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Ciência e Saúde

A febre das alternativas ao tabaco tradicional: os riscos e a publicidade enganosa

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sarahjohnson1, Pixabay

Os cigarros eletrónicos, tabaco aquecido e Snus são publicitados como opções mais seguras e ideais no processo de cessação de consumo do cigarro convencional. Contudo, os seus riscos não são desprezíveis.

A origem do consumo de tabaco e produtos derivados remonta ao primeiro século AC, quando a civilização Maia, da América Central, utilizava folhas de tabaco, oriundas da planta Nicotiana, em cerimónias religiosas.

O tabaco era também utilizado por peritos da área da saúde no tratamento de patologias como a asma, problemas intestinais, depressão, queimaduras, entre outros.

Contudo, foi a chegada de Cristóvão Colombo às Américas que impulsionou a disseminação da cultura do tabaco por todo o mundo, promovida pelos portugueses e espanhóis. Médicos e humanistas dos séculos XVI e XVII publicitavam o tabaco como uma “erva santa”, capaz de curar abcessos, fístulas e até cancros.

Apesar dos alertas dos médicos do século XVIII para os potenciais malefícios do tabaco, observava-se um crescimento exponencial no seu consumo.

Com o desenvolvimento da publicidade e da indústria e as revoluções que despoletavam nos vários países da Europa e América no século XIX, os argumentos dos especialistas eram abafados pela necessidade acrescida de produção em massa de cigarros, charutos e cachimbos. Entre 1880 e 1885, as vendas aumentaram em mais de 75 por cento.

No século passado, empresas tabaqueiras dependiam consideravelmente da publicidade para contrariar o alarme provocado pelos vários artigos científicos que descreviam os malefícios do consumo.

Os efeitos nocivos do tabaco eram mascarados com mensagens que o anunciavam como benéfico para a saúde, protetor contra a obesidade e tosse. Celebridades e médicos promoviam o consumo com cores vibrantes e sorrisos rasgados. Fumar tornou-se um hábito elegante e sinónimo de conforto, associado ao quotidiano das classes média e alta.

Publicidade a tabaco. “Reach for a Lucky” ad (1930), American Tobacco Company, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Estes mesmos ideais podem explicar a crescente adesão a alternativas ao tabaco tradicional na atualidade.

Hoje em dia, a indústria tabaqueira gera cerca de 1,2 mil milhões de euros para os cofres do Estado. É, atrás das petrolíferas, o setor mais importante para a atividade económica portuguesa.

Segundo a Lei nº37/2007 (atualizada em 2023 e 2024), é, atualmente, proibido fumar em locais fechados, locais de trabalho, estabelecimentos de saúde e ensino e áreas ao ar livre próximas de restaurantes, cafés e escolas. A venda automática e locais de venda estão limitados e é proibida qualquer publicidade a tabaco e alternativas. A proibição de adição de aromatizantes e obrigação de apresentação de advertências de saúde nas embalagens foi, recentemente, estendida ao tabaco aquecido.

 

Tabaco aquecido e a moda do IQOS®

A tecnologia do tabaco aquecido foi introduzida em 1988 pela RJ Reynolds no mercado norte-americano. Em 2014, a Philip Morris International (PMI), empresa multinacional detentora da Tabaqueira, lançou a sua versão, intitulada IQOS®, que rapidamente viu Portugal tornar-se num dos seus mercados principais.

Dispositivo IQOS®. Aphis Marta (2021), CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Esta alternativa consiste num sistema de aquecimento de cilindros de tabaco através de um componente metálico que, quando ativado, aumenta a temperatura até níveis inferiores aos da combustão verificada no tabaco tradicional (240 a 350 ºC ao contrário dos mais de 600ºC do cigarro convencional).

Isto implicará uma redução da libertação de certos componentes tóxicos do tabaco e a extinção de odores e fumo, vantagens aproveitadas e destacadas pelas marcas na promoção de produtos alternativos ao cigarro tradicional.

Contudo, os efeitos nocivos para o consumidor e fumadores passivos são de extrema relevância.

Por um lado, a presença de cerca de 84 por cento da nicotina encontrada num cigarro convencional mantém o elevado risco de desenvolvimento de dependência. Por outro, certas substâncias prejudiciais surgem em quantidades superiores (como a glicerina), ou mesmo de novo.

Compostos orgânicos voláteis, como os carbonilos (formaldeído, acetaldeído…), presentes no filtro de polímero das recargas dos dispositivos, não sofrem combustão, mas antes uma degradação térmica que pode acentuar os seus efeitos, como por exemplo, a libertação de cianohidrina, uma molécula altamente tóxica.

Estudos revelam que podem ser identificados sinais de pirólise, ou seja, tabaco carbonizado por combustão (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos), mesmo que, alegadamente, não ocorra este processo.

Apesar de se registar uma redução de carcinogéneos e tóxicos, não existe uma eliminação completa, tendo sido encontradas partículas ultrafinas, alcatrão, acrilamida, entre outros potenciadores do desenvolvimento de doenças oncológicas.

O uso de tabaco aquecido está associado a uma importante toxicidade pulmonar, imunitária, endotelial (formação de placas e coágulos nos vasos), hepática, reprodutiva e cardiovascular (aumento da frequência cardíaca e pressão arterial). Nos jovens, principais consumidores, tem um impacto negativo no desenvolvimento cerebral.

A ausência de fumos e cheiros também mascara a realidade da exposição ao fumador passivo. A libertação de compostos prejudiciais ao sistema respiratório de pessoas conviventes é relevante (entre dois e seis miligramas por hora). Sintomas desta exposição reportados incluem sensação de mau estar, dores oculares e irritação da garganta.

