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Cultura

O ÚLTIMO DIA DE NPS: PRIMAVERA MOLHADO, PRIMAVERA ABENÇOADO

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A fila para o balcão de informações parece não ter fim: mal os festivaleiros da frente saem, outros atrás logo se colocam. Decorre a distribuição de impermeáveis e, mais tarde, de guarda-chuvas, necessários ao último dia chuvoso de NOS Primavera Sound.

“We came from England and it was sunny there”, brincam os Rolling Blackouts Coastal Fever, provocando risos na audiência. Já com os impermeáveis vestidos, os festivaleiros vão-se juntando lentamente junto ao palco SEAT, pelas 18h. Os cinco músicos australianos trazem os seus dois EP’s: Talk Tight (2016) e The French Press (2017), com um cheirinho do álbum que lançam no próximo fim de semana, Hope Downs.

Ao longo do concerto, em que se ouviu a “Wither With You”, “Sick Bug”, “Fountain of Good Fortune”, “Mainland” e – “one song left and we’re gonna enjoy the festival like the rest of you” – “The French Press”, o público foi aderindo cada vez mais ao indie rock puro dos Rolling Blackouts C.F, dançando e abanando a cabeça ao som da música que tinha todos os sons familiares deste género musical aplicados numa nova fórmula. Saem do palco com as latas de Superbock na mão e, estando no Porto, sabemos que estão prontos para aproveitar o resto do dia.

O grande momento da noite (e, provavelmente, o grande momento do festival) é facilmente identificável. O palco NOS experiencia a maior enchente dos três dias do festival. O regresso de Nick Cave & The Bad Seeds ao Primavera Sound – que na altura ainda era Optimus – era já muito esperado. O público tem as expectativas elevadas, uma mão livre para acenar ao ritmo das músicas, a outra segura o pacote de lenços.

A banda que celebra 35 anos inicia o concerto com “Jesus Alone” e “Magneto” do seu último álbum, Skeleton Tree (2016). Estão abertas as portas para um momento de pura catarse – tal e qual como a definia Aristóteles: a purificação da alma, através de uma libertação de emoções, enquanto se assiste a um espetáculo. Segue-se “Do You Love Me?” e a “From Her to Eternity”, de 1987, que, para quem conhece a versão gravada, permite perceber a evolução da voz de Nick Cave, ainda que com a mesma medida de alucinante.

“Loverman” e “Red Right Hand” (e esta fotografia de Nick Cave na Casa da Música?) despertam a energia da plateia, que canta e grita nos momentos chave. Nick Cave canta a olhar diretamente para o público, por vezes amoroso, outras com uma certa provocação, enquanto se deixa tocar por mãos de quem ocupa a primeira fila. Mantém esta proximidade durante todo o concerto.

“Into My Arms” traz algumas lágrimas à plateia, que canta em coro. Até as nuvens cedem às palavras e voz de Nick Cave e acentuam o seu choro. Nada disto incomoda os festivaleiros, completamente absorvidos no espetáculo que se desenrola à frente deles. E espetáculo é o que Nick Cave e os Bad Seeds continuam a dar durante “Girl in Amber” e “Tupelo”. “Jubilee Street” tem um início suave que desagua numa escalada assombrosa e deixa o público em êxtase.

“This is a Weeping Song, a song in which to weep”, cantam todos os presentes, à medida que Nick Cave caminha por uma plataforma pelo meio do público. Deixa o seu microfone com uma fã e faz uma dinâmica de palmas com a plateia, que se relembra de que não está a assistir a apenas mais um concerto. “Stagger Lee” – em que se diria que Warren Ellis violou o violino, não fosse o som que dele saía consensual – antecede a última música: “Push The Sky Away”. Nick Cave convida vários fãs para subirem ao palco e a última imagem que o público retém deste concerto memorável é um coro disposto em dois patamares do palco, com Nick Cave em posição central, enquanto todos cantam “Keep on pushing, push the sky away” repetidas e suaves vezes.

Já falta pouco para o concerto dos The War on Drugs, no palco SEAT. O público demora a chegar, ainda abalado e em fase de recuperação da explosão emocional de Nick Cave & The Bad Seeds. Contudo, a noite continua e é com “Burning” que a banda norte-americana abre a sua performance. O concerto é uniforme. Os The War on Drugs vieram para tocar e é isso que fazem. E é só isso que o público pede. As músicas falam pela banda e entretêm a plateia, ao longo de músicas do álbum que venceu o Grammy no ano passado para Melhor Álbum Rock (A Deeper Understanding) como “Pain”, “Strangest Thing”, “Nothing to Find” e “Knocked Down”. Terminam com “Red Eyes” e “Under the Pressure”, do Lost In The Dream (2014) e são alvo de uma enérgica salva de palmas.

No mesmo registo, atuam os Mogwai no palco NOS. Atuam sem concorrência, mas nem isso faz encher o relvado. Paredes de luz ladeiam a banda de Glasgow, que entretém os festivaleiros e a chuva com o seu post rock de distorção. “Party in the Dark”, “I’m Jim Morrison, I’m dead”, “Don’t Believe the Fife” e “Auto Rock” são alguns dos produtos musicais que fizeram os visitantes acenar com a cabeça, enquanto balançam o corpo.

A noite termina com chave de ouro, no palco Pitchfork. Esta chave abre a fechadura de uma realidade provocadora, que testa os limites sociais, sem pedir permissão. “The bitch is back. Make some fucking noise!”. Arca, o artista venezuelano, procura chocar, quer pela (pouca) roupa que veste, quer pelas danças sexuais que protagoniza, passando pelos vídeos que servem de background, que são um produto da mistura de fofinho, perturbador e desconcertante – e melhor não dá para os descrever.

A música, também ela, tem combinações improváveis: a eletrónica experimental, puramente dance parte das vezes, junta-se a ritmos latinos, como o reggaeton e sons tradicionais da Venezuela, e recebe uns toques clássicos. O público é conquistado pela maior surpresa da noite. No final, o músico e produtor abandona o palco sob um forte aplauso da plateia, sem esquecer os seus pertences: a mala, os óculos de sol e a garrafa de champagne na mão.

Termina assim (para aqueles que não prolongam a noite do palco Bits) a edição de 2018 do NOS Primavera Sound, que contou com cerca de 30 mil visitantes por dia. O balanço do festival é positivo. Gustavo Pinto, estudante da ISAG, destaca a atuação de A$AP Rocky, enquanto que Patrícia Cunhal, que trabalha na PT e veio ao festival pela primeira vez, não esquece a performance de Fever Ray: “não conhecia e foi espetacular”.

O festival permite aos visitantes verem os seus artistas favoritos ao vivo, ao mesmo tempo que conhecem novos músicos e sons. O NOS Primavera Sound já tem datas para o próximo ano: de 6 a 8 de junho regressa ao Parque da Cidade.