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Opinião

Os cinco anos da obra Criança Viada são sobre r/existência!

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Marcha do Orgulho do Porto 2024
Fotografia: icaromac

Chegamos ao fim de mais um mês do Orgulho: diálogos, intervenções, reivindicações e muita luta. Todas as cores vibrantes presentes em cada letrinha que demarcaram este ciclo de marchas, foram responsáveis por tomar as ruas na maior temporada do ano de culto ao amor livre. Junho marca a existência de pessoas LGBTQIAP+. Mas todo dia é dia de resistir!

Brasil. Aconteceu no último dia 25 de junho, em Aracati–CE, a roda de conversa “Literatura Viada: histórias para contar para os adultos”, onde estive como autor-convidado via web. O evento, impulsionado pela Prefeitura de Aracati, fez parte da programação do Mês da Visibilidade do município. A roda ainda contou com professores da rede estadual e municipal, bem como profissionais de assistência social e psicologia e convidados.

A obra furou a bolha ao tornar-se pauta nas redes sociais do município. Quase sabotada por ser considerada um afronte à moral e aos bons costumes — muita Fake News compartilhada em grupos de WhatsApp, comentários homofóbicos na rádio da cidade e até vídeos no Instagram da oposição, insultaram o evento, a obra e a mim. A conversa sobre o livro levantou questões acerca do processo de apuração e estruturação textual, bem como o conteúdo jornalístico e as suas contextualizações na atualidade. 

A mesa-redonda deu início com a exibição do curta Bomb-Queer (2019), do diretor e roteirista Renan de Cillo. A produção visual do cineasta tem uma ligação narrativa direta com a obra, estando sempre presente nas rodas de conversa sobre o ‘Criança Viada’ (livro de crónicas). Em seguida, depois de uma breve contextualização na atualidade, partimos para a leitura de algumas crônicas e, posteriormente, uma longa discussão acerca da temática tomou a atenção de todos os presentes na roda, fortalecendo a literatura enquanto ferramenta de formação cultural. 

Vale ressaltar que esta mesma roda de conversa aconteceu em meados de fevereiro, no Porto, no Centro Social Autogerido A Gralha, dentro do projeto Falas Marginais, desenvolvido por mim, enquanto colaborador do coletivo Porto Inclusive. O evento teve adesão de muitas pessoas, sendo definido como um ponto de partilha de narrativas sobre vivências LGBTQIAP+, mas também enquanto um lugar de acolhimento e discussão sobre corpos, bullying, brincadeiras e infâncias. 

 

O que tem você a ver se o Pedro gosta do Afonso?

Portugal. Parece que não foi apenas a ‘criança viada’ que enfrentou interrupções e teve de lidar com um mar de fake news. A escritora portuguesa Mariana Jones vêm sofrendo ameaças e retaliações do grupo de direita Habeas Corpus. Desde outubro do ano passado que a escritora lida com ‘ataques’ por parte da extrema-direita portuguesa. A causa? O seu livro infantil intitulado “O Pedro gosta do Afonso” despertou essa fúria reacionária em homofóbicos que não conseguem perceber o real sentido da literatura na sociedade.

Convidada para integrar um evento de troca literária organizado pela Fnac do NorteShopping, no sábado, 22, Mariana foi interrompida por elementos da extrema-direita. Quando a escritora ia apresentar o livro O avô Rui, o senhor do Café, literatura sobre o percurso do empresário Rui Nabeiro, o ex-juiz Rui Fonseca e Castro, que preside à Habeas Corpus, interrompeu-a imediatamente fazendo perguntas em voz alta e gerando desconforto na sala.

Este episódio não é uma situação isolada. Integrando a Feira do Livro de Lisboa, Mariana Jones apresentava a sua obra no dia 1 de junho, quando foi diretamente interpelada por um membro da Habeas Corpus, que proferiu as falas “promotora da homossexualidade infantil e da pedofilia”. Curioso, estas foram as mesmas injúrias dirigidas a mim, nos grupos de WhatsApp responsáveis por diluir fake news em Aracati antes da mesa-redonda acontecer.  

