Connect with us

Ciência e Saúde

O turismo de natureza como ferramenta de conservação da vida selvagem e prevenção da depressão

Published

on

Fonte: Gil Sampaio
Fonte: Gil Sampaio

E se houvesse uma forma de conciliar a conservação da natureza, o lucro e a saúde mental das pessoas, num mundo cada vez mais urbano, momentâneo e digital?        

Uma Nova Forma de Turismo

O desenvolvimento de atividades lúdicas que envolvam o ambiente natural, designado comummente por “turismo de natureza”, apresenta-se como uma opção diferente, sustentável e até lucrativa, distinta do convencional. Cada vez mais comum nos dias que correm, esta alternativa ao turismo de massas começa a ganhar a fãs e fama.

Este modelo turístico surgiu durante os anos 70 e 80 do século passado nos Estados Unidos da América e associa-se aos primeiros grandes movimentos ambientalistas e ao começo da valorização de áreas protegidas. A partir dos anos 90, ganhou força na Europa e, mais recentemente, em países da América Latina, África e Ásia, onde a biodiversidade já era um grande símbolo cultural e agora se tornou também num ativo económico substancial.

Ao contrário do turismo convencional, centrado no consumo rápido e na sobrelotação de destinos, o turismo de natureza ou ecoturismo promove experiências imersivas em ambiente natural, como por exemplo: a observação de fauna selvagem, caminhadas interpretativas e educação ambiental.

Fonte: Gil Sampaio

Quando a Conservação também gera Lucro 

            É comum associar ações que envolvam a vida selvagem, quer científicas, quer didáticas/sociais, a práticas não lucrativas, onde fundos são “desperdiçados”. Esta prática contraria essa forma de pensar. Diversos estudos demonstram que o turismo de natureza, quando bem implementado e, consequentemente, bem gerido pode ser uma ferramenta muito eficaz na conservação da biodiversidade. A presença de turismo numa dada região cria incentivos económicos diretos para a gestão da paisagem, bem como a proteção de habitats e de espécies.

            Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), áreas protegidas que integram programas de ecoturismo sustentável apresentam maiores investimentos em vigilância, menor incidência de caça furtiva e maior envolvimento das comunidades locais na conservação. Um bom exemplo é o continente africano. Com vastas regiões onde antes o caça/abate ilegal de espécies era uma das poucas fontes de rendimento, o turismo de natureza, neste caso em particular, os safaris, passou a oferecer uma alternativa económica viável de conservação da biodiversidade, onde esta está a começar a deixar de ser um recurso explorado e começa a ser um património preservado. Os rendimentos provenientes desta prática são utilizados não só na gestão da paisagem e proteção das espécies, como também no desenvolvimento nas comunidades locais.

Fomento do investimento na escolarização e educação das comunidades locais africanas. Fonte: Freepik

A Natureza e a Saúde Mental

Para além dos benefícios ambientais, o impacto desta atividade na saúde mental é amplamente documentado pela ciência.

Uma meta-análise publicada pela revista Nature Mental Health concluiu que pessoas que passam pelo menos duas horas semanais em ambientais naturais apresentam níveis significativamente mais elevados de bem-estar psicológico. Um outro estudo, publicado na revista Nature, revelou que caminhadas em ambientais naturais reduzem a ruminação mental, que é um dos principais fatores de risco da depressão, quando comparadas com caminhadas em ambientes urbanos.

O Caso Português

De norte a sul, Portugal tem uma extensa rede de áreas protegidas que reflete a biodiversidade e riqueza de paisagens do nosso território, sendo que várias destas áreas recebem milhares de visitantes anualmente. Por exemplo, no concelho de Terras de Bouro, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, o número de dormidas aumentou aumentou mais de 215% em duas décadas, passando de 47 mil em 2001 para quase 150 mil em 2022. Além disto, dados recentes indicam que as atividades de caminhada e turismo de natureza aumentaram cerca de 25% em 2022. No entanto, apesar do efeito que o turismo de natureza tem sobre o ser humano,  o Estudo Nacional de Saúde de 2025 revelou que ainda metade da população apresenta níveis elevados de stress, sendo que uma parte considerável apresenta sintomas emocionais persistentes. Um outro inquérito mostrou que cerca de 12% dos portugueses vivem com depressão crónica, um valor acima da média europeia.

Numa sociedade cada vez mais distante de si própria e da natureza, onde a vida académica e profissional pressionam cada vez mais as pessoas para o abismo dos problemas de saúde mentais, o investimento no ecoturismo pode significar investir simultaneamente na saúde do planeta e na saúde mental das pessoas, um bom exemplo de mutualismo. Talvez a solução para todas estas problemáticas seja simples e longe dos ecrãs, talvez esteja lá fora, no mundo, entre florestas, rios e o canto das aves.

Artigo redigido por Gil Sampaio. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *