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Devaneios

Se Puderes Olhar, Vê. Se Puderes Ver, Repara.

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A imagem foi gerada com Open AI.

Durante a vida toda somos ensinados a ser obedientes, a olhar apenas para baixo, a ver, a perceber e a interagir com o que está imediatamente aos nossos pés. Abandonamos a criatividade e o pensamento crítico e quanto às grandes questões, bem, deixamos de as colocar em cima da mesa para discussão; deixamos de “olhar para cima”.

Se Puderes Olhar: A cegueira do hábito

Há várias formas de cegueira: biológica, ideológica ou até espiritual, mas uma das mais perigosas começa no conforto, originada pelo hábito. Habituámo-nos a aceitar o mundo como ele é. Somos instruídos a depositar toda a nossa confiança nas estruturas do Estado, porque, de certa forma, pensamos que tudo é moderno, digno do século em que vivemos, e que a visibilidade pública das instituições é sinónimo de transparência e integridade. Assumimos, convenientemente, que o sucesso que vemos é devido não só ao mérito profissional, mas, sobretudo, moral.

O caso dos “Epstein Files” esbarra com esta realidade à qual estamos acomodados. Como é possível ter durado tanto tempo? Como é que ninguém, até agora, falou sobre isto? Quantos viram, mas optaram por não reparar? A meu ver, a resposta é óbvia. Custosa, mas óbvia.

Se Puderes Ver: Entre o preto e o branco

Quando nomes que ouvimos todos os dias surgem associados a este tipo de redes de influência, a questão central não é, “O que fizeram?”, porque, de facto, muitos não praticaram nada, mas sim, “Porque é que tantos foram coniventes durante tanto tempo?”. Não se trata, portanto, de neutralidade, mas sim de cumplicidade.

O poder não gosta de luz direta, nem de escuridão total. A penumbra é o cenário ideal. Aquela massa cinzenta entre o preto e o branco, onde tudo é ambíguo, negável, se necessário e não há regras bem definidas pelas quais se deva reger a conduta moral e ética.

É neste espaço que figuras públicas, celebridades ou até líderes políticos coexistem, praticando atos tão imorais que jamais tolerariam luz direta, se provas “preto no branco” fossem apresentadas, não necessariamente, porque todos os praticam, mas porque a esmagadora maioria beneficia de um sistema que os mantém. O problema é o facto de que tais provas já foram apresentadas, não sob o formato judicial, válido em tribunal, mas sim, sob o formato de ficção de Hollywood.

Repara: A alegoria a que todos deveriam assistir

É impossível não reconhecer o paralelismo entre o filme “Eyes Wide Shut”, de Stanley Kubrick, e os “Epstein Files”. O cinema tem uma vantagem que o jornalismo não tem: pode afirmar, criticar ou deduzir sem ter os factos bem definidos, “preto no branco”, podendo operar também nesta massa cinzenta, onde tudo fica dúbio, onde “nunca nada é bem assim”.

As máscaras que dão vida a este filme, não pretendem fazer uma denúncia direta, de forma factual, mas sim uma representação, uma alegoria daquilo que se passa dentro de certos círculos. Estes acessórios não só tapam a cara de quem os usa, como também apagam as suas identidades, diluindo responsabilidades e, por isso, a sua obrigatoriedade moral para responder perante a lei, tendo apenas os limites da impunidade como hipotético travão. Passados tantos anos após a estreia do filme, o seu fantasma regressa à atualidade, para sugerir que as cenas que compõem esta obra-prima não eram tão exageradas como muitos quiseram acreditar.

Poder-se-á questionar: “Já sabemos que este mundo não é ficcional. Como é que depois de tantos sinais e provas dadas, continuamos na mesma? Não há lei para ser cumprida? Não existem autoridades para fazer cumprir a lei?”, eu respondo: porque ver é incómodo! Exige rutura, mudança, saída da zona de conforto; exige diferença e, sobretudo, ação.

Saramago apela, por isso, à lucidez: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”. Abandonemos o conforto do cinismo e comecemos a colocar questões, a elaborar interpretações e a ligar os pontos. É urgente notar que o poder e a influência, quando não observados, organizam-se na penumbra e satisfazem os seus deleites macabros. De igual forma, é essencial reconhecer que, muitas vezes, a ficção é o reflexo da realidade, com a qual nos confrontamos diariamente e, como tal, não devemos descorar. Nunca.

 

Texto da Autoria de Gil Sampaio 

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