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Ciência e Saúde

“Playing God?” – A missão da Colossal Biosciences na conservação e de-extinção das espécies

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Numa iniciativa que percorre a fina linha entre a ficção científica e a nobre missão da conservação das espécies, a Colossal Biosciences promete fazer e ser algo que a ciência ainda não tem total capacidade de realizar.

Fundada em 2021 pelo geneticista formado na Universidade de Harvard George Church e o empresário Ben Lamm, a Colossal Biosciences é uma empresa baseada em Dallas (Texas) que usa tecnologias de vanguarda de de-extinção e CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats).

A empresa tem como missão a conservação das espécies, baseada na reversão dos efeitos de extinções maioritariamente antrópicas, propulsionadas pela revolução industrial e caça direcionada a certas espécies.

A primeira espécie “revivida” que propulsionou a empresa para os media globais foi o lobo terrível, (Aenocyon dirus). Os seus primeiros exemplares, batizados de Romulus, Remus e Khaleesi, nasceram entre o final de 2024 e o início de 2025. Estes nomes remetem tanto para a mitologia romana, onde os irmãos Rómulo e Remo foram criados por uma loba, como para a cultura popular contemporânea, com Khaleesi a evocar a personagem Daenerys Targaryen da saga Game of Thrones de George R.R Martin.

Remo, Rómulo (machos) e Khaleesi (fêmea), respectivamente, com 6 meses de idade (via Colossal Biosciences).

A base das tecnologias subjacentes à engenharia genética e a verdade por detrás do fenótipo

A tecnologia CRISPR, que permitiu o nascimento das três crias, funciona como uma ferramenta de edição genética de precisão, utilizando uma molécula de RNA guia para localizar sequências específicas no DNA e uma enzima (Cas9) para “cortar” e modificar essa sequência de código genético com exatidão. Para a Colossal Biosciences, esta técnica é o pilar central da sua engenharia de-extinção, sendo utilizada na inserção genes de espécies extintas no genoma de parentes vivos próximos.

Agora esclarecida a maquinaria biológica, é compreensível entender que a Colossal Biosciences causou um grande alvoroço dentro da comunidade científica. O trabalho realizado pela empresa americana é, segundo várias figuras de autoridade, um de criação de híbridos com fenótipo semelhante à espécie extinta, usando uma espécie filogeneticamente próxima como modelo de edição genética. No auge desta polémica científica, vários paleontólogos, geneticistas e cientistas recorreram às plataformas digitais para esclarecer severamente a realidade biológica em questão.

“Não é um lobo-terrível. É um lobo cinzento com 20 edições de genes de lobo terrível, demonstrando então traços de lobo terrível. (…)” – Carl Zimmer (via BlueSky, foto via Andrew Zuckerman.)

De qualquer das formas, é reconhecido que o que a empresa de biotecnologia realizou com sucesso é uma forma avançada de engenharia genética que tem como objetivo a recriação de certos fenótipos.

O dodó, lobo-da-Tasmânia, mamute e as moas:

Depois da atribulada de-extinção do lobo terrível, a empresa almeja realizar o mesmo tipo de protocolos em várias outras espécies, tais como o mamute, cujo retorno visa revitalizar as pradarias do Ártico para ajudar no sequestro de carbono e na estabilização do permafrost.

Segue-se o lobo-da-Tasmânia, focado em restaurar o equilíbrio predatório nas florestas australianas e travar o declínio da biodiversidade local.

No caso do dodó e das moas, a motivação prende-se com a regeneração de ecossistemas insulares nas Maurícias e na Nova Zelândia, respectivamente, onde estas aves desempenhavam papéis cruciais na dispersão de sementes.

De momento, a de-extinção em estadio mais avançado é a do mamute, onde a empresa já conseguiu identificar os genes chave que distinguem estes animais dos elefantes modernos, como a tolerância ao frio, forma das presas, crânio etc.. Para validar estas descobertas, a Colossal utiliza o murganho como modelo biológico fundamental, tendo criado o chamado rato lanoso ou woolly mouse. De acordo com o site oficial, estes avanços em modelos menores permitem testar a estabilidade das edições genéticas e a segurança dos protocolos antes da aplicação em embriões de elefante, aproximando a ciência do nascimento do primeiro híbrido funcional de mamute.

Murganho-lanoso (esquerda), e murganho padrão (direita). (via Science News)

O objetivo fundamental de todos estes projetos é a restauração de nichos ecológicos vitais que foram perdidos, utilizando a tecnologia para reverter danos históricos causados pela atividade humana e promover um planeta mais resiliente.

O dilema da ciência: ética e experimentação

Várias perguntas e preocupações podem ser levantadas face a este novo paradigma científico. No centro do debate encontra-se a ética da experimentação animal, que obriga a comunidade científica a questionar onde se deve traçar a linha na manipulação de seres vivos apenas para recriar o passado.

Além disso, existe uma incerteza real sobre o impacto ambiental de reintroduzir espécies extintas em ecossistemas modernos, que sofreram alterações profundas desde o seu desaparecimento. Mesmo que estes animais sejam apenas semelhantes fenotipicamente à espécie alvo, o facto de serem híbridos levanta questões fundamentais relativamente ao seu comportamento no ambiente atual e de que forma poderiam interagir com a fauna e flora existentes.

Por fim, surge a questão da responsabilidade científica, alimentando o debate sobre se é moralmente correto investir recursos massivos na ressurreição de animais perdidos em vez de os priorizar na proteção e conservação das espécies que se encontram atualmente em perigo crítico de extinção.

Paradigma atual o futuro: “Estaremos nós a caminhar para a novela de Steven Spielberg?”

Atualmente, o trabalho da Colossal Biosciences é recebido pela comunidade científica com uma mistura de entusiasmo, ceticismo face às promessas ambiciosas e profunda preocupação ética.

A investigação da empresa caminha agora entre a necessidade de validação científica em murganhos e a promessa de devolver os mamíferos gigantes ao Ártico. Este avanço representa um ponto de viragem na biotecnologia, onde a futura capacidade de editar a vida nos obriga a refletir sobre os limites da nossa intervenção na natureza.

Embora a empresa reconheça que os seus objetivos podem demorar anos a concretizar, cabe à nova geração de cientistas e filósofos a responsabilidade de monitorizar estas fronteiras, garantindo que a inovação seja guiada pela ética e pelo compromisso com a biodiversidade real do planeta.

Artigo redigido por João Fernandes Moutinho. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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