Em 2021, o número de fumadores de IQOS® em Portugal já ultrapassava os 300 mil.

 

Cigarros eletrónicos e os perigos escondidos do vaping

Contrariamente ao tabaco aquecido, os cigarros eletrónicos não contêm tabaco. A libertação de nicotina ocorre por aquecimento de uma solução de e-líquido, composta por propilenoglicol, glicerina e aromas.

Gama de cigarros eletrónicos. sarahjohnson1, Pixabay

A primeira patente de um cigarro sem tabaco nem produção de fumo nasceu em meados dos anos 60, contudo, o cigarro eletrónico como o conhecemos hoje só surgiu em 2003, por Hon Lik.

Globalmente, estes produtos estão associados a uma redução do risco de formação de compostos carcinogéneos e produtos de pirólise e desenvolvimento de citotoxicidade celular, quando comparados com o tabaco aquecido. As temperaturas máximas do e-líquido encontram-se entre os 190 e os 290 ºC.

Ainda assim, os potenciais malefícios são importantes, sendo, em grande parte, explicados pela presença do propilenoglicol. Esta substância acarreta riscos como irritação da pele, mucosas e vias respiratórias por libertação de mediadores inflamatórios, hiperventilação, edema pulmonar, arritmias, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, falência renal e toxicidade cerebral e hepática. Pode também sofrer uma metabolização em óxido de propileno, um importante indutor da carcinogénese.

Por outro lado, a flexibilidade do e-líquido permite que exista uma extensa variabilidade de composições disponíveis, incluindo diferentes concentrações de nicotina e sabores, desde fruta a bebidas, muitas vezes não regulamentados ou verificados. Esta liberdade de personalização da experiência do vaping possibilita também o uso de substâncias como os derivados da cannabis.

Apenas um por cento dos adultos fuma cigarros eletrónicos em Portugal, mas esta percentagem tem vindo a aumentar em faixas etárias mais jovens.

 

Snus: a versão discreta da adição

O Snus é um produto derivado do tabaco, comercializado em forma de saqueta, que é colocada atrás do lábio superior. Durante a sua produção, o tabaco é misturado com sal e água e rigorosamente processado através de uma técnica semelhante à pasteurização.

Snus. StingFree, Pixabay

Originário da Suécia no século XVII, é, desde 1992, ilegal em todos os países da União Europeia, exceto neste país nórdico. No entanto, a procura e venda têm vindo a aumentar exponencialmente em Portugal e outros países, existindo uma cultura crescente do consumo do Snus associada ao desporto, nomeadamente, a atletas de futebol.

O Snus surge como uma opção considerada mais discreta e segura, comparativamente a outros produtos mencionados anteriormente. Devido à sua natureza absorvível, não inalável, o risco de doenças respiratórias, como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e o cancro do pulmão, reduz significativamente.

Porém, os efeitos de dependência e alterações da frequência cardíaca e hipertensão arterial associados à nicotina mantêm-se e podem até estar exacerbados devido à acelerada absorção. O seu elevado consumo (mais de quatro latas por semana) pode aumentar o risco de desenvolvimento de Diabetes Mellitus tipo dois e enfartes agudos do miocárdio.

Os efeitos mais comumente observados são as lesões orais não cancerosas, como úlceras na gengiva e mucosa no local de aplicação da saqueta e irritação e ardor locais, que, ainda assim, tendem a desaparecer após desmame.

Poderá estar presente um risco aumentado de cancros oral, esofágico e pancreático.

Existe uma alternativa ao Snus com tabaco, as bolsas de nicotina. Estas são apenas constituídas por nicotina e aromas e, até há pouco tempo, escapavam por entre lacunas legais da União Europeia.

No entanto, o Governo português lançou, na última semana, um regime jurídico específico que pretende estabelecer limites para a quantidade de nicotina nestas bolsas, proibir a venda a menores e publicidade e aplicar obrigações de rotulagem.

 

Um importante entrave à análise da evidência científica disponível prende-se pelo facto de que a grande maioria dos estudos realizados é financiado pelas próprias empresas tabaqueiras, como a PMI, que se posicionam junto aos governos como aliados no combate à dependência do tabaco.

Isto permite que produtos como o IQOS® e os vapes sejam facilmente acessíveis às grandes massas, por exemplo, em eventos como festivais e espaços como aeroportos.

As alternativas ao tabaco tradicional, consideradas opções ideais no processo de cessação tabágica, podem ser, na verdade, potenciadores da dependência e levar ao nascimento de novos fumadores e adições.

O principal público-alvo da publicidade das indústrias tabaqueiras são os jovens, sendo que o número de menores de idade que já aderiram a estes produtos é alarmante (pelo menos quinze milhões de jovens entre os treze e quinze anos em todo o mundo).

Existe uma relação causal entre a publicidade e o consumo de produtos derivados do tabaco e nicotina entre os jovens. A promoção de sabores apelativos, colaborações com celebridades e alegações parcialmente verdadeiras influenciam consideravelmente os hábitos tabágicos desta faixa etária.

A pressão de pares e a maior aceitação em espaços públicos transformam estes produtos alternativos em autênticos determinantes de estratos sociais e relações interpessoais entre adolescentes.

 

Perante um caso de dependência tabágica, a solução deverá passar pela cessação completa do consumo de qualquer tipo de produtos deste foro. Existem, em Portugal, múltiplos programas de cessação do tabagismo que oferecem um suporte multidisciplinar, com consultas nas mais diversas especialidades, incluindo apoio psicológico e, comumente, terapêutica farmacológica.

Artigo redigido por Catarina Pereira. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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