Cultura
Paredes de Coura 2025 – Terceiro Dia
Geordie Greep lecionou sobre o domínio da música, King Krule voltou com a mesma classe e La Jungle deu-nos a provar da sua loucura caótica no dia 15 de agosto, terceiro dia do festival Vodafone Paredes de Coura.
Os portugueses Memória de Peixe deram início ao dia, expressando desde logo a sua imensa gratidão por atuarem num festival que lhes é querido. Os instrumentais nostálgicos trouxeram uma perspetiva mais melancólica, mas mesmo assim satisfatória ao palco secundário. As suas melodias que mais lembram os coreanos Shadow Community, com uma pitada da portugalidade de Bruno Pernadas, propagando um ambiente terno que pairou pelo ar.
Já no palco Vodafone, um nome que não precisa de introdução em Portugal, Dino d’Santiago trouxe consigo a alma do crioulo cabo-verdiano, expresso na língua de um R&B com claras influências do folclore da ilha atlântica. “Nova Lisboa” destacou-se do repertório do artista, naquela que foi uma atuação sem um momento morto, com o público a colaborar num bailado descontraído e alegre durante praticamente toda a duração do concerto.
A nova-iorquina Cassandra Jenkins, a sua voz e a sua guitarra poderiam ter sido suficientes para nos embalar nas suas cantigas íntimas, quase num sussurro. Traços de new age e sophisti-pop alimentaram uma base de indie rock americano que nos chegou aos ouvidos com plenitude.
De seguida, de volta ao palco principal, a estreia de Geordie Greep em nome próprio em Portugal. E de facto, uma lição digna de estudar, o londrino rasgou por completo qualquer etiqueta atribuída, qualquer receio de exploração musical, sempre com uma qualidade e domínio do instrumento exemplar. “Blues” e “Holy, Holy” foram apresentadas possivelmente ainda mais intensas, cruas, numa êxtase liderada pelo maestro que passeava pelo palco como se dele fizesse casa. Toda a banda que acompanhou Geordie Greep mostrou-se à altura das suas ambições, e talvez também tenha superado por completo as nossas.
No palco BacanaPlay, os britânicos Bar Italia mostraram a sua dinâmica tripartida de um rock alternativo sem compromissos e com paixão, quase lembrando a era dos 00s tardios. Após o impedimento de atuarem no mesmo festival em 2024, este ano conseguiram subir ao palco com uma energia que compensou a sua inesperada ausência. Às faixas do seu mais recente lançamento, juntaram-se alguns dos clássicos da banda, como “skylinny”, “Nurse!” e “punkt”.
Black Country, New Road e o seu novo disco, “Forever Howlong”, um hino à amizade, foram os terceiros a subir ao palco principal. Uma exploração pelo folk rock, com elementos compositivos quase orquestrais, marcou o seu concerto, com multidões presentes no momento. Desde a partida do vocalista e compositor Isaac Wood, a banda decidiu enveredar por outros caminhos, recusando tocar o material lançado com ele. Apesar da união da banda e devido mérito musical, Black Country, New Road apresentou-se apenas um resquício do que em tempos foram, sob a liderança de Wood, um grupo que atingiu altitudes imensuráveis de qualidade, sentimento e sensibilidade nos seus dois discos anteriores, “For the first time” e “Ants From Up There”.
Diretamente de Brighton, as energéticas Lambrini Girls deram vários motivos à plateia para se juntar ao mosh pit, com um som do tradicional punk rock inglês. Apesar das suas mensagens progressistas, o trio ficou aquém do que se propõe a alcançar, sendo o seu som francamente não muito ambicioso e com uma entrega lírica pouco meticulosa e perspicaz.
A maré britânica terminaria com o londrino King Krule, nome artístico de Archy Marshall, de todo um estranho ao público português. Do seu no wave e punk jazz podemos retirar uma honestidade sentida, melancolia, nostalgia e uma certa dor, que ecoa pela sua guitarra e voz rouca. Um gesto a denotar, a sua homenagem a ao falecido futebolista Diogo Jota, na “Tortoise of Independency”. O seu concerto não poderia terminar sem as intemporais “Easy Easy” e “Out Getting Ribs”, que deram por concluída mais uma excelente presença em Portugal do britânico.
O duo belga La Jungle virou completamente do avesso o público de Paredes de Coura. No palco secundário, deram-nos a conhecer uma miscelânea de krautrock, transe e noise como nenhum grupo conseguiu chegar sequer perto nesta edição do festival. Uma maratona de loucura perturbadora, energia infindável e uma imersão absoluta nos sons maquiavélicos e groovy que saíram desta atuação. “Du sang du sing” e “Le jour du cobra” foram somente duas das faixas mais memoráveis do concerto, a denotar pela sua desinibição e criatividade multi-instrumentalista. A surpresa da noite, sem margem de dúvida.
E para fechar o palco principal, o norte-americano Mk.gee, que trouxe do outro lado do Atlântico para as margens do Taboão as suas sonoridades de lo-fi, R&B e soft-psichadelia. Apesar do seu carácter mais intimista nas gravações, a atuação mostrou ser demasiado elaborada e acabou por se dissociar daquilo que deveria ser a sua imagem, com um jogo de luzes demasiado intenso e decisões de som no mínimo questionáveis. Apesar disso, a plateia mostrou ter apreciado a prestação do artista, concluindo, assim, o penúltimo dia de festival.
Texto:
– Diogo Macedo Malcata
Fotografia:
– Inês Aleixo @ 0xiela (Instagram)