatro Carlos Alberto e ao meu Camilo, que faz com que cada revisitação ao Amor de Perdição valha a pena.

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