Cultura
Liniker, The Waterboys e Europe – O 2º dia do North Festival
Liniker, um espaço comum para os que vivem, existem e procuram incessantemente um lugar para serem. The Waterboys, a memória enquanto revolução; o humano e a música que parece anteceder tudo o resto, uma ancestralidade natural do ritmo. Europe e um “final countdown” que não se soube render aos limites do tempo e se aventurou pelas gerações vindouras.
Palco Rock à Moda do Porto
O sol discernia as cores da tarde portuense, reiterava-se nas imagens de um rock português bem vivo, respirava já serenamente após escapar às condenações do inverno passado e aos marços de dias frios e escassamente luminosos. Foi este respirar de primavera que se encontrou com a tarde de concertos do segundo dia do North Festival, localizado este ano na Cidade Desportiva da Maia, que se explicou entre acordes de tudo um pouco, passando por indie e até por post-punk. Assim, deu-se o início do repertório musical do dia com três bandas portuguesas, sendo estas Times of Trouble, Pilot e Vulcões Semi Porreiros, naquele que foi um palco inteiramente dedicado ao longo de todo o festival a bandas de rock nacional.
Liniker, lugar para as idiossincrasias
O nome de Liniker, embora raro no que concerne o seu estatuto de incomum, não se tem visto como raro no que concerne o seu estatuto de presença na cultura e música brasileira e mundial. A artista, cujo nome se acompanha de 4 Grammys Latinos e do título de imortal na Academia Brasileira de Cultura, insiste em acompanhar-se também da capacidade de criar espaço para pluralidades, idiossincrasias múltiplas, no fundo para todos e para a vulnerabilidade inerente à experiência da condição humana. Nas palavras da própria artista, numa entrevista ao The Guardian, “Isto é a vida. As pessoas vivem. As pessoas existem. Elas precisam de espaço para serem quem são… é por isso que aqui estou.”
Foi esta mesma intenção que se fez sentir no Palco Principal do North Festival, foi esta mesma intenção que se fez brotar por via de cadências de fusões do soul, MBP e pop, que se fez brotar numa envolvente celebração do movimento e ritmo, mas também na intimidade de reconhecer a nossa voz na de outro, de reclamar uma música como espaço nosso e comum.

The Waterboys, desbravar os caminhos da memória
A noite já assolava a paisagem, com a sua familiar escuridão quando os Waterboys subiram a palco naquilo que apenas pode ser descrito como uma verdadeira narrativa de resistência, de revolução. Revolução que começa num grupo pequeno de pessoas a entreter uma mancha de gente e, que pela música, atinge uma única potencialidade, a de se transcender, a metamorfose de passar de banda a reflexos da condição humana, a reflexos do outro, da pluralidade dos outros que são a mancha de gente; a metamorfose de passar de mancha de gente entretida, a humanos que entretêm as suas formas um pouco mais autênticas por verem na música uma ancestralidade natural que os antecede e que os explica, ainda que só certos fragmentos de si.
Talvez por isso, a escuridão da noite se tenha sentido um pouco mais, talvez por isso tenha ocorrido um fenómeno de rara exceção. A verdade é que o concerto de Waterboys viu um público que quase não deu uso ao telemóvel, deu-se um fenómeno de existência plena na música alienada da nossa extensão virtual. A música, neste caso uma fusão de Rock, Folk irlandês, até o ocasional Country, espelhou-se numa multiplicidade de reações humanas; a contemplação para muitos, outros uma audição íntima com o ritmo e alguns até se viram vítimas de um rapto cruel para danças desenfreadas, filhos que tendo vindo conhecer as músicas que viram crescer os pais foram arrastados para as danças de um tempo anterior ao seu.
Assim se deu o concerto da banda liderada pelo escocês Mike Scott, que passou por temas um pouco tanto inevitavelmente místicos e poéticos como Fisherman’s Blues e The Pan within, mas também por músicas mais humoristicamente trabalhadas, provocativas por ousarem o subtil ataque de um riso descontrolado, pelo menos foi o que ditou a Nashville, Tennessee, que nos levou pela narrativa do “brother” Paul, o pianista da banda que, como tantos outros, se vê condenado a uma carreira em Nashville pela indústria, mas cuja alma assombra e reside na terra das raízes do soul, Memphis. Scott entoou também Knocking on Heaven’s Door de Bob Dylan, relembrando a nossa mortalidade e condição terrena, alterando até a letra por breves instantes, confessando “Se apenas pudesse encontrar para mim próprio um lugar de paz”. A única incompletude do concerto passa pela ausência bem sentida do The Whole of the Moon, tema muito querido ao público que não se ouviu na noite deste segundo dia de festival.
- Fotografia: Cristóvão Peixoto
- Fotografia: Cristóvão Peixoto
Europe, as tantas gerações que ousaram explorar 3 minutos de Vénus
O fim da noite deu-se com a atuação dos Europe, que com o seu hard rock, tomaram o palco como tempestade indomável, marcando-o desde logo com o tema On Broken Wings, mas também com toda uma intensidade em Walk the Earth. A dar continuidade a este tempestuar, ouviu-se também One on One e The Cult of Ignorance e ainda clássicos já consagrados como Carrie, Open Your Heart e Superstitious. Depois de toda uma odisseia cujos protagonistas foram a banda sueca, com a energia e excelência vocal de Joey Tempest, os riffs incontornáveis de John Norum e a virtuosa sensibilidade das teclas de Mic Michaeli, o tempo trouxe um dos momentos mais aguardados do festival, a música The Final Countdown.
O tema embarga em si toda uma viagem de descoberta que não se soube regrar pela temporalidade reduzida de pertencer a só uma década. Assim, a música que a princípio surgiu por inspiração de Space Oddity, incorpando as repercussões de um Bowie imortal, acabou por nascer como toda uma ode à curiosidade na aventura e descoberta. Curiosidade esta que, sendo consagrada ao longo de toda a música, talvez explique o porquê do permanente regresso de múltiplas gerações ao tema; vemos em The Final Countdown um imortalizar da curiosidade que, enquanto conceito humano sentimos escapar-nos como brisa dos tempos de infância e que aqui encontramos e reconhecemos como universal, que aqui despolarizamos da concepção de que crescer implica abdicar da curiosidade que nos pertence enquanto procurarmos, ainda que só por 3 minutos, as paisagens de Vénus.

Fotografia: Cristóvão Peixoto