Sobre a obra ‘Pedro gosta do Afonso’, o personagem Afonso vive a sua pré-adolescência e confronta-se muitas vezes com o seu reflexo, com as dúvidas. Conta a história da sua relação ambivalente com o melhor amigo Pedro, que na escola lhe aparece com indiferença e raiva, mas que nos fins-de-semana se transforma em afeto e sonhos. É a chegada inesperada do avô com o Tiquinho para viverem em sua casa, com a sua irmã adolescente e pais, que vem dar colo a esta turbulência de emoções. Uma história sobre amor. Sempre o amor.

 

Gisberta, presente! 

Mesmo com tantas turbulências no mês do orgulho, foi finalmente oficializada a rua que leva o nome de Gisberta. Quem passar pela zona das Eirinhas, por trás do Cemitério do Bonfim, poderá ver que a nova rua alcatroada agora se chama Gisberta, mulher trans brasileira brutalmente assassinada em fevereiro de 2006, após ter sido deliberadamente agredida e violada por um grupo de 14 adolescentes entre 12 e 16 anos.

Gis morreu após sofrer várias agressões. O seu corpo ‘jogado’, submerso no fosso de um prédio inacabado, no Campo 24, Porto, foi encontrado após um dos 14 adolescentes confessar para o seu professor o ocorrido. 13 meses de internamento foram o preço pago pela vida de Gisberta. 

A deliberação foi aprovada pelo executivo municipal em 29 de janeiro, depois de as várias forças políticas da cidade insistirem no desejo de uma cidade inclusiva. Essa singela homenagem é um ato político que prima por justiça e inquietamento. O caso de Gisberta foi considerado uma das principais forças motrizes para criação da Marcha do Orgulho do Porto, que no próximo ano completa duas décadas de resistência e que, mesmo com toda a extrema-direita fazendo de tudo para boicotar o nosso direito de manifestar, ocupamos bravamente a rua neste ano.  

A brutalidade com que se configura a morte de Gisberta transformou-a em símbolo da discriminação múltipla: imigrante ilegal, transexual, prostituta, sem-teto e soropositiva. O caso gerou um impacto profundo na sociedade portuguesa, trazendo o debate sobre a transfobia à luz, mudando o olhar para as questões da igualdade de gênero. O seu impacto abriu o caminho para transformações que garantiriam maior inclusão e direitos aos homossexuais e transgêneros.

A atribuição do nome de Gisberta gerou divergências no entendimento dos critérios ditados pelo regulamento da Comissão de Toponímia, órgão consultivo do município para as questões de toponímia da cidade. Mas o povo calou a homofobia e a rua agora leva o nome de Gisberta. 

 

‘Criança Viada’ rompe tabus sobre a infância e reage às fake news

Minha base de pesquisa. A obra é um experimento textual estruturado em um compilado de memórias referentes às infâncias divididas comigo. Nesta experiência, dez homens homossexuais (denominados aqui “adultos viados”) foram convidados a rememorar a época de caixa de brinquedos, dentes caídos,​ manjas e recreios, a fim de compartilharem histórias referentes à infância, estas que dão alicerce para a construção das narrativas em crônicas que contextualizam e ilustram o universo “criança viada” em fatos. ​

Com esse ensejo, o livro se apresenta como uma proposta jornalístico-literária que se propõe a discutir — e, principalmente, denunciar ​—, a situação de desamparo familiar, social e psicológico que crianças homoafetivas do sexo biológico masculino enfrentam durante o seu percurso geralmente solitário de descoberta sexual desassistida.

O objetivo é dialogar de forma literária com a sociedade em geral com o intuito de despertá-los para uma discussão cada vez mais necessária e aprofundada acerca da relação corpo, gênero e sexualidade de crianças e adolescentes. [baixar o livro]

Acho que a mensagem principal que tirei para mim, depois de terminar o livro. Depois de reler, de ouvir as pessoas, as resenhas, as partilhas. Depois de tudo isso, eu percebi que o livro me ensinou que, apesar de tudo, eu posso amar e ser amado. Sabe, a gente já apanhou de tantas formas.

Como eu já trouxe aqui em outros textos, o ruim da pessoa receber pouco amor é que ela não sabe como ele é. Então, é fácil enganá-la porque a pessoa aceita qualquer coisa. E diversidade é isso, é essa autonomia de ser e estar. É entender que ninguém vai poder querer nos dizer como amar. 

 

fonte: Público-pt

 

Artigo da autoria de Ícaro Machado

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