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Ciência e Saúde

De veneno a tratamento: como a toxina botulínica mascara a idade

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Dose da toxina botulínica para aplicação

Nem sempre tudo aquilo que parece efetivamente é! O botox é o melhor exemplo disso. Atualmente, é amplamente usado em diversos procedimentos estéticos, com o objetivo de trazer um sentimento de rejuvenescimento. No entanto, nem sempre foi assim.

 

Botulismo: a sua história e origem

Produzida pelas bactérias da espécie Clostridium botulinum, a toxina botulínica é considerada a neurotoxina biológica mais letal do mundo. Foi graças ao médico alemão Justinus Kerner, que, no início do século XIV, foram retratados os efeitos neurológicos causados por esta toxina. Esta descoberta foi motivada pelo surto de botulismo ocorrido no final do século XVIII, na Alemanha, que tinha culminado na morte de inúmeras pessoas, pela ingestão de salsichas estragadas, o chamado “sausage poisoning”, que nada mais era que a toxina botulínica ou o botox.

Nas décadas seguintes, foi conduzida uma extensa investigação à volta desta toxina, tendo-se concluído que inibia a libertação de acetilcolina pelos neurónios motores terminais. O seu nome deriva da palavra latina botulus, que se traduz para salsicha, devido aos surtos de botulismo por ela causados terem origem no consumo de enchidos e/ou molhos com carne. Além disso, devido à sua alta toxicidade, já foi usada em estudos para o uso em contexto militar ou em ataques terroristas, tendo sido classificada como uma arma biológica. Apesar de raros, episódios de botulismo pela ingestão de produtos contaminados ainda podem acontecer. Os primeiros sintomas a aparecer são do foro gastrointestinal. No entanto, caso não seja diagnosticado, os sintomas evoluem para problemas neurológicos.

Toxina botulínica: tipos e modo de atuação

Apesar de comumente se pensar que a toxina botulínica é apenas uma neurotoxina, existem diversas variações já conhecidas e identificadas. As principais e mais comuns são as do tipo A e B, que podem causar o botulismo, mas que, se aplicados corretamente, também são usados nos ramos da medicina e cosmética. Os outros tipos (C1, C2, D, E, F e G) são menos usuais.

Nas décadas seguintes, foi conduzida uma extensa investigação à volta desta toxina, tendo-se concluído que a toxina inibia a libertação de acetilcolina pelos neurónios motores terminais. A forma como atua é transversal às diferentes variantes. A neurotoxina botulínica atua na junção neuromuscular, que corresponde à zona de contacto e comunicação entre um neurónio motor e uma fibra muscular. Ao bloquear a comunicação entre os neurónios e os músculos, causa a paralisia flácida, uma condição que caracterizada pela fraqueza muscular severa.

Localização da junção neuromuscular

Fonte: Wikipédia, traduzido do inglês

O seu mecanismo encontra-se dividido em etapas diferentes. A primeira fase é a ligação da toxina aos terminais dos neurónios colinérgicos pré-sinápticos, responsáveis pela libertação da acetilcolina. Este processo ocorre, através do reconhecimento dos gangliosídeos e de determinadas proteínas da membrana, o que explica a neurotoxina só se ligar a este tipo de neurónios. De seguida, a toxina sofre endocitose, processo no qual ocorreu a entrada da toxina para o interior da célula. Quando já se encontrar no interior da célula neuronal, a toxina vai libertar uma das suas cadeias. É neste momento, que é desencadeada a reação, que se inicia com a clivagem de proteínas SNARE presentes no interior dos neurónios. Sem estas proteínas, não se liberta o neurotransmissor acetilcolina, responsável pela continuação da transmissão do impulso nervoso, determinando este episódio de neuropatologia.

Aplicações na cosmética e na medicina

O botox nem sempre foi considerado uma substância com propriedades medicinais. Todavia, atualmente é usado em diversos tratamentos, bem como para fins cosméticos, que são o destino primário.

A história da aplicação do botox na melhoria da qualidade de vida começou nos anos 70, quando um oftalmologista (Dr. Scott) estava à procura de uma substância para tratar condições como o estrabismo, evitando a realização de uma cirurgia complexa aos músculos que rodeiam os olhos. Nessa investigação, chegou à conclusão que o botox, se aplicado em locais específicos e em doses pequenas, teria um efeito benéfico.

Desta forma, em 1991 a FDA (Food and Drug Administration), a agência federal de saúde pública dos Estados Unidos da América aprovou a toxina botulínica do tipo A, como uma substância para o tratamento de estrabismo. A partir daí, as propriedades medicinais desta toxina foram alastradas para o tratamento de outras doenças como os tremores, espasmos ou até a incontinência urinária. Mas é no ramo da cosmética, que o botox ganha uma grande importância no tratamento de rugas e, por isso, no rejuvenescimento da pele. Ao impedir a contração e distensão de músculos, pode ser usada para fins curativos e estéticos.

 

Artigo da autoria de Armando Santos. Revisão por Isabel Santos de Sousa.

